13 Fevereiro 2026
Com Costruire un mondo comune (Construir um mundo comum, Piemme-Libreria Editrice Vaticana, €21), com prefácio de Carlo Petrini, retorna às livrarias Gaël Giraud, matemático, economista, teólogo, padre jesuíta e diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) de Paris, com um passado de economista-chefe da agência francesa do desenvolvimento e de diretor do programa de justiça ambiental da Universidade de Georgetown, de Washington, que ele fundou.
Giraud é considerado um dos mais importantes teóricos da transição ecológica internacionalmente. Com esse novo livro – lançado dois anos após "Il gusto di cambiare. La transizione ecologica come via per la felicita” (O sabor da mudança: a transição ecológica como caminho para a felicidade) – ele nos diz que é chegou a hora de encontrarmos respostas concretas para algumas questões fundamentais, como: o conceito de propriedade privada deve ser reexaminado? A soberania dos Estados nacionais ainda é sustentável? Como podemos colaborar eficazmente para construir instituições internacionais capazes de preservar nossos bens comuns globais?
A entrevista é de Giorgio Vincenzi, publicada por il manifesto,12-02-2026.
Eis a entrevista.
Giraud, ao pegar o livro nas mãos, imediatamente o olho salta para um subtítulo provocativo na capa: "E Deus NÃO abençoou a propriedade privada". O que quer nos dizer?
As Escrituras não condenam a propriedade privada em si, mas a apropriação exclusiva que nega o acesso a bens fundamentais aos mais necessitados. Deus criou o mundo como um dom gratuito para todos, não como um privilégio para poucos. Quando a propriedade privada se torna absoluta, desumaniza e destrói a fraternidade. Esse livro é um convite a repensar a propriedade como serviço ao bem comum, não como domínio. No direito latino clássico, a res communis era considerada a forma mais elevada de propriedade, enquanto a res privata constituía a sua forma mais baixa. Hoje, nossa sociedade subverteu completamente essa ordem hierárquica.
Esse é o primeiro de dois volumes nos quais pretendo oferecer reflexões e propostas para a construção de um futuro sustentável baseado nos ensinamentos bíblicos. Concretamente?
Nesse primeiro volume, exploro os fundamentos teológicos e econômicos para uma ecologia integral. Proponho a relocalização da economia, a criação de moedas complementares, a instituição de uma renda básica ecológica e o reconhecimento jurídico dos bens comuns fundamentais: água doce, clima, saúde, florestas e conhecimento. A Bíblia nos ensina que a justiça social é inseparável do cuidado com a Terra. Na grande tradição patrística, São Tomás também coloca a propriedade comum no ápice da hierarquia das formas de compreender o dom da criação. Os bens comuns fazem parte do direito natural, mas não a propriedade privada. Esta última faz parte apenas do direito positivo — aquilo que os seres humanos atribuem a si mesmos e que pode ser contingente ou arbitrário — de modo a aliviar o cansaço que comporta o indispensável debate para a gestão dos bens comuns. Em última análise, poderíamos dizer que a propriedade privada é uma medida paliativa para nos aliviar do esforço democrático. Foi o inglês John Locke (1632-1704) quem inverteu o papel da propriedade privada, inserindo-a no direito natural. Isso contraria toda a grande tradição cristã. Mas nesse livro também mostro que os Atos dos Apóstolos nos ensinam que existe outro perigo, simétrico à absolutização da propriedade privada: o da absolutização da res publica, isto é, do poder do Estado. Esses dois perigos são extremamente atuais.
E quanto ao segundo volume?
Abordarei a imensa questão da reforma gregoriana e como, ao inventar o direito canônico no século XI, o Papa Gregório VII reinventou o Estado moderno na Europa. Todos os Estados que conhecemos hoje se inspiraram em sua reforma. Trata-se, portanto, de uma virada fundamental que precisa ser compreendida. Mas falaremos sobre isso no próximo ano.
Acima falamos sobre os bens comuns e, consequentemente, também sobre a defesa da Terra. O senhor esteve na COP30 em Belém (Brasil). Qual foi a sua opinião sobre esse evento, onde estratégias para a defesa do planeta deveriam ser elaboradas?
Não foi nem um sucesso nem um fracasso total. Por um lado, marcou um progresso real na justiça climática: maior reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, fortalecimento da ligação entre clima e questões de gênero e a confirmação da triplicação dos financiamentos para a adaptação até 2035. A arquitetura das finanças verdes também foi fortalecida, com novas iniciativas para a proteção das florestas e um envolvimento mais explícito dos ministros das finanças nas negociações climáticas. No entanto, a COP30 falhou no ponto central: a ausência de um roteiro concreto para a saída gradual dos combustíveis fósseis. Sem um planejamento claro para o fim do petróleo, gás e carvão, será impossível atingir as metas climáticas. Felizmente, porém, alguns países não se renderam a esse fracasso.
Quais?
Refiro-me à Colômbia de Gustavo Petro e à Holanda, que, ao final da COP30, anunciaram sua decisão de organizar a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição Justa dos Combustíveis Fósseis, nos dias 28 e 29 de abril, em Santa Marta, Colômbia. A ideia é criar um fórum paralelo à COP para trabalhar em um roteiro global para a saída dos combustíveis fósseis. Na prática, reunir uma coalizão de países e voluntários para discutir os caminhos jurídicos, econômicos e sociais para implementar essa transição. Naturalmente, se analisará a questão da legitimidade de quaisquer conclusões resultantes de tal evento em relação à "comunidade internacional", ou melhor, ao que resta dela hoje. Se essas negociações paralelas forem bem-sucedidas e reunirem um número significativo de países, será muito difícil ignorá-las na COP31 em Antalya, na Turquia.
Muitos se perguntam se a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ainda tem sentido quando os acordos estão consistentemente sendo redefinidos para baixo.
O multilateralismo está em crise hoje, não apenas em relação ao clima, mas em muitas outras questões globais. Hoje, são os Estados Unidos que estão pisoteando a própria ideia de direito internacional, sem o qual nenhum multilateralismo faz sentido. No entanto, a COP continua sendo o único espaço político no qual os povos do mundo ainda podem se confrontar. Em sua exortação apostólica Laudate Deum, o Papa Francisco expressou seus votos por um "multilateralismo de baixo". Acredito que ele estava absolutamente certo: precisamos criar fóruns de diálogo onde não apenas diplomatas e lobistas se encontrem, mas também a sociedade civil do planeta. A COP pode se tornar esse fórum. De fato, uma novidade extremamente interessante já foi atribuída à última COP no Brasil.
A que se refere?
Ao Pacote de Belém, que pela primeira vez inclui referências explícitas ao comércio internacional como tema de coordenação entre as nações. Essa é uma inovação fundamental, visto que alguns países reivindicavam há anos poder discutir sobre comércio internacional e, durante anos, a maioria de seus interlocutores apontava que a COP não é o fórum apropriado para tais discussões, mas sim a Organização Mundial do Comércio (OMC). A partir de agora, a COP também se torna o fórum mundial para discutir sobre comércio internacional. A razão para esse importante avanço político reside, obviamente, na nova política tarifária imposta pela Casa Branca, na paralisia da OMC em Genebra, mas também no poder das exportações tecnológicas chinesas de baixo custo, que já arruinaram a indústria fotovoltaica europeia, para citar apenas um exemplo.
Quais alternativas econômicas viáveis devemos buscar?
Já existem iniciativas muito interessantes, como as comunidades energéticas na Itália ou as cooperativas de produção de eletricidade descentralizadas na Alemanha. Na Bélgica, estão tentando firmar contratos entre municípios e agricultores orgânicos, para que estes possam se estabelecer perto das cidades. Os cidadãos se comprometem em comprar seus produtos durante todo o ano, mas também a dedicar uma certa porcentagem do seu tempo para ajudar na fazenda. O agricultor orgânico, em troca, produz exclusivamente para eles. Em nível estadual, é urgente introduzir uma tributação redistributiva que vise patrimônios, rendas e extração de recursos não renováveis, em vez de onerar o trabalho. Do lado das empresas é preciso um novo estatuto jurídico que subordine o lucro à responsabilidade social e ambiental, no modelo das sociétés à mission francesas. Devemos também ter em mente que a justiça social não é um custo, mas sim o motor da resiliência.
Outra questão: como tornar a transição energética uma realidade, quando ela é frequentemente submetida à chantagem dos empregos?
A chantagem é uma falsa oposição. A transição pode criar milhões de empregos dignos: na reestruturação energética dos edifícios, nas energias renováveis distribuídas, na agroecologia. Precisamos de um Plano de Conversão Ecológica, financiado por impostos verdes e empréstimos específicos do BCE, acompanhado de formação profissional e garantias salariais. Trabalho e ecologia caminham juntos, não um contra a outra. E a transição ecológica é uma aliada do emprego, não sua inimiga.
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