Ucrânia, o Papa está isolado: ninguém na União Europeia concorda com sua proposta de cessar-fogo

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01 Março 2023

"A posição de Kiev leva à catástrofe. E a catástrofe é o que Francisco insiste em evitar", escreve Marco Politi, jornalista, ensaísta italiano e vaticanista, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 28-02-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Após um ano de guerra na Ucrânia, o Papa Francisco aparece isolado. Nunca nos últimos sessenta anos a Santa Sé – diante de acontecimentos de importância internacional – se encontrou em situação tão marginal. Na União Europeia, ninguém concorda com a sua proposta de cessar-fogo, que abre caminho a negociações para uma paz que tenha em conta as preocupações das partes envolvidas.

A Grã-Bretanha o ignora. O presidente dos EUA, Biden, não quer interferência. Putin não considera o Vaticano um meio eficaz de se chegar a negociações. Xi Jinping, por questões de política interna, não pretende dar destaque excessivo à posição da Santa Sé. Zelensky, que mesmo após a invasão russa havia cogitado a possibilidade de mediação do Vaticano, agora quer apenas uma coisa: uma viagem do pontífice a Kiev para encurralar ainda mais Putin. A chegada do papa, explica um diplomata ucraniano, "explodiria a última ponte entre o Estado terrorista russo e o mundo civilizado".

É uma situação nunca vivida pela diplomacia vaticana. Nas chancelarias europeias, a voz de Francisco é respeitada, mas marginalizada, silenciada. Em algumas embaixadas tende-se a comentar que basicamente o secretário de Estado Cardeal Parolin e o ministro das Relações Exteriores do Vaticano, Mons. Gallagher, se sentiriam incomodados com a linha intransigente do pontífice argentino. Intransigente porque, como declarou o L'Osservatore Romano no ano passado, o papa de Roma "não pode ser o capelão do Ocidente".

O isolamento do Vaticano é um fenômeno sem precedentes. Decorre da mudança repentina no contexto internacional. Sessenta anos atrás, durante a crise cubana, tanto Kennedy quanto Khrushchev quiseram usar a mediação do Vaticano. Mesmo durante a presidência de Obama, o governo de Washington achou conveniente estabelecer relações com Havana por meio do Vaticano.

Para compensar outra grande crise internacional – a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha em 2003 – a posição claramente oposta de João Paulo II pôde se beneficiar da oposição análoga e convergente da França e da Alemanha (e também de Rússia e China). O Conselho Mundial de Igrejas, a Igreja Anglicana, o Patriarcado Ecumênico Ortodoxo de Constantinopla, o Patriarcado Ortodoxo da Rússia e o Conselho de Igrejas dos Estados Unidos alinharam-se em torno do firme "não" de Wojtyla.

Agora, o mundo cristão está profundamente dilacerado em face da guerra. E na Europa o "motor franco-alemão", como elemento de elaboração política autônoma, falhou. Em 2008, foram Paris e Berlim que bloquearam o impulso do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de expandir ainda mais o espaço da OTAN para o leste, incorporando a Ucrânia. Hoje não existe uma posição europeia. França, Alemanha, Itália, o núcleo histórico da UE, estão em silêncio.

Em 2022, a viagem de Draghi, Macron e Scholz a Kiev pôs em evidência a renúncia a qualquer papel político europeu na discussão dos fins e objetivos da guerra: os três dirigentes limitaram-se a apresentar ao presidente Zelensky o consentimento ao estatuto da Ucrânia como país candidato à União Europeia (que pelas regras em vigor não poderia ter obtido).

As chaves para uma possível solução do conflito estão em Washington, assim como em Moscou. Não há especialista em política internacional ou chefe de setores institucionais-chave (externa e inteligência) dos países da OTAN que não saiba que o dominus da situação é Joe Biden. O presidente dos Estados Unidos agiu até aqui de forma calma e racional. Ele decidirá até onde ir. Mas a escalada do conflito é por natureza imprevisível e ninguém pode imaginar o que aconteceria se a Rússia viesse a considerar viável a opção nuclear, visto que Putin agita o conceito de uma "luta existencial" em seus discursos.

Na ONU, a resolução para uma retirada "imediata, completa e incondicional" da Rússia teve uma clara maioria (141 votos). No entanto, ainda existe uma grande parte da população mundial (China, Índia, Paquistão, África do Sul, mas também Estados que votaram "sim" à resolução) que não quer aceitar a abordagem "ou comigo ou contra mim" do Ocidente frente.

Francisco pode parecer uma Cassandra inédita se nos limitarmos à "faixa branca" do Ocidente. Mas a linha geopolítica global, que ele imprimiu (como Wojtyla) na política vaticana, torna seu grito de alarme cada dia mais lúcido e realista. Não há paz sem cessar-fogo. A paz não pode ser construída se pensarmos apenas em blocos militares. Uma gestão unipolar do mundo não é praticável. Uma nova guerra fria bipolar (EUA-China) não é produtiva para o planeta. Portanto, como Francisco pede, é urgente pensar em uma nova Helsinque, um pacto para um sistema de relações planetárias assinado pelos principais protagonistas da cena internacional.

O recente memorando chinês, escreve l' Avvenire, pode ser criticado, mas é um gesto "político" que requer uma resposta política. Esperar que seja escrito como eles gostariam em Washington não faz sentido. Francisco tem atrás de si o crescente mal-estar das massas populares, que não se deixam convencer pelas proclamações que incitam à "guerra até à vitória". Ou você consegue parar as armas ou corre o risco de cair em um desastre geral.

O primeiro-ministro ucraniano Denis Shmyhal acaba de declarar que não haverá espaço para uma reconciliação com Moscou por cem anos. O objetivo a ser alcançado é que a Rússia seja “democratizada, desmilitarizada e desnuclearizada”. Em suma, o destino da Alemanha em 1945 deve ser reservado à Rússia, ao contrário do que o presidente francês Macron indicou certa vez: defesa da Ucrânia sim, mas "sem vingança e humilhação" para Moscou.

A posição de Kiev leva à catástrofe. E a catástrofe é o que Francisco insiste em evitar.

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