Yanomami: “É um cenário de guerra”, diz Sesai

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26 Janeiro 2023

O titular da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), Ricardo Weibe Tapeba, concedeu uma entrevista coletiva na manhã desta terça-feira (24), em Boa Vista (RR), para falar sobre os trabalhos de enfrentamento da crise humanitária e sanitária que envolve o povo Yanomami. Na ocasião, Tapeba anunciou a construção de hospital de campanha, em Boa Vista, para receber os indígenas, e comparou o cenário encontrado ao de uma “guerra”.

A reportagem é de Leanderson Lima, publicada por Amazônia Real, 24-01-2023.

“Pudemos presenciar realmente o estado de calamidade que o território vive. É um cenário de guerra. A nossa unidade de Saúde Indígena, nosso povo lá de Surucucu, assim como a nossa casa aqui em Boa vista são praticamente campos de concentração”, descreve Ricardo Weibe Tapeba, ressaltando que um relatório está sendo preparado para a ministra da Saúde, Nisia Trindade, que editou a portaria declarando emergência sanitária no território.

Weibe Tapeba, liderança indígena do Ceará, revelou que a intenção é levar um hospital de campanha para dentro do território Yanomami, na região do Surucucu. “Levar uma estrutura mínima com profissionais, materiais, insumos, para recuperar todo esquema de vacinação que foi fragilizado naquela região”, pontua. O secretário da Sesai chegou a Roraima no último sábado, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou Boa Vista acompanhado de uma equipe de ministros, e desde então tem trabalhado junto aos Yanomami e equipes de saúde.

A invasão dos territórios Yanomami é um problema histórico, mas que se acentuou de forma grave nos últimos quatro anos, encorajada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em abril de 1998, o então deputado Bolsonaro elogiou a cavalaria norte-americana pelo extermínio dos indígenas daquele país. “Até vale uma observação neste momento: realmente a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país”, disse à época.

O discurso violento contra os povos indígenas não mudou durante a campanha presidencial, em 2018, quando disse que em um eventual governo seu, os indígenas não teriam um centímetro de terra a mais. E Bolsonaro não só cumpriu a promessa de não demarcar novos territórios, como ainda incentivou a invasão de garimpeiros aos territórios.

“Mataram os rios, mataram os peixes e as comunidades acabam ficando reféns deste cenário de guerra, de horror, de medo e de morte. Infelizmente os dados que aparecem são alarmantes, mas nós acreditamos que há inclusive uma subnotificação muito grande”, analisa Ricardo.

Resgate de pacientes

Ricardo Weibe Tapeba (de vermelho) e equipe da Força Nacional do SUS desembarcando em Roraima. (Foto: Divulgação | Redes sociais)

O secretário de Saúde Indígena afirma que mais de mil indígenas do povo Yanomami já foram “resgatados” desde o início da operação. O governo já identificou indícios de irregularidades em alguns contratos, de acordo com Tapeba. “Queremos implantar aqui uma auditoria para acompanhar essas questões envolvendo contratos. O fato é que é um absurdo a gente inclusive pensar nesta possibilidade desvio de recursos para [compra de] medicamentos. Estamos acompanhando um cenário bem complicado também no contrato de horas/voos, que é o principal contrato do distrito, a principal ação que nós temos realizado no território Yanomami. Estive no território e quando a gente fala de operação de guerra, não é figura de linguagem, é todo momento pousando e decolando aeronaves, trazendo e levando pacientes graves”, relata.

Ricardo Weibe Tapeba anunciou que o primeiro hospital de campanha de Boa Vista já começou a ser erguido na terça-feira. De acordo com o secretário, a capital roraimense já está recebendo reforços de profissionais de saúde e das Forças Armadas. “Nós temos mais de 700 pacientes na casa de apoio indígena e queremos desafogar aquele espaço, porque são condições insalubres. O hospital de campanha vai ajudar muito, inclusive para fazer triagem, porque têm pacientes em condições de voltar para o território”, avalia.

Aparelhamento estatal

Não bastasse toda crise, Ricardo Weibe Tapeba ainda falou sobre o processo de aparelhamento dos órgãos indígenas. “Nós estamos trocando o pneu com o carro em movimento. Está muito difícil. Estamos fazendo um planejamento para assegurar primeiramente a substituição dos coordenadores, os distritos foram totalmente aparelhados pelo militarismo do governo Bolsonaro, estamos tentando resolver isso”, revela.

A situação no território Yanomami é tão grave, segundo Weibe Tapeba, que os invasores não temem nem mesmo a presença das Forças Armadas, em outra alusão ao cenário de guerra descrito pelo secretário. “Em duas comunidades que descemos [para entregar alimentos] com ajuda da Força Aérea Brasileira, só foi possível chegarmos ao território por conta da presença da Força Aérea. Nós descemos dentro de um garimpo”, conta.

O secretário avalia que hoje o problema já é maior do que o garimpo propriamente dito. “O garimpo invadiu as aldeias e essas comunidades estão à mercê do crime organizado. Eu não falo garimpeiros, falo do crime organizado, porque são muitas pessoas armadas, coagindo, e não se intimidam com a presença da Força Aérea Brasileira. Então precisamos implementar um plano de desintrusão”, aponta.

Não bastasse todos os problemas enfrentados com a maior crise humanitária da história dos Yanomami, as autoridades ainda precisam combater a desinformação, uma tentativa de grupos bolsonaristas de desqualificar o descaso do ex-presidente com os povos indígenas. “Repudiamos a desinformação que tem sido propagada pelas redes sociais, pela imprensa, de que são pessoas da Venezuela. Os Yanomami são um povo originário do Brasil, que vive naquela região milenarmente, estão aqui muito antes do Brasil ser o que é hoje”, finaliza.

Comando militar

O então secretário Robson Santos (máscara azul) e equipe na operação que levou oxigênio para São Gabriel da Cachoeira. (Foto Sesai)

Ao longo dos últimos quatro anos, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) foi gerida por militares. O último a ocupar o cargo foi o coronel da reserva do Exército, Reginaldo Ramos Machado. Ele assumiu o posto em fevereiro de 2022 e seguiu até o fim do governo de Jair Bolsonaro.

Em julho de 2021, durante a CPI da Covid-19, foi revelado que o governo federal vetou a apresentação de informações do estudo sobre a vulnerabilidade dos indígenas ao vírus. A revelação foi feita pelo epidemiologista Pedro Hallal, coordenador do estudo.

O estudo revelou que população indígena de contexto urbano era o grupo mais vulnerável no Brasil à infecção de Covid-19, com 2,25 vezes mais chances de contrair o vírus do que os brancos. Os dados foram apontados no primeiro grande estudo brasileiro sobre a prevalência da doença por etnia e raça, o Epicovid, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Entre os entrevistados em 133 municípios brasileiros, 1.219 se declararam indígenas.

Naquela época, a Sesai era comandada pelo coronel do Exército, Robson Santos da Silva, que esteve à frente da pasta de fevereiro de 2020 a abril de 2022. Ele saiu em meio às críticas sobre a atuação do Ministério da Saúde na proteção aos povos indígenas.

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