Nicarágua. O preço da submissão

Mais Lidos

  • Especialização em Protagonismo Feminino na Igreja: experiência de sororidade e crescimento humano integral

    LER MAIS
  • Católicos versus Evangélicos no Brasil: “guerra de posição” x “guerra de movimento”. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

    LER MAIS
  • No meio do caminho estava o CIMI: 50 anos do documento-denúncia “Y-Juca-Pirama” e a atuação do Pe. Antônio Iasi Jr, SJ

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

02 Setembro 2022

 

A Igreja está dividida em como responder a Daniel Ortega, o presidente revolucionário que se tornou um fervoroso cristão e que tenta suprimir a oposição com um governo autoritário.

 

A reportagem é de Francis McDonagh, enviada ao IHU e que será publicada na edição impressa da revista inglêsa The Tablet, 03-09-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

A perseguição à Igreja na Nicarágua se intensificou na madrugada de sexta-feira, 19 de agosto, quando a polícia invadiu a residência de dom Rolando Álvarez, bispo de Matagalpa, no norte da Nicarágua, e o levou com os outros clérigos e leigos que estavam sitiados pela polícia na sede episcopal há duas semanas. Álvarez foi colocado em prisão domiciliar na casa de seus parentes em Manágua, enquanto outros foram levados para a prisão de El Chipote da cidade, onde teriam sido confinados em uma cela e negado o contato com parentes e amigos.

 

De acordo com o advogado Yader Morazán, eles foram levados a uma audiência secreta de prisão preventiva em 22 de agosto. As autoridades da Igreja teriam dito: “Não sabemos como eles estão, não sabemos nada. A situação é lamentável”.

 

A visão de dom Álvarez ajoelhado em oração na calçada do lado de fora de sua residência foi um símbolo dramático do tratamento brutal infligido a vários membros do clero, o que pode ter sido o motivo de sua remoção para um local menos público em Manágua. Álvarez, 55 anos, chefe do departamento de comunicação dos bispos da Nicarágua, tem sido um crítico público do regime autoritário liderado pelo presidente Daniel Ortega e sua esposa e vice-presidente Rosario Murillo. Ele é acusado pelas autoridades de tentar “organizar grupos violentos para desestabilizar o estado da Nicarágua e atacar as autoridades constitucionais”, embora nenhuma evidência tenha sido apresentada. A polícia afirmou ter esperado “vários dias com muita paciência, prudência e sentido de responsabilidade por uma mensagem da Diocese de Matagalpa, que nunca chegou, e as contínuas atividades desestabilizadoras e provocativas tornaram a operação necessária”.

 

Os advogados dizem que tal incursão em uma residência durante a noite é ilegal. Em Manágua, dom Álvarez foi visitado pelo cardeal Leopoldo Brenes, que disse estar de bom humor, mas que sua condição física “se deteriorou”, o que pode ser resultado da recusa da polícia em permitir que alimentos ou suprimentos médicos entrassem em sua residência durante sua detenção.

 

Álvarez é popular em sua diocese, e há vídeos dele dançando e jogando futebol nas comemorações da comunidade. Ele também nunca teve vergonha de falar contra o que ele acreditava serem injustiças. Em 2013, ele apoiou com sucesso os protestos das comunidades rurais de Rancho Grande, no nordeste de Matagalpa, contra uma proposta de mina de ouro. Ele também fez parte da equipe de mediação da Conferência Episcopal que negociou com o governo após a sangrenta repressão aos protestos em abril de 2018, embora o governo tenha vetado sua participação nas negociações subsequentes.

 

Álvarez não é o único bispo a ser alvo de Ortega. Em abril de 2019, Silvio Báez, bispo-auxiliar de Manágua, outro crítico de Ortega, foi instruído pelo Papa Francisco a deixar a Nicarágua para sua própria segurança. Vários padres foram presos, estações de rádio católicas e uma universidade católica fechadas; no início deste ano, as autoridades forçaram a saída das Missionárias da Caridade de Madre Teresa; e em março o núncio apostólico na Nicarágua foi expulso do país. Mas a perseguição da Igreja é apenas o último estágio na repressão da oposição.

 

Em março deste ano, o embaixador da Nicarágua na Organização dos Estados Americanos, Arturo McFields, rompeu dramaticamente com o regime, rotulando-o de “ditadura” e afirmando haver mais de 177 presos políticos no país e que 350 pessoas haviam perdido seus vive em protestos desde 2018. Entre os presos está Dora María Téllez, conhecida como “Comandante 2”, um dos líderes do ataque à Assembleia Nacional da Nicarágua em 1978 que ajudou a derrubar a ditadura de Somoza no ano seguinte e já foi companheira de armas de Ortega. Outro ex-líder sandinista, o general aposentado Hugo Torres, que ajudou a libertar Ortega da prisão em 1974, foi um dos vários líderes da oposição presos em junho de 2021 antes das eleições nacionais; ele morreu na prisão em fevereiro deste ano.

 

O pano de fundo mais amplo da situação atual é a degeneração do movimento sandinista. O impulso revolucionário inicial atraiu amplo apoio, incluindo intelectuais como Sergio Ramírez, o romancista, que foi vice-presidente de Ortega no primeiro governo sandinista de 1985 a 1990. A inicial Junta de Reconstrução Nacional, formada após a vitória da revolução em 1979, também incluiu Violeta Chamorro, que liderou a oposição bem-sucedida aos sandinistas nas eleições de 1990 e se tornou presidente.

 

No clima atual é fácil esquecer que quatro padres serviram no início do governo sandinista: Miguel D'Escoto como ministro das Relações Exteriores; Fernando Cardenal como ministro da Educação; seu irmão, o poeta Ernesto Cardenal, como ministro da cultura; e Edgard Parrales como ministro do bem-estar social. Seus envolvimentos resultaram na suspensão de suas funções sacerdotais, e Ernesto Cardenal recebeu uma repreensão pública quando tentou cumprimentar o Papa João Paulo II no início de sua visita à Nicarágua em 1983.

 

O governo revolucionário lançou uma campanha de alfabetização que reduziu drasticamente o analfabetismo no país e um programa de saúde que reduziu a mortalidade infantil pela metade. Os EUA viram os sandinistas como parte da ameaça comunista mundial e impuseram um embargo econômico e, a partir de 1981, apoiaram um exército rebelde conhecido como “Contras”. Esses dois fatores contribuíram para a derrota dos sandinistas nas eleições de 1990, o que por sua vez exacerbou as divisões dentro do movimento.

 

Um golpe na reputação dos sandinistas foi desferido pela chamada piñata quando, no intervalo entre as eleições de 1990 e a posse do governo Chamorro, alguns sandinistas importantes confiscaram propriedades, veículos e outros bens confiscados da elite anterior. Outros no movimento, incluindo Ernesto Cardenal, ficaram horrorizados. Em 1994, Ortega removeu Sergio Ramírez de seus cargos de liderança. No mesmo ano, Ernesto Cardenal renunciou aos sandinistas, dizendo: “Minha demissão do FSLN foi causada pelo sequestro do partido realizado por Daniel Ortega e o grupo que ele lidera”.

 

Reeleito como presidente em 2006 – após concorrer sem sucesso em 1996 e 2001 – Ortega se reinventou como católico. Ele teve seu casamento solene celebrado pelo anteriormente hostil cardeal Miguel Obando y Bravo em 2005 e passou a introduzir uma proibição estrita do aborto. A Suprema Corte, dominada por nomeados sandinistas, mudou a lei para permitir que ele fosse reeleito, e a Assembleia Nacional impugnou a lei para permitir a reeleição indefinida. Antes das eleições de 2021, o regime deteve sete candidatos presidenciais da oposição. O governo também fechou mais de 1.600 ONGs.

 

Há especulações de que o governo quer que Álvarez deixe o país, o que seria menos constrangedor do que mantê-lo detido. Os comentaristas argumentam que a conferência dos bispos deveria ser mais contundente em sua defesa. Segundo Humberto Belli, ex-ministro da Educação: “Seria uma rendição ao governo concordar que o bispo deveria deixar a Nicarágua”. O Papa Francisco falou pela primeira vez sobre a situação na Nicarágua no Angelus em 21 de agosto, mas não mencionou dom Álvarez – ou mesmo a Igreja. “Acompanho de perto, com preocupação e pesar, a situação na Nicarágua, que envolve pessoas e instituições”, declarou o Papa. “Gostaria de expressar minha convicção e minha esperança de que, por meio de um diálogo aberto e sincero, ainda possam ser encontradas as bases para uma convivência respeitosa e pacífica”.

 

Parece que o Papa está seguindo a linha cautelosa da conferência dos bispos. A conferência está dividida. Enquanto Álvarez esteve bloqueado em sua residência, o bispo de León, dom René Sándigo, participava de cerimônias ao lado do prefeito sandinista local. Enquanto isso, o exilado dom Silvio Báez insistiu em um sermão no mesmo dia em Miami: “Para dom Rolando Álvarez, para os padres de Matagalpa... e para todos os presos políticos, temos que pedir vossa libertação. Não pode haver negociação sobre essas pessoas porque elas são inocentes”. O cardeal Brenes não compareceu ao consistório que começou em Roma em 27 de agosto. Nenhuma razão foi dada para sua ausência.

 

Segundo a analista Elvira Cuadra, Ortega quer “uma Igreja submissa”. Isso evidentemente significa uma Igreja que limita suas declarações a assuntos religiosos e evita reuniões ao ar livre que possam permitir que as pessoas discutam livremente; na festa da Assunção, as autoridades tentaram impedir as procissões em honra de Nossa Senhora. É de se esperar que as autoridades eclesiásticas, na Nicarágua e em Roma, tenham ponderado cuidadosamente o custo de aceitar tais restrições. O histórico de tentativas anteriores de diálogo entre a sociedade civil e o governo Ortega dá poucos motivos para otimismo. O preço pago por uma Igreja submissa pode ser alto.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Nicarágua. O preço da submissão - Instituto Humanitas Unisinos - IHU