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21 Junho 2022

 

"Somente se o outro não for representado como o mal, pode-se esperar uma margem de negociação que não condene milhões de inocentes à fome. A racionalidade deve se impor: ou parar o massacre, ou continuar a guerra, sabendo que não haverá vencedores. Não pode ser de outra forma, se não se quer a ampliação do conflito para uma dimensão planetária", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 20-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Outra manhã, no supermercado, ouvi as pessoas desabafarem: “Chega de guerra! Eu não quero mais ouvir falar disso." E mais: “Que eles façam a guerra, mas nos deixem em paz e não pretendam ajudas”.

 

Muitas vezes ouço frases semelhantes que manifestam o desejo de não ver, de não saber nada sobre a guerra russa na Ucrânia.

 

Há uma vontade de esquecer e a única preocupação diz respeito ao prejuízo que sofreremos com a alta dos preços e a crise energética.

 

Quatro meses após o início da agressão empreendida por Putin, temos diante de nós um povo abandonado por quem lhe garantiu proteção, milhões de pessoas jogadas na rua do exílio a lamentar os mortos, cidades em ruínas. Temos certezas de torturas e massacres. Diante dessa realidade inegável, o maior erro é a leitura do conflito como guerra entre o bem e o mal, entre bons e maus, e não ver a realidade de uma terra ensanguentada com pessoas mortas por serem enviadas para o matadouro, obrigadas, sem poder escolher.

 

Jovens russos e ucranianos, mercenários chechenos, sírios, morrem cerca de 500 todos os dias, e para eles não haverá mais vida, nem relacionamentos, nem afetos, há apenas o nada e a agonia daqueles que deixaram. Nós ocidentais e cristãos sentimos horror e nos resulta incompreensível o apoio que o Patriarca de Moscou Kirill deu à guerra, ao consagrá-la como abençoada por Deus. Mas não se pode dizer que toda a Igreja Ortodoxa Russa siga Kirill. Não a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou, que no concílio de 27 de maio reiterou sua condenação da guerra reivindicando independência.

 

Não o metropolitano Mark da Alemanha, do Patriarcado de Moscou, que definiu a guerra "um crime". Não o antigo número dois do patriarcado, o metropolita Hilarion - grande teólogo e verdadeiro cristão, amigo meu há décadas - afastado por ter se mostrado em desacordo, mas também outros bispos, padres e monges que organizaram vigílias de oração pela paz. E pagaram o preço com a destituição, perdendo qualquer possibilidade de exercer na Rússia.

 

O Papa Francisco sabe disso, e por isso suas intervenções, que não são ditadas pela prudência diplomática, mas são proféticas, pretendem ser um serviço à verdade mesmo à custa de irritar aqueles que não entendem que o Papa segue apenas a escandalosa mensagem do Evangelho, que não conhece nem estratégias nem duplicidade nas palavras.

 

É com palavras desse tipo que Francisco dirigiu-se a Kirill e pede que a guerra termine para salvar o povo ucraniano. Isso significa a elaboração de um compromisso que preveja que as partes cessem as hostilidades e renunciem às pretensões que deram origem ao conflito. Somente se o outro não for representado como o mal, pode-se esperar uma margem de negociação que não condene milhões de inocentes à fome. A racionalidade deve se impor: ou parar o massacre, ou continuar a guerra, sabendo que não haverá vencedores. Não pode ser de outra forma, se não se quer a ampliação do conflito para uma dimensão planetária.

 

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