O bispo de Kiev e o horror: “vala comum com 500 mortos. Mãos atadas e tiro na cabeça”

(Foto: Pascal van de Vendel | Unsplash)

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16 Mai 2022

 

Na guerra, o horror é igual para todos, não olha para os uniformes das vítimas. E ignora se os mortos têm uniforme ou não. Soldados (russos e ucranianos) “irmanados” no massacre, junto com os cadáveres mais inocentes de todos: os corpos dilacerados de civis. Vítimas e carrascos, o mesmo destino sangrento que o distópico "pacifismo das armas" prolongará quem sabe por quanto tempo.

 

A reportagem é de Nino Materi, publicada por Il Giornale, 15-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Por um lado, milhares de soldados russos abandonados sem sepultura em mortalhas de plástico preto fechadas miseravelmente com o zíper que esconde seu terrível conteúdo; do outro lado, valas comuns com milhares de cidadãos ucranianos torturados e mortos apenas porque culpados de estarem do "lado errado".

 

Como se, na guerra, pudesse existir um "lado certo". Os soldados ucranianos que morreram no front, pelo menos têm o conforto de um cemitério e uma cruz, os russos ao contrário apodrecem em vagões de trem descobertos aqui e ali ou em outros lugares com a mesma dignidade de um aterro; afinal, o que são os mortos em um conflito bélico senão pobres "resíduos"? Humanos, claro, mas ainda assim "resíduos". E a cada dia aumentam os "resíduos humanos", enquanto a diplomacia de guerra - disfarçada de diplomacia de paz - continua jogando sujo.

 

Na pele dos "resíduos", justamente. “Em uma vala comum descobriram recentemente 500 pessoas com as mãos amarradas e com uma bala na cabeça. Significa que foram assassinados de forma cruel, da mesma forma que no tempo de Stalin assassinaram pessoas inocentes jogando-as em valas comuns", disse o arcebispo-mor de Kiev, Sviatoslav Shevchuk, testemunhando a situação de seu país em contato de vídeo com a XXIII Convenção Nacional de Pastoral da Saúde da CEI. "A Ucrânia está vivendo um momento dramático, com uma guerra que, de qualquer forma, fez cair as máscaras e mostrou a todos o que realmente são", explicou D. Shevchuk.

 

Mas é realmente assim? A guerra está realmente "mostrando a todos quem realmente são"? A sensação é que as "máscaras" estão longe de ter "caído", mas estão sendo levantadas cada vez mais para esconder realidades inconfessáveis. A Igreja está tentando quebrar o negócio dos interesses econômicos, mas pouco pode fazer diante da ditadura da geopolítica. E, no entanto, mesmo neste desastre, o primaz da Igreja Greco-Católica Ucraniana consegue - sorte dele - encontrar motivos de esperança: “Não pensei que conseguiria sobreviver porque a capital foi quase cercada em três dias. O exército ucraniano conseguiu parar os tanques russos a 50 km da nossa catedral”.

 

Monsenhor Shevchuk definiu os 78 dias de guerra como "78 dias de lágrimas, rios de sangue que escorrem em solo ucraniano". Ele refez suas visitas pastorais à sua diocese, agora "semelhante a um deserto", com cidades em grave destruição como a de Chernihiv, onde bairros foram arrasados e a descoberta de valas comuns cada vez mais frequente.

 

Durante a sessão de perguntas e respostas, o arcebispo destacou que naquela situação de guerra “é preciso ter fé, porque para permanecer e dominar o próprio medo é preciso se entregar totalmente a Deus”. E lembrou que "há 12 milhões de refugiados, 5 milhões estão fora da Ucrânia, mas também há milhares de pessoas que devem ser tratadas por causa das feridas de guerra, devem se submeter a longos tratamentos e reabilitação". Para os mortos, porém, só resta rezar.

 

 

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