Pandemia, incerteza e palavra dos governantes

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Mai 2021

 

“O erro [dos governantes] consiste em confundir comunicação e ação, objetivos e meios para alcançá-los; erro que se repete a tal ponto que as palavras dos tomadores de decisão são cada vez menos confiáveis. A comunicação é útil se reduzir a incerteza ao mobilizar energias, e decepcionante e perigosa se for um substituto para o gerenciamento pragmático. E se a previsão por meio do planejamento e da mobilização das partes interessadas fosse o melhor instrumento contra a incerteza?”. A reflexão é de Robert Boyer, em artigo publicado por Alternatives Économiques, 04-05-2021. A tradução é de André Langer.

Robert Boyer é economista, diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Científica), diretor de estudos da EHESS (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais) e pesquisador do Cepremap (Centro para a Pesquisa Econômica e suas Aplicações).

Eis o artigo.

Quais devem ser as mensagens dos políticos diante de um vírus ainda misterioso um ano depois da eclosão da pandemia? Em março de 2020, eles ficaram surpresos porque o acontecimento foi excepcional, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa, embora não na Ásia. Com efeito, destrói a hipótese da previsão racional, tão cara aos economistas: a repetição de um evento torna possível prever corretamente os efeitos do próximo, se for do mesmo tipo. Especificamente, a Covid-19 não é uma cópia da Aids, Sars, H1N1 ou Ebola.

Uma primeira resposta consiste em confiar nos mercados financeiros, cuja função é socializar as informações dispersas na sociedade para melhor alocar os investimentos. Infelizmente, eles ficaram desconcertados porque esse não é o tipo de conhecimento com o qual lidam diariamente. Em março de 2020, em pânico, os corretores precipitaram o colapso brutal das Bolsas de Valores. As cotações são retomadas, mas seu cálculo é radicalmente transformado porque elas têm que transpor três incertezas.

Os mercados financeiros não são uma bússola

Primeiro, considerando o modo como o vírus se propaga, é o equivalente a uma gripe sazonal ou é uma nova peste negra? Em segundo lugar, os pesquisadores e médicos vão encontrar terapias eficazes e, na sequência, vacinas, e quanto tempo levará, sabendo que no passado isso era uma questão de décadas? Por fim, quais serão as consequências de vastos planos públicos de apoio à economia, em escala sem precedentes em tempos de paz. Na verdade, eles empurraram a natureza não convencional da política monetária e fiscal adotada para superar a crise financeira de 2008 um passo adiante: gastar novamente em excesso é realmente razoável?

Assim, longe de convergir para o valor fundamental dos ativos financeiros, a Bolsa alternou uma explosão de otimismo, quando apareceu a possibilidade de uma saída da crise sanitária, com o anúncio, por exemplo, de uma terapia, a seguir um retorno ao pessimismo quando esta esperança é desapontada ou quando os processos políticos atrasam a aprovação de leis de apoio à economia.

Desde janeiro, o otimismo prevalece, pois a rapidez no desenvolvimento das vacinas abre a possibilidade de um retorno à normalidade. No entanto, imediatamente, as dificuldades de produção e distribuição empurram o horizonte para a saída da crise da Covid-19. Podemos conceber a segurança sanitária apenas nos países ricos sem colocar em perigo a abertura da economia mundial?

Incertezas científicas

A situação se complica quando se considera que os consideráveis avanços da medicina, da virologia e da epidemiologia são postos à prova por um vírus cujas propriedades devemos descobrir passo a passo. Consequentemente, essas diferentes disciplinas trazem recomendações que podem ser contraditórias. Políticos e opinião pública confundiram a ciência como um corpo bem estabelecido de conhecimentos e processos de pesquisa em face do inesperado e do novo.

Decepcionados com a incapacidade dos especialistas de chegar a um consenso, todos nós nos tornamos epidemiologistas? As opiniões sobre as questões científicas seriam como qualquer outra? É nessa brecha que entram com força os governos populistas, com as trágicas consequências que conhecemos.

O Estado: a comunicação não é suficiente

Nesse contexto, todas as partes interessadas se voltam para o Estado. Por definição, ele pode se libertar do mimetismo e do curto prazo das finanças porque não é um ator como os demais, pois passa por crises, guerras e eras. Ele deve defender a população de ataques, incluindo aqueles representados por pandemias. Isso explica o abandono da ortodoxia econômica.

Sujeito a pressões e demandas de diversos interesses e grupos sociais, cabe-lhe arbitrar entre limitar as perdas humanas, manter a atividade econômica e respeitar as liberdades.

Como as ciências médicas e econômicas não têm uma resposta definitiva, os políticos podem e devem se manifestar e definir uma direção. Por exemplo: “este é o calendário para o levantamento das restrições sanitárias”, os cidadãos têm assim um referencial na sua decisão, uma preciosa coordenação, algo de que os mercados são incapazes numa situação de incerteza radical. Esta intervenção é bem-vinda, mas é eficaz e suficiente?

Infelizmente não, porque é o vírus que dita o ritmo ao multiplicar as surpresas: aumento das contaminações, mutações mais virulentas e perigosas, rápida transmissão internacional, dúvidas sobre a segurança de algumas vacinas e atraso nos planos de vacinação. Assim, o discurso do governo não adquire o status de uma profecia autorrealizável porque não colocou em prática os meios para conter a pandemia: impossibilidade prática de realizar satisfatoriamente a estratégia de “testar, rastrear e isolar”, sem redistribuição suficientemente rápida de leitos de terapia intensiva, hesitação e depois demora na vacinação, relutância em controlar as fronteiras.

O erro consiste em confundir comunicação e ação, objetivos e meios para alcançá-los; erro que se repete a tal ponto que as palavras dos tomadores de decisão são cada vez menos confiáveis. A comunicação é útil se reduzir a incerteza ao mobilizar energias, e decepcionante e perigosa se for um substituto para o gerenciamento pragmático. E se a previsão por meio do planejamento e da mobilização das partes interessadas fosse o melhor instrumento contra a incerteza? (1)

Nota.

1. Este foi o tema de uma postagem anterior de fevereiro de 2021. Encontramos um desdobramento dos argumentos apresentados no livro Les capitalismes à l’épreuve de la pandémie (Capitalismos à prova da pandemia), La Découverte, Paris, 2020.

 

Leia mais