Assim ‘nós’ virou ‘eu’, mas não nos salvamos sozinhos. Entrevista com Gianfranco Ravasi

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28 Outubro 2020

O cardeal Gianfranco Ravasi tem em suas mãos a encíclica Fratelli Tutti. Ele folha suas páginas enquanto observa o que está acontecendo nestes últimos dias. Confrontos em Nápoles, Catânia, Turim, protestos na França e na Grã-Bretanha, divergências em todos os níveis administrativos. Regiões que marcham na contramão em relação aos municípios e, estes últimos, atuam em desacordo com o governo enquanto proliferam protestos das categorias profissionais individuais visadas pelo novo decreto das medidas para enfrentar o Coronavírus. A segunda onda do Covid agora segue a linha do todos contra todos. "Deveríamos parar por um momento, levantar o olhar e perceber que realmente estamos no mesmo barco".

A entrevista é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 27-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Está faltando bom senso?

Certamente a atmosfera que respiramos agora é muito diferente daquela da primeira onda de Covid. Não podemos continuar com tantos confrontos. Entre estas páginas há uma citação que se encaixa perfeitamente: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida.

Não é uma frase do músico Vinicius de Moraes?

É o Samba da Bênção, fala da vida como arte de tecer e de encontrar, apesar das dificuldades e divergências, porque o encontro, a tendência para o outro, deveria sempre prevalecer, e não a tensão. Do contrário, sozinhos não podemos nos salvar.

Em que sentido?

O homem pela sua natureza está em constante tendência para o outro, é um ser social, não pode viver e crescer sozinho, seria a sua morte. Mas então, ao mesmo tempo, o homem está em tensão em relação ao outro, alimenta medos e temores. Neste momento histórico a parte da tensão domina mais, de forma que os outros são vistos como elementos de perturbação, competidores. E disso deriva uma fragmentação que deve ser recomposta. Para isso, é necessário readquirir o sentido do bem comum, do horizonte coletivo.

Alavancando-nos na solidariedade e no senso cívico: é isso que o senhor quer dizer?

O medo individual gera fechamento e não há dúvida de que com este pesadelo rastejante somos tentados a nos encerrar como um porco-espinho, protegendo a nossa identidade, o nosso eu, as nossas certezas. É um fenômeno compreensível, verificável e amplamente estudado. Nessa situação, as culturas e religiões desempenham um grande papel.

Uma parábola tibetana se encaixa perfeitamente, e em alguns aspectos é um paralelo à parábola do Bom Samaritano: tem um homem que caminha pelo deserto e percebe que ao longe, em seu mesmo percurso, avança uma sombra. A princípio ele pensa que poderia ser uma fera e começa a ter medo, mas não pode fazer nada além de continuar, pois não há abrigo. Mais adiante percebe que é a silhueta de um homem. Mas não por isso deixa de ter medo, porque poderia ser um criminoso. Com a coração apertado, o homem toma coragem e de repente levanta os olhos e percebe que na sua frente está o seu irmão, o irmão que ele não via há muitos anos.

É isso, a dinâmica, é aquela que também nós vivemos, em todos os níveis. Avançamos com medo, depois no final percebemos que temos a humanidade diante de nós, ou seja, nós mesmos, a nossa comunidade. A parábola do Bom Samaritano tem uma trajetória semelhante. O levita tem medo de se contaminar, então vem o samaritano que, como os médicos e enfermeiras das alas Covid, mostra que a força da humanidade é mais forte.

O senhor está segurando a encíclica Fratelli Tutti, o que pode ensinar neste momento?

Certamente a importância de passar do eu para o nós. É a chave para enfrentar essa passagem histórica. O Papa também cita um filósofo do século passado, Simmel, que afirma: Essa abordagem, em última análise, exige que se aceite com alegria que nenhum povo, nenhuma cultura ou pessoa pode conseguir tudo sozinho. Os outros são constitutivamente necessários para a construção de uma vida plena. A consciência do limite ou da parcialidade, longe de ser uma ameaça, torna-se a chave para sonhar e elaborar um projeto comum. Porque o homem é o ser limite que não tem limite.

O medo, porém, é humano, assim como a defesa das próprias fronteiras, penso naqueles que protestam porque se encontram sem trabalho, com as atividades fechadas...

Em comparação com a primeira onda da pandemia, algo mudou. Antes era como se a coletividade tivesse concordado em viver junto no isolamento. Agora não o aceita mais. Deveríamos retornar à totalidade, mas, no meio tempo, os medos aumentaram. Refletir juntos sobre a força do preceito bíblico: ama o teu próximo como a ti mesmo. É uma regra de ouro que cruza religiões e culturas. E é a única maneira de chegar à passagem do eu para o nós.

É mais fácil dizer do que fazer, sobretudo se não há a certeza de que ninguém seja deixado para trás ...

É preciso lucidez para quebrar as travas dos próprios individualismos. Em todos os níveis, para todas as categorias. Ninguém sozinho conseguirá sair dessa.

 

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