Leis econômicas que não funcionam mais: a criação de grandes quantias de dinheiro alimenta a inflação

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Observando em perspectiva crítica, o que está em jogo no aceleracionismo é quem define o ritmo das questões sociais, políticas e ambientais

    Aceleracionismo: a questão central do poder é a disputa de ritmos. Entrevista especial com Matheus Castelo Branco Dias

    LER MAIS
  • Entre a soberania, o neoextrativismo e as eleições 2026: o impasse do Brasil na geopolítica das terras raras. Artigo de Sérgio Botton Barcellos

    LER MAIS
  • Em decisão histórica, Senado rejeita nome de Messias ao STF

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Setembro 2020

Algumas leis do mercado, apresentadas como imutáveis, mas que na realidade não se comprovaram verdadeiras. Por exemplo, a famosa teoria monetária de Milton Friedman.

A reportagem é de Christian Chavagneux, publicada por Alternatives Économiques, 01-09-2020. A tradução é de André Langer.

Pobre Milton Friedman! O economista liberal americano (1912-2006) não está na festa hoje. Em 1970, ele publicou o que permanecerá um de seus principais ensinamentos: “A inflação é sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário, no sentido de que é e pode ser produzida apenas por um aumento mais rápido da quantidade de dinheiro do que da produção”[1].

Vindo de um economista muito hostil a qualquer forma de intervenção pública, a mensagem era tanto política quanto econômica: quando os governos apoiam a atividade com déficits orçamentários financiados pela criação monetária de seu banco central – ainda dependente dos Estados na época em que Friedman escreveu –, a única coisa que conseguiram foi a inflação. Assim que a quantidade de moeda em circulação cresce mais rápido do que a atividade, o resultado são preços mais altos, perda de poder de compra e de crescimento.

Desmentido pelos fatos

Essa suposta lei econômica não foi realmente verificada nem na década de 1970 nem depois. Durante os anos 1980, a oferta de moeda mundial cresceu mais rápido do que a atividade, mas a inflação estava em queda. Na década de 1990, a oferta de moeda permaneceu na mesma proporção que a produção, mas os preços subiram.

O que é surpreendente, no entanto, é, obviamente, a situação desde 2008. Os bancos centrais do mundo inteiro despejaram toneladas de dinheiro na economia global após a crise financeira e após a pandemia através de suas políticas de quantitative easing e a compra de títulos financeiros, principalmente de dívidas públicas. Assim alimentado, o crescimento da oferta de moeda tem sido muito mais rápido do que o Produto Interno Bruto (PIB) global. Resultado: a inflação nunca esteve tão baixa! E o principal risco em 2020 continua sendo a deflação.

Claro, podemos sublinhar a elevação constante, aqui, dos índices do mercado de ações, ali, dos preços dos imóveis, em outros lugares, do preço de um determinado produto financeiro, para dizer que se o crescimento do crédito mundial não se reflete mais no preço dos bens, está presente no preço dos ativos. Mas as flutuações financeiras e imobiliárias obedecem a muitos determinantes e é difícil atribuir a elas uma única causa, como a criação de moeda, especialmente porque as situações permanecem contrastantes nas diferentes partes do mundo, ou mesmo no interior de cada país para os preços da habitação.

A inflação responde, hoje como ontem, a múltiplos determinantes que se relacionam com o equilíbrio de poder entre trabalhadores e empresários, entre credores e devedores, entre diferentes empresas na sua capacidade de fixar preços, etc. A inflação é, e sempre foi, principalmente um fenômeno político e social.

 

Nota:

[1] “The Counter-Revolution in Monetary Theory”, Institute of Economic Affairs Occasional Paper n° 33, 1970.

 

Leia mais