Um tesouro que só se encontra amando o próximo. Comentário de Ana Casarotti

Foto: canva

24 Julho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 13,44-52 que corresponde ao 17° domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isso?" Eles responderam: "Sim". Então Jesus acrescentou: "Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas".

Continuamos com a leitura do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, onde, por meio de parábolas, Jesus continua revelando o Reino dos Céus. Hoje, Ele nos apresenta três parábolas, textos simples que transmitem essa riqueza do Reino, que não são normas a serem cumpridas nem gestos a serem realizados, e sim uma mensagem que vai sendo “compreendida” à medida que a tornamos nossa, a encarnamos em nossa vida e em nossas decisões.

O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.

Em primeiro plano, ressaltamos que o Reino é como um tesouro escondido em um campo. O homem que o encontra mantém-no escondido. Esse tesouro pertence a um determinado campo e ele não pode retirá-lo de lá e levá-lo consigo. O fato de encontrá-lo lhe proporciona tanta alegria que o leva a vender todos os seus bens para comprar o campo e tornar esse tesouro seu. Sem dúvida, isso não foi imediato; ele deve ter tido suas próprias perguntas e as daqueles que estavam com ele: “O que está acontecendo com você? Por que está vendendo tudo? Qual é o sentido disso que você está fazendo?” Convites para repensar o que estava fazendo, para “não se deixar levar por aquilo que o cativou”, para reconsiderar suas decisões… E podemos deixar nossa imaginação aberta às possíveis respostas desse homem. A decisão de vender todos os seus bens não é feita de imediato, pois, antes de tudo, ele precisa reconhecer cada um deles, desde os mais visíveis e valorizados externamente até os mais simples, mas que, para ele, tinham muito valor. A felicidade é muito grande e perdurável, pois parece ser o motor que o leva a vender tudo para adquirir o campo com aquele tesouro.

O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.

Esta segunda parábola nos apresenta um buscador de pérolas preciosas, uma pessoa que sabe distinguir o falso do verdadeiro; é um comerciante inquieto que busca o mais valioso, aquilo que tem maior qualidade. Por essa pérola de tão alto preço, que possivelmente ele nem imaginava que pudesse existir, ele também está disposto a vender tudo para torná-la sua. Neste texto, Jesus compara o Reino a um homem que busca pérolas preciosas… na parábola anterior, o Reino era comparado a um tesouro escondido no campo que aquele homem encontra sem procurá-lo. Mas, diante da descoberta inesperada do tesouro no campo ou do encontro com essa pérola de tanto valor, as atitudes são semelhantes: vender tudo o que possui, “seus bens”, para torná-la sua.

A alegria dessa descoberta surpreendente ou do encontro com a pérola tão procurada é o que os leva a vender todos os bens. O Reino dos Céus não é compatível com a posse de outros tesouros ou bens. Jesus destaca que ambos vendem seus bens, que eram posses de valor, possivelmente boas e talvez até desejadas por outros. Mas o Reino, comparado a esse tesouro ou à pérola de grande valor, precisa de “espaço”, de exclusividade. Para “acolhê-lo” e deixar-se transformar por ele, é necessário abandonar o que até então era considerado bens e adquirir esse novo tesouro do Reino.

Como podemos redescobri-lo? O que devemos fazer para encontrá-lo?

Disse-nos o Papa Leão XIV em uma de suas últimas catequeses por ocasião do Ano Jubilar, "Jesus Cristo, nossa esperança": "É, portanto, no coração que se guarda o verdadeiro tesouro, não nos cofres da terra, não nos grandes investimentos financeiros, hoje mais do que nunca enlouquecidos e injustamente concentrados, idolatrados ao preço sangrento de milhões de vidas humanas e à devastação da criação de Deus". E continuou dizendo: "É importante refletir sobre esses aspectos porque nos inúmeros compromissos que enfrentamos continuamente, o risco de distração, às vezes de desespero, de falta de sentido, é cada vez mais evidente, mesmo em pessoas aparentemente bem-sucedidas”.

Por um lado, somos convidados a caminhar, a buscar, a sempre desejar algo mais, a tornar-nos mais atentos ao que já passou para sabermos apreciar o que é bom, o que realmente vale a pena, a aguçar nosso sentido de observação e, assim, reconhecer o que de fato tem valor, o tesouro tão precioso que nos enche de alegria!

Onde encontrar esse tesouro?

Recebemos a resposta que o Papa Leão XIV nos oferece: "O verdadeiro destino do coração não consiste na posse dos bens deste mundo, mas em alcançar aquilo que o pode satisfazer plenamente, isto é, o amor de Deus, ou melhor, de Deus que é Amor. Contudo, este tesouro só se encontra amando o próximo que encontramos pelo caminho: irmãos e irmãs de carne e osso, cuja presença desafia e questiona os nossos corações, convidando-os a abrir-se e a doar-se. O nosso próximo pede-nos que abrandemos o passo, que o olhemos nos olhos, que por vezes mudemos os nossos planos, talvez até de direção", sublinhou o Papa.

O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.

Nesta terceira parábola, Jesus compara o Reino a uma rede na qual entram peixes de todos os tipos. Não há um perfil específico para entrar no Reino, pois o Reino é para todos disse com tanta ênfase o Papa Francisco: Na Igreja cabem todos, todos, todos. Fazemos parte desta Igreja de portas abertas, onde não se exige nada cartão nem credenciais nem ficha de serviço nem méritos acumulados.

Tua alegria insubornável

Concede-nos, Senhor
tua alegria insubornável.
A diversão tem preço e propaganda
e seus mercadores são peritos.
Aluga-se a evasão fugaz
com suas rotas exóticas e vãs
bebe-se o gozo com cartões de crédito
e se espreme como um copo descartável
mas tua alegria não tem preço,
nem podemos seduzi-la.
É um dom para ser acolhido e oferecido.

Concede-nos, Senhor, tua alegria surpreendente
mais unida ao perdão recebido
que à perfeição farisaica das leis.
Encontrada na perseguição pelo reino,
mais que no aplauso dos chefes.
Cresce na partilha do que é meu com os outros
e morre ao acumular o dos outros como meu.
Aprofunda-se ao servir aos escravos da história,
mais que ao ser servidos como mestres e senhores.
Multiplica-se ao descer com Jesus ao abismo humano
e se dilui ao subir sobre corpos despojados.
Renova-se ao apostar pelo futuro inédito
Esgota-se ao apoderar-se das colheitas do passado.
Tua alegria é humilde e paciente
e caminha de mãos dadas com os pobres.

Concede-nos, Senhor, a “perfeita alegria”
a que corre como ressurreição fresca
entre escombros de projetos fracassados.
A que não conseguem expropriar dos pobres
nem o cárcere dos sistemas sociais
nem os editos arbitrários dos patrões.
A decepção mais funda e golpeada
não pode blindar-nos para sempre
contra sua iniciativa inesgotável.
Tua alegria é perseguida e golpeada
mas é imortal desde tua Páscoa.

Concede-nos, Senhor, a alegria simples.
a que é irmã das coisas pequenas,
dos encontros cotidianos,
e das rotinas necessárias.
A que se move livre entre os grandes
sem uniforme nem gestos ensaiados
como brisa sem amo nem cobiça.
Tua alegria é confiante e veraz
vê a mais pequena criatura amada por ti
com um lugar em teu coração e teu projeto.

Benjamin Gonzalez Buelta
“Salmos para sentir e saborear as coisas internamente”

 

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