23 Julho 2026
Suécia, Portugal, Japão… alguns países implementaram políticas públicas dedicadas especificamente ao combate à solidão. Outro exemplo vem do Reino Unido, país que implementou a prescrição do tempo social.
A reportagem é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 22-07-2026. A tradução é do Cepat.
No Reino Unido, uma em cada cinco consultas com um clínico geral não se dá por um motivo puramente clínico, mas para atender a necessidades administrativas, de aconselhamento ou simplesmente de contato humano. Diante dessa realidade, que sobrecarrega o sistema público de saúde (NHS) do país, o Reino Unido implementou uma estratégia nacional com o objetivo de fortalecer as redes sociais dos mais isolados: a prescrição social.
A ideia, que surgiu na década de 1980, consiste em prescrever uma atividade para indivíduos reclusos, de forma semelhante à prescrição de medicamentos. 3.500 agentes de ligação, conhecidos como “link workers” no Reino Unido, são treinados nessa prática e atuam diariamente como uma ponte entre médicos generalistas e pacientes que se sentem isolados. Esse número sobe para 7.500 se incluirmos as assistentes sociais que também desempenham esse tipo de função sem estarem integradas à rede oficial do NHS (Serviço Nacional de Saúde).
“Esses agentes de ligação definem um plano personalizado que pode incluir atividades comunitárias, grupos de apoio, atividades artísticas, trabalho voluntário ou atividades ao ar livre, explica Charlotte Osborn-Forde, CEO da Academia Nacional para a Prescrição Social. O objetivo é melhorar o bem-estar, reduzir a solidão e abordar questões não médicas, aliviando assim a pressão sobre os serviços de saúde”.
Cobertas pelo Seguro Nacional, o equivalente ao sistema de seguridade social francês, as consultas de prescrição social foram implementadas em toda a Inglaterra em 2019. Desde então, todos os consultórios médicos são obrigados a oferecer esse serviço a um custo reduzido. “Quando as atividades oferecidas não são gratuitas, os custos às vezes são cobertos pelo sistema de saúde, por outros fundos públicos ou por associações de caridade”, explica Charlotte Osborn-Forde.
Até o momento, mais de 5 milhões de pessoas se beneficiaram deste programa pioneiro, cujos efeitos já são tangíveis. Uma pesquisa de 2020 com 2.250 beneficiários revelou que 72% deles se sentiram menos sozinhos após a experiência. Este é um resultado encorajador para os pacientes, mas também para as finanças do país, já que cada libra esterlina investida em prescrições sociais gera aproximadamente £ 1,80 em economia a longo prazo, reduzindo a pressão sobre os serviços de saúde, de acordo com um relatório de 2023 da instituição de caridade Barnardo's. O programa também ajuda a “reduzir os efeitos indiretos da saúde mental precária, especialmente os incidentes relacionados a comportamentos antissociais, as visitas ao pronto-socorro, os problemas de moradia, crianças colocadas em lares adotivos e o absenteísmo escolar”, afirma a associação.
A única desvantagem é que a prescrição social não é amplamente implementada fora da Inglaterra e permanece focada principalmente em adultos, sem financiamento para crianças, apesar de suas necessidades específicas. Essa limitação não impediu o governo britânico de desenvolver uma versão “natureza” do conceito em 2020: sete projetos-piloto de “prescrição verde” foram lançados para integrar atividades ao ar livre nos percursos de cuidados de pacientes que sofrem de isolamento social. Os resultados são, mais uma vez, positivos. Isso não surpreende quando se considera que passar de três a quatro vezes por semana em um ambiente natural pode reduzir o uso de medicamentos associados a transtornos de saúde mental em 33% e aqueles associados à pressão arterial em 36%, de acordo com um estudo finlandês publicado no início de 2023.
Embora a prescrição verde ainda seja incomum em todo o mundo, a prescrição social já foi testada em 28 países, segundo a Academia Nacional para a Prescrição Social. Pioneiro nessa área, o Reino Unido não pretende diminuir seus esforços no futuro, visto que a contratação de 9.000 novos agentes de ligação está planejada até 2036.
Como isso seria na França?
Resposta de Arnaud Goulliart, cofundador e delegado geral da Fédération française pour les liens sociaux (Federação Francesa para as Relações Sociais), criada em 2024:
“Na França, a prescrição social existe de forma informal, muitas vezes conduzida por associações e desconectada das autoridades públicas. É crucial profissionalizar essa abordagem e integrá-la a um percurso coerente de cuidados de saúde. Por isso, lançamos um programa piloto em duas Comunidades Profissionais Territoriais de Saúde [as CPTS, que reúnem profissionais da mesma área em torno de um projeto de saúde compartilhado] na região metropolitana de Lyon, envolvendo 500 pacientes. O objetivo é testar a viabilidade do modelo sem sobrecarregar o nosso sistema atual.
Lançado em setembro de 2025, este projeto piloto, apoiado pelo Fundo de Seguro de Saúde Primário e pela Agência Regional de Saúde, terá duração até março de 2026. Na prática, os médicos participantes podem conectar pacientes isolados a agentes de ligação que os orientam para atividades físicas, sociais, criativas ou ao ar livre, adaptadas às suas necessidades e desejos. O objetivo é demonstrar que a prescrição social pode ser integrada sem revolucionar o sistema de saúde, mobilizando profissionais já existentes, como enfermeiros e mediadores de saúde. No entanto, é crucial garantir uma implementação equitativa, assegurando o acesso a essa prática em todo o país, sem gerar disparidades.”
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