Bispo do Vale do Silício: 18 meses para moldar a IA antes que 'não haja mais volta'

Foto: OSV News/Courtesy of San Jose Diocese/Oliver Tapio

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23 Julho 2026

Tecnólogos do Vale do Silício disseram a líderes religiosos que a humanidade tem cerca de um ano e meio para moldar as poderosas máquinas que funcionam com inteligência artificial.

A reportagem é de Brian Fraga, publicada por National Catholic Reporter, 22-07-2026.

"Temos uma janela de cerca de 12 a 18 meses, enquanto as máquinas ainda são maleáveis, durante a qual ainda podemos moldá-las", disse Dom Oscar Cantú, bispo de San Jose, na Califórnia. "Depois disso, os portões serão abertos, por assim dizer, e chegaremos a um ponto sem volta."

Cantú, cuja diocese abrange o Vale do Silício, disse ao National Catholic Reporter em uma entrevista recente que autoridades locais da igreja têm mantido conversas importantes com pessoas da indústria de tecnologia que estão desenvolvendo ferramentas de IA com potencial para remodelar setores inteiros da economia global.

"Acho que é isso que precisamos fazer: conversar entre os setores, compartilhar como essas máquinas vão nos afetar", disse Cantú. "Certamente, elas nos afetarão de muitas maneiras positivas, com avanços na medicina e também nos negócios. Mas, quais são as salvaguardas de que precisamos?"

Cantú afirmou que a Magnifica Humanitas, encíclica do Papa Leão XIV sobre inteligência artificial, publicada em 25 de maio, foi "muito oportuna".

"Como já foi noticiado em outros lugares, o Vaticano tem mantido conversas com especialistas em tecnologia nos últimos 10 anos", disse Cantú. "E foram, curiosamente, os próprios especialistas em tecnologia que procuraram a Igreja porque tinham perguntas que iam além das que ela estava preparada para responder."

Cantú observou que a Diocese de San Jose e a Conferência dos Bispos da Califórnia organizaram uma conferência em 6 de junho focada na encíclica. Intitulada "Conversas sobre Dignidade Humana, Ética e IA", e realizada na Igreja e Santuário de Nossa Senhora da Paz em Santa Clara, a conferência atraiu mais de 400 pessoas, incluindo especialistas em políticas públicas, autoridades de saúde, tecnólogos, executivos do Vale do Silício e teólogos.

"Houve perguntas, diálogos e conversas excelentes", disse Cantú. "E também tivemos algumas conversas privadas que foram muito produtivas, e as pessoas querem continuar essas conversas."

Uma das lições que Cantú disse ter aprendido foi que os tecnólogos muitas vezes ingressam em suas profissões ainda jovens, acreditando que as máquinas que constroem serão neutras ou tenderão para o bem da sociedade e da humanidade.

"Mas o que eles aprenderam, mais recentemente, é que, como essas máquinas imitam o cérebro humano, quando veem uma oportunidade, tornam-se oportunistas, e alguns dos piores instintos tomam conta, por assim dizer, dessas máquinas", disse Cantú.

Com o tempo, alguns desses criadores chegam a temer suas criações.

"O que [os tecnólogos] disseram à igreja é que eles ficaram com medo dessas máquinas, do que elas são capazes de fazer, e que não entendem por que elas fazem o que fazem. Elas são imprevisíveis, e isso é motivo de grande preocupação", disse Cantú.

Algumas das capacidades potencialmente perigosas da IA ​​incluem a clonagem de vozes, o desenvolvimento de novas armas químicas letais, o lançamento de ciberataques para paralisar infraestruturas críticas e o controle autônomo de drones militares. Essa tecnologia emergente também tem a capacidade de criar vídeos, imagens e vozes falsas realistas que poderiam ser usadas para disseminar desinformação.

"As máquinas podem causar danos terríveis a indivíduos, indústrias e à sociedade em geral, em grande escala, porque são incrivelmente poderosas", disse Cantú. "Então, acho que os tecnólogos têm apreciado as conversas com a igreja."

Embora tenha observado que a Igreja Católica não é uma autoridade em inteligência artificial, Cantú acrescentou que a igreja almeja ser uma "especialista em humanidade".

"Não estamos lá para repreender ninguém nem para dar sermões", disse ele, "mas simplesmente para compartilhar a sabedoria da Igreja, particularmente sobre o bem comum e sobre a dignidade de cada pessoa humana, especialmente os pobres, especialmente aqueles que não têm muita voz."

Cantú disse que ficou comovido com a última parte da Magnifica Humanitas, onde o Papa reflete sobre a Virgem Maria e como ela "nos ensina a olhar o mundo pelos olhos dos pobres, pelos olhos dos pequeninos".

"Então, com isso em mente, como os centros de dados de IA afetam as pessoas?", perguntou Cantú. "Como os centros de energia, os centros de potência, afetam as sociedades e as comunidades e assim por diante? O que tudo isso causa ao resto da sociedade? Quem são os vencedores e quem são os perdedores? Se permitirmos que a IA siga seu curso sem qualquer controle, haverá muito poucos vencedores, mas eles ganharão muito. E haverá muitos perdedores."

Aqueles envolvidos nas discussões sobre o futuro da inteligência artificial alertaram que seus efeitos provavelmente não serão nem utópicos nem desastrosos. As previsões utópicas para a IA vislumbram um futuro onde a superinteligência erradica todas as limitações de recursos, doenças e trabalhos tediosos. As previsões desastrosas apontam para um mundo onde a IA acarreta desemprego em massa, queda na criatividade humana e ameaças existenciais de longo prazo para a humanidade, onde os tecnólogos perdem completamente o controle das máquinas.

"Será algo intermediário", disse Cantú. "Haverá uma mistura de muitos avanços, certamente na medicina e na eficiência empresarial, e assim por diante. Mas haverá pessoas que perderão seus empregos e poderá haver setores inteiros da indústria sem postos de trabalho. O que isso causa à sociedade?"

Disse Cantú: "Se a Igreja afirmou, por meio das Escrituras, que o trabalho faz parte da dignidade da humanidade, se não tivermos mais trabalho, o que isso significa para os seres humanos? Onde está a nossa dignidade? Essas são algumas das questões com as quais estamos lidando agora."

Cantú afirmou acreditar que a igreja está bem posicionada para desempenhar um papel influente no desenvolvimento ético da IA.

"Esta é uma questão sobre a humanidade e o bem comum", disse ele. "Isso inclui considerar alguns elementos muito básicos do ensinamento social da Igreja, como a dignidade de cada pessoa humana, e adotar a perspectiva das crianças que Maria nos ensina. Acho que poucas pessoas trarão essa perspectiva, mas é isso que o Evangelho ensina."

A experiência que teve na conferência de 6 de junho mostrou a Cantú que pessoas de diferentes níveis da sociedade estão interessadas em IA porque todas têm interesse em seu futuro.

"Isso inclui o barista, o funcionário da paróquia, a enfermeira do hospital", disse Cantú. "Todo mundo usa tecnologia de alguma forma. Eles se preocupam com seus filhos, com o que eles vão criar e com como será a sociedade para eles."

Enquanto alguns executivos e investidores de tecnologia do Vale do Silício descartaram o conselho do papa como irrelevante para seu trabalho, outros, como Christopher Olah, cofundador da Anthropic, atenderam ao apelo de Leão XIV por limites éticos.

Cantú disse que isso demonstra que pelo menos alguns líderes do setor de tecnologia estão curiosos para aprender mais sobre os ensinamentos da igreja.

"Então, acho que o interesse foi despertado", disse ele. "As pessoas estão fascinadas com o fato de a igreja ter oferecido uma resposta tão abrangente para o momento, e uma espécie de roteiro. É um roteiro aberto. É um roteiro de diálogo e de incentivo para desacelerar."

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