"É curioso que, nesta crise atual de sacerdotes, os bispos – e muitos leigos – estejam preocupados em realizar missas aqui e ali, mas pareçam não se importar com os doentes, com a paz e a pacificação, com a caridade, com a purificação da lepra das drogas, com o sentido da vida, o suicídio, etc.", escreve Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, comentando o evangelho do 11º Domingo do Tempo Comum, Ciclo Litúrgico A, em artigo publicado por Religión Digital, 08-06-2026.
Ser salvo é mais do que simplesmente não ser condenado.
Jesus sente compaixão pelas pessoas, pela nação.
Para muitos cristãos das gerações mais antigas, o cristianismo tem sido uma questão de "não se condenar".
A questão cristã debatia-se entre recompensa e/ou punição. A tarefa de Deus parecia consistir em recompensar ou punir… Mas Deus não “brinca” de recompensar ou punir; Deus ama, Deus tem compaixão.
(O céu não é uma recompensa, um prêmio, mas sim a plenitude do abraço de Deus Pai.)
Portanto, vivemos em um ambiente religiosamente obscurantista, de medo, pecado, danação, inferno, etc.
Aquele bom padre criticou ironicamente a ideia de que o "deus" de alguns teólogos e moralistas é muito justo, porque condena tanto os maus quanto os bons assim que tropeçam. Isso não é verdade, porque, como disse o Papa Francisco, ninguém, por pior que tenha vivido, fica apenas com o desespero e a graça negada. Somos todos filhos pródigos, filhos do mesmo bom Pai que sempre nos espera.
Deus não impõe respeito por meio de trombetas e condenação. A maneira de Deus lidar com o nosso pecado não é através da punição, mas sim do perdão. O Salmo 129 expressa isso lindamente: " Contigo está o perdão, para que sejas reverenciado".
O que ouvimos na leitura do Evangelho de hoje é outra maneira de compreender a vida e o cristianismo. Jesus teve compaixão da humanidade, das pessoas, porque estavam exaustas e abandonadas como ovelhas sem pastor.
Podemos apreciar dois aspectos nessas palavras e nessa atitude de Jesus.
Porque eram como ovelhas sem pastor.
Jesus sentia e ainda sente compaixão pelas pessoas. Quantas vezes vemos Jesus nos Evangelhos demonstrando piedade e compaixão.
Jesus percebia o sofrimento das pessoas, aproximava-se dele e tentava aliviá-lo.
Compaixão não significa desprezar o sofrimento, a doença ou a pobreza que vemos na rua. Compaixão significa, antes, aproximar-se do sofrimento alheio.
Existe um ditado que diz: "De uma árvore caída, todo mundo faz lenha."
Compaixão é compreender e cuidar da pessoa que está sofrendo na vida, que está passando por dificuldades, que cometeu um erro ou um pecado. É demonstrar perdão àqueles que "caíram". A compaixão torna os momentos e eventos difíceis da vida mais suportáveis.
Quantas vezes vemos essa atitude em Jesus!
Jesus sente compaixão pelas pessoas que passaram dias sem comer; sente compaixão pelos doentes, pelo leproso. Jesus tem compaixão pela viúva de Naim cujo filho havia morrido. Jesus sente tristeza e chora pela morte de seu amigo Lázaro. O pai do filho perdido sentiu compaixão; o samaritano teve compaixão pelo homem que fora deixado quase morto na estrada da vida.
Todo o Evangelho de Mateus é um "Desejo de misericórdia, não sacrifício".
Ser cristão não significa ter medo de Deus e tentar aplacar sua ira contra nós, pobres pecadores. Deus não está irado conosco; o Deus de Jesus sofre conosco. Ser cristão significa perceber a compaixão e a misericórdia de Deus, que se aproximam de nós por meio de Jesus, e, ao mesmo tempo, ser compassivo com os outros.
"Desejo misericórdia, compaixão, não sacrifício" será o cantus firmus, o fio condutor do Evangelho de São Mateus.
O profeta Ezequiel (século VI a.C.) já havia percebido que havia muitos pastores oficiais em Israel: os príncipes e magistrados, que não pastoreavam o rebanho, mas a si mesmos (Ezequiel 34,2).
Jesus Cristo se apresenta como o Bom Pastor (João 10). Ele ama suas ovelhas; ele cuida delas para que, mesmo que andemos por vales escuros na vida, estejamos em paz, amparados por seu cajado (Salmo 22). Finalmente, ele dá a sua vida por suas ovelhas: ele não foge.
Se lermos um jornal ou assistirmos ao noticiário, também podemos nos perguntar: Quais pastores guiam nossos passos? Quais professores e pastores elaboram os planos educacionais para crianças e adolescentes? Quais critérios regem a educação de nossos jovens na universidade? Quais líderes e ideologias guiam nossa sociedade: a economia, a saúde pública, a cultura? Quais emissoras, apresentadores e comentaristas moldam a opinião pública, a ética e o comportamento por meio da mídia?
Talvez hoje também nós vivamos exaustos e abandonados: "como ovelhas sem pastor" ou, o que seria pior, guiados por falsos pastores, por mercenários, que quando "as coisas correm mal", abandonam o rebanho (Jo 10).
As ideologias não têm compaixão pelo povo; elas querem o voto dele.
Jesus envia seus seguidores para serem pastores da comunidade e proclamarem o evangelho do Reino. Para terem compaixão daqueles que sofrem.
É notável que Jesus não envie seus seguidores para realizar tarefas particularmente sagradas ou religiosas. Ele não os envia para realizar rituais. Jesus envia seus seguidores para evangelizar e semear o Reino dos Céus. Evangelizar é curar os enfermos, ressuscitar os mortos pelas drogas e pelo ódio, purificar os leprosos, expulsar os mil demônios inerentes à nossa personalidade, trabalhar pela paz, combater o tráfico de armas, o tráfico de drogas e assim por diante. Evangelizar é sentir compaixão.
É curioso que, nesta crise atual de sacerdotes, os bispos – e muitos leigos – estejam preocupados em realizar missas aqui e ali, mas pareçam não se importar com os doentes, com a paz e a pacificação, com a caridade, com a purificação da lepra das drogas, com o sentido da vida, o suicídio, etc.
Um bispo se interessa pelo padre que celebra missa, oficia funerais e, ocasionalmente, casamentos. Se esse padre sente compaixão e visita os doentes em sua paróquia, ou um prisioneiro, ou acolhe um imigrante, isso não conta; até mesmo leigos podem fazer isso.
Jesus disse: Tenha compaixão, cure, ressarça. Isso é o que significa ser cristão.
E façamos isso livremente. O que recebemos gratuitamente, demos gratuitamente: graça: como um dom de Deus.