04 Abril 2025
"Depois de tantos séculos de história e de ser movida e animada pela força das mulheres, a Igreja, dirigida por homens, ainda não é capaz de deixar-se iluminar plenamente por esta ação libertadora de Jesus diante da opressão da mulher", escreve Frei Gilvander Moreira.
Gilvander Moreira é frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em filosofia pela UFPR; bacharel em teologia pelo ITESP/SP; mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de teologia bíblica no Serviço de Animação Bíblica – SAB, em Belo Horizonte.
Por que Jesus não condena a mulher acusada de adultério, mas a livra de ser linchada por pessoas religiosas? Com o injusto título de “mulher adúltera”[1], no Evangelho de João, em Jo 8,1-11, temos Jesus acolhendo e defendendo uma mulher arrastada por religiosos fariseus e doutores da lei e ameaçada de morte. Não todos certamente, os doutores da Lei e fariseus ameaçavam assassinar, sob apedrejamento, uma mulher, conforme eles dizem, surpreendida em adultério. Se muitos doutores da lei e fariseus excluíam as mulheres segundo a lei da pureza e da impureza, logo eram inimigos delas. Por isso não podemos acreditar, sem mais, que estivessem falando a verdade. Acusar a mulher de adultério pode ter sido calúnia, difamação e injúria proferida por eles ou por alguém.
Quando o Evangelho de João menciona o termo “judeus”, pode estar se referindo a alguém do povo de cultura judaica[2], mas mais frequentemente parece se tratar de lideranças do judaísmo reformador. Esses são os fariseus que ameaçam a mulher e querem vencer Jesus em uma cilada.[3] Antes da década de 70 do século I da Era Comum, a religião judaica era plural, mas depois da guerra judaica em que o exército do império Romano, escravocrata, devastou a cidade de Jerusalém e destruiu o templo (anos 70), só sobreviveu o grupo do judaísmo rigorista, fundamentalista e moralista. Jo 8,1-11 foi escrito nas décadas de 80 ou 90 do 1º século. Isto indica que são estes judeus tradicionalistas que tramam para se apoderarem de Jesus, matá-lo, e linchar a mulher.
Parte dos fariseus da época de Jesus era constituída por lideranças populares comprometidas com a libertação do povo oprimido. Eles ensinavam o resgate das tradições como forma de resistência aos opressores e exploradores. O que antes era uma pluralidade de crenças, esperanças e práticas foi sendo reduzido a uma única forma. O que era diferente passou a ser demonizado (Jo 8,48), até assassinado “em nome de Deus” (Jo 16,2). Após a destruição de Jerusalém nos anos 70, os judeus chegaram a um acordo com os romanos. O judeu que se filiasse a uma sinagoga e nela pagasse o imposto teria seus direitos reconhecidos pelo Império. Mas quem não se adequasse... ficava excluído. As pessoas que aderiam às comunidades cristãs foram excluídas da sinagoga como a mulher que estava sendo ameaçada de morte por fariseus e doutores da lei.
No Primeiro Testamento bíblico, vários textos proféticos comparam o adultério com o rompimento da aliança com Deus e os líderes do Judaísmo rabínico interpretaram assim as comunidades cristãs que se afastavam da sinagoga. Eram como uma mulher casada que traísse o seu marido (Deus) e se ligasse a amantes. Assim se diz nos livros de Jeremias e de Oseias: “O Senhor me disse: - Você viu o que fez Israel, a infiel? Subiu em todo monte elevado e foi para debaixo de toda árvore verdejante a fim de prostituir‑se” (Jer 3,6). “Israel, (...) você se prostitui, abandonando o seu Deus; você ama o salário da prostituição em cada local onde o trigo é malhado” (Os 9,1-2).
Após o ano 70 sobraram do judaísmo somente os fariseus rigoristas e os cristãos que eram respeitosos com o diferente e abertos, enquanto os fariseus fundamentalistas foram se tornando cada vez mais intolerantes. Chegaram ao ponto de se excomungarem mutuamente. Por isso o Evangelho de João acentua as brigas entre Jesus e os judeus.[4] Neste contexto, o conflito com a autoridade dos judeus provoca uma releitura do ensinamento e da práxis de Jesus. O fato concreto em Jo 8,1-11 é que a mulher estava na iminência de ser morta por eles.
Como era a Lei do adultério no tempo do Primeiro Testamento bíblico? Nos livros de Levítico (Lv 20,10) e Deuteronômio (Dt 22,23) está prescrita a pena de morte para as pessoas adúlteras, sem, no entanto, afirmar qual o tipo de pena a ser aplicada. No livro de Levítico há a prescrição: “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão punidos com a morte” (Lev 20,10).
Para configurar um adultério a outra mulher devia ser casada e judia. Se a mulher não fosse casada, não era adultério, mas fornicação. Na Bíblia, o adultério era punido com a morte do homem adúltero e da mulher adúltera, se o adultério acontece na cidade. No entanto, se o adultério ocorresse na zona rural, no campo, apenas o homem deveria ser punido com a pena de morte. Se fosse no campo, não teria como provar se houve o consentimento da mulher, pois se ela pedisse socorro, dificilmente alguém poderia escutar; na cidade, se a mulher gritasse pedindo socorro, alguém ouviria e teria como comprovar que a mulher estava sendo vítima.
No caso da mulher adúltera desse Evangelho de Jo 8,1-11, nada se diz sobre isso (onde, com quem e nem como foi). O importante para os seus adversários era condená-la e principalmente apoderar-se de Jesus. Jesus, percebendo a cilada de doutores da lei e de fariseus, se levantou e disse: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra” (Jo 8,7). Eles “olharam no espelho” e foram embora, um a um. A mulher, no centro das atenções, reconhece Jesus como Senhor (Jo 8,11). Jesus, de pé, após dialogar com a mulher, lhe diz: “Eu também não te condeno. Podes ir, e não peques mais” (Jo 8,11). Observe um detalhe: Jesus disse para a mulher não voltar a pecar. Ele não disse para a mulher deixar de amar. Nas entrelinhas, Jesus diz: continua sua vida, mulher, amando, lutando e festando, sendo humana e digna de respeito, cuidado e amor.
O autor do Quarto Evangelho termina o capítulo 8 nos informando: “Eles – doutores da Lei e fariseus - pegaram pedras para atirar em Jesus. Mas Jesus se escondeu e saiu do Templo” (Jo 8,59). Ou seja, eles, de fato, queriam era condenar Jesus à pena de morte e apedrejá-lo, como fizeram com o diácono Estevão (At 7,55-60).
A narrativa da Mulher Adúltera está inserida dentro da narrativa da Festa das Tendas no Evangelho de João. De tantas maneiras ela está fora do lugar! É só uma isca para tentar atacar Jesus em uma armadilha de homens moralistas que se dizem religiosos. A passagem de Jo 8,1-11 nos séculos I e II não constava nos manuscritos do Evangelho de João, mas estava inserida em alguns manuscritos do Evangelho de Lucas. Alguns biblistas pensam que poderia ser atribuída a Lucas, pois parece ter um estilo mais lucano que joanino. Há, inclusive, um lugar em Lucas onde ficaria bem encaixada: (Cf. Lc 12,38 +). Isso, porém, não diminui o fato de se tratar de uma narrativa que tem valor bíblico, de inspiração incontestada e com valor histórico.
Em Jo 8,1-11, Jesus testemunha a vontade de Deus, que não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva.[5] Em Jo 2,3 e 4 aparece claramente uma evolução na fé que mostra a desconfiança de Jesus a respeito dos judeus (Jo 2,23-4,42).
Importante observarmos que as mulheres têm participação de destaque nas Comunidades Cristãs do discípulo amado, o quarto evangelista. As mulheres no Evangelho de João: Maria, a mãe de Jesus, está no início e no fim. Em Jo 2,5, aparece a função da mãe de Jesus. Em Jo 4,1-42 se trata da samaritana que é apresentada como exemplo a ser seguida.
É bom conferir as diferenças entre as conversas de Jesus com Nicodemos e com a samaritana. Esta é mulher, anônima, desprezada socialmente e marginalizada. Ela não procura Jesus diretamente, mas é uma mulher com sede de vida, disposta a ter uma água que não seja a água parada no poço. Sente-se atraída pela proposta de Jesus, crendo, aceitando e reconhecendo nele o Messias. A conversa com a samaritana acontece em plena luz do dia.
No centro da confrontação entre Jesus e os judeus aparece outra mulher, essa da qual fala o evangelho deste domingo, aquela que corria o risco de ser apedrejada acusada de adultério.
Ao narrar o sétimo sinal, em Jo 11,20-29 o Evangelho de João fala de Marta e Maria, irmãs de Lázaro. No centro de Jo está a confissão de Marta (Jo 11,27) que reconhece Jesus como Messias. A seguir, no final do ministério público de Jesus, Maria (de Betânia, que já tinha sido apresentada como irmã de Lázaro), com um gesto profético, unge os pés de Jesus (Jo 12,1-11). O seu gesto foi repetido pelo próprio Jesus na última ceia com seus discípulos (Jo 13,1-16). Na hora em que Jesus está na cruz, enquanto a maioria dos discípulos foge, um grupo de mulheres o acompanham. O evangelho fala que aos pés da cruz estavam firmes a mãe de Jesus, Maria, a mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Na madrugada da ressurreição, o Quarto Evangelho fala de Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos, a que recebeu a primeira e a mais importante de todas as ordenações:[6] “Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: Subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Madalena, fiel discípula, foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor” (Jo 20,18). Maria Madalena é a mulher da busca incansável. A credencial para ser apóstolo é ter visto o Senhor ressuscitado e ter sido enviado a anunciá-lo.[7] Por isso, desde o começo da tradição apostólica, Maria Madalena recebeu o título de apóstola dos apóstolos.
Enfim, seguir Jesus implica andar na contramão, remar contra a correnteza de tantos fundamentalismos e da idolatria do fundamentalismo que tenta se sustentar em posturas moralistas e preconceituosas. Exige também rebeldia, coragem, audácia diante de costumes que deformam as consciências e de modas que aniquilam o infinito potencial humano existente em nós. Jo 8,1-11 critica com veemência as posturas hipócritas de pretensos líderes religiosos de muitas igrejas que usam e abusam de versículos bíblicos para tentar justificar posturas racistas, misóginas, machistas, patriarcais, o que abre espaço para a reprodução de discriminações e violências contra as mulheres, contra os negros e as pessoas que têm orientação sexual homoafetiva.
A biblista Nancy Cardoso no texto “Atire a primeira pedra, ai, ai, ai – Reflexões sobre Jo 8,1-11” nos recorda que “em 2023 o STF considerou inconstitucional os crimes de honra. Em 2024, foram 1450 feminicídios, a grande maioria por pessoa próxima e/ou familiar. Diz-se à boca pequena: “os homens não sabem porque matam, mas as mulheres sabem porque são mortas”. Até quando? Vamos aprender com Jesus a rabiscar no chão e murchar o machismo que mata, violenta e silencia. Porque…”
Concordo integralmente com o irmão Marcelo Barros ao escrever que: “Temos que sonhar com uma Igreja justa e igualitária em relação à mulher. Não basta apenas abrir os ministérios para as mulheres. É urgente voltarmos ao evangelho de Jesus e acabarmos com o sistema de duas classes na Igreja: as pessoas ordenadas e as não ordenadas. Só retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino, superaremos a marginalização estrutural da mulher na Igreja. A Igreja precisa ser exemplo de novo modo de ser no mundo, para que consigamos vencer a violência doméstica, o feminicídio, o machismo, o patriarcalismo e tantas situações nas quais a mulher é vítima.”
Essa passagem do Evangelho de João é eloquente! Fala muito da compaixão e da misericórdia de Jesus! E fala muito também da justiça de Jesus, da sua coragem de desmascarar a hipocrisia social dos homens machistas e prepotentes que ali estavam representados. Ao impedir o feminicídio da mulher, Jesus, mais uma vez, se posiciona contra o poder opressor. Não é por acaso, salvo engano, que a Igreja ignorou essa passagem bíblica por muitos anos, demorou a introduzi-la na liturgia. Certamente, pela conivência com esse sistema patriarcal, machista, que discrimina e exclui a mulher. A atitude de Jesus de Nazaré nos faz refletir que a Igreja precisa, urgentemente, voltar à fonte, que é o evangelho de Jesus, também em relação à luta, à defesa, à valorização, ao respeito devido à mulher nas diversas realidades da vida. Depois de tantos séculos de história e de ser movida e animada pela força das mulheres, a Igreja, dirigida por homens, ainda não é capaz de deixar-se iluminar plenamente por esta ação libertadora de Jesus diante da opressão da mulher. Que os esforços do Papa Francisco nesse sentido encontrem eco nos corações e nas mentes das lideranças! Que tenham a coragem de "amar como Jesus amou"!
As videorreportagens nos links, abaixo, de alguma forma atualizam o assunto tratado, acima.
1 - NÃO AO PL QUE AMPUTA 5.500 HECTARES DA APA CHAPADA DO LAGOÃO, DOM GERALDO MAIA/DIOCESE DE ARAÇUAÍ/MG
2 - ANTIGO DOPS OCUPADO EM BH/MG PELOS MOVIMENTOS SOCIAIS. CADÊ O MEMORIAL DOS DIREITOS HUMANOS, Zema?
3 - MENSAGEM DA PARÁBOLA DO PAI AMOROSO DIANTE DE DOIS FILHOS (Lc 15,1-3.11-32) - Por frei Gilvander
4 - FREI GILVANDER NA CELEBRAÇÃO NO ACAMPAMENTO NOVO PARAÍSO, JEQUITAÍ/MG: 28 FAMÍLIAS na TERRA. Vídeo 4
[1] Os títulos e subtítulos das passagens bíblicas não existem nos manuscritos mais próximos dos originais. Foram atribuídos por tradutores somente após vários séculos.
[2] Cf. Jo 2,6.13; 4,9.22.
[3] Cf. Jo 1,19; 2,18; 5,10.15-17; 6,41; 7,47-48.
[4] Cf. Jo 6,41-51; 8,13-30/ 8,48-59; 10,31-39.
[5] Cf. Ez 18,23; Lc 15,7; Jo 8,11.
[6] Cf. Evangelho de Mírian de Magdala.
[7] Cf. 1 Cor 9,1-2; 15,8-11; Gl 1,11-16.