O papa da minha história cristã. Retrato espiritual de Paulo VI. Artigo de Enzo Bianchi

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28 Novembro 2018

“A vida espiritual de Paulo VI era essencialmente cristocêntrica, porque Cristo, o Filho de Deus e homem nascido de Maria, estava no centro de todo pensamento, palavra e ação dele. O cristocentrismo de Paulo VI é um viver com Cristo no centro, é um reconhecer Cristo como Senhor, é uma comunhão com um Cristo que é companheiro e amante.”

A opinião é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 25-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não conheci pessoalmente Paulo VI e nunca o encontrei, ao contrário do que me aconteceu com os seus sucessores. Eu o escutei, o vi, certamente sempre o li e devo confessar que, cada vez que sou chamado a dizer alguma palavra sobre a Igreja e sobre a evangelização, releio os seus escritos, que permanecem insuperáveis pelo próprio magistério papal posterior.

O Papa Francisco disse isso em várias ocasiões, referindo-se especialmente à encíclica Ecclesiam suam (6 de agosto de 1964) e à exortação apostólica Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), textos que ainda não enfraqueceram nem esgotaram a sua força inspiradora e, portanto, profética para a vida da Igreja e dos cristãos na história dos seres humanos.

Paulo VI foi o papa da minha história cristã e monástica, que, nascida no fim do Concílio, cresceu durante os anos do seu pontificado, assumindo aquele perfil que se tornou forma vitae nostrae e encontrando colocação e comunhão na Igreja.

Aqui, gostaria apenas de recordar um momento da sua vida que foi vivido por mim e pela minha comunidade com uma intensidade e uma consciência fortes.

O dia 6 de agosto, festa da Transfiguração do Senhor, é a data escolhida por nós como festa da comunidade, dia em que, na glória e na luz do Cristo transfigurado, celebramos as profissões monásticas definitivas, emitindo os votos diante da Igreja.

Naquele 6 de agosto de 1978, havíamos vivido a liturgia eucarística na qual um irmão e uma irmã se comprometiam para sempre na vida monástica, estreitando a aliança definitiva. À noite, no clarão do verão, estávamos na igrejinha para celebrar Completas, e eu estava proferindo a admoestação fraterna, convidando a todos à ação de graças, quando um irmão veio sussurrar no meu ouvido a notícia da morte de Paulo VI.

Depois de alguns instantes de silêncio, eu disse simplesmente: “Eis que, no sinal da transfiguração do Senhor, na beleza da glória do Senhor, Paulo VI encontrou o rosto por ele tão amado. A sua morte na noite deste dia recebe do Senhor o selo: amou a Jesus Cristo e a sua beleza humana e divina, e nessa luz o Senhor o tomou consigo”.

Ainda me lembro vivamente o modo com que Paulo VI proclamava o termo “Cristo”: com voz convicta e vibrante, repetindo-o várias vezes, quase em uma ladainha na qual ele lhe aproximava definições e atributos muito densos. Também nessa expressão e no estilo com que ele a pronunciava, intuíam-se todo o amor, toda a fé e toda a esperança que Paulo VI punha no Senhor Jesus.

A sua vida espiritual – todos notaram – era essencialmente cristocêntrica, porque Cristo, o Filho de Deus e homem nascido de Maria, estava no centro de todo pensamento, palavra e ação dele.

Permanecem memoráveis as suas palavras de 29 de setembro de 1963, na alocução de abertura da segunda sessão do Concílio, quando ele quis se representar na sua relação com Cristo, recorrendo a esta imagem: “Nós parecemos quase representar a parte do nosso antecessor Honório III que adora Cristo, como está representado com esplêndido mosaico na abside da Basílica de São Paulo Fora dos Muros. Aquele pontífice, de proporções minúsculas e com o corpo quase aniquilado, prostrado no chão, beija os pés de Cristo, que, dominando com um volume gigantesco, envolto em majestade como um mestre real, preside e abençoa a multidão reunida na basílica, que é a Igreja”.

Esse é verdadeiramente o ícone capaz de ilustrar a relação vital que Paulo VI vivia com o Cristo Senhor. Ele tinha um profundo senso de humildade e de indignidade pessoal, confessava a sua pequenez e o seu pecado, como Pedro quando disse a Jesus: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lucas 5, 8). Mas ele também se sentia um discípulo chamado e amado por ele, um sucessor de Pedro, a quem Jesus continuava pedindo nada mais do que amor: “Tu me amas? (...) Apascenta os meus cordeiros” (João 21, 15).

Quantas vezes a pena de Paulo VI transcreveu as palavras desse trecho evangélico em que Pedro é feito pastor sobre o único fundamento do seu amor por Cristo!

Na noite da sua eleição como papa, no dia 21 de junho de 1963, ele anotou: “Estou no apartamento pontifício: impressão profunda de desconforto e de confiança ao mesmo tempo”. E acrescentou: “O mundo me observa, me cerca. Devo aprender a amá-lo verdadeiramente. A Igreja como ela é. O mundo como ele é. Que esforço! Para amar assim é preciso passar através do amor de Cristo: me amas? Apascenta! Ó Cristo, ó Cristo! Não permitas que eu me separe de ti”.

Cristo era para Paulo VI “o companheiro inseparável”. Pode-se dizer que ele vivia junto com Cristo (cf. 1Tessalonicenses 5, 10), e tudo o que pensava, vivia, decidia, dizia e escrevia, parece que ele o fez com essa presença ao seu lado.

Sinal desse vínculo espiritual é também um pequeno livreto, o Manuale Christianum (H. Dessain, Mechelen, 1914), que contém, entre outros, o Novo Testamento e “A imitação de Cristo”, que Paulo VI sempre levaria consigo, também nas viagens apostólica, até o término da sua vida.

O Cristo em que ele acreditava e que amava era o dos Evangelhos, lidos com assiduidade, meditados e rezados; Evangelhos, certamente também atualizados graças à ajuda de várias obras sobre Cristo, particularmente de autores do século XX, mas sobretudo postos ao lado, como requerido, da “Imitação de Cristo”: através da liturgia e da ascese cristã que compromete com uma contínua reformatio de si mesmo e das realidades confiadas a nós pela vontade divina.

De todos os escritos de Paulo VI, recebe-se o testemunho de um seguimento cada vez mais íntimo de Cristo, que ele sente como Filho de Deus que veio ao mundo através da encarnação, mas, por isso, “Filho do homem” que “representou em si a humanidade na sua trágica, imundo, conclusiva realidade: dor e pecado. A humanidade leprosa de todos os seus males, espelho do mais assustador realismo; cada um nela se reencontra. Mas por quê? (...) Para fazer com que nós mesmos nos encontremos nele; para assumir em si cada sofrimento nosso, cada miséria nossa; por imensa, silenciosa, discreta e efetiva simpatia. Para que ele seja nós mesmos”, escreveu ele em 1971, em uma longa reflexão sobre a paixão de Jesus.

Paulo VI tinha um fortíssimo senso do pecado humano, mas colocava esse pecado diante de Cristo, confiando na sua misericórdia e no seu perdão. Como não recordar a grande oração litânica feita na Basílica do Santo Sepulcro, durante a sua peregrinação à Terra Santa, em janeiro de 1964: “Estamos aqui, Senhor Jesus. Viemos como os culpados que retornam ao lugar do seu crime”, e “tu és a nossa redenção e a nossa esperança”.

Em 1921, portanto com apenas 24 anos, ele escrevia: “Desejo vê-lo, Jesus, talvez em breve”, e esse querer ver o Senhor é a sua busca essencial, o fio condutor de toda a sua vida. Em um escrito de 10 anos depois, ele anotou: “Quero que a minha vida seja um testemunho da verdade para, assim, imitar Jesus Cristo, como me convém” (cf. João 18, 37). Ele escolhe o nome de Paulo porque – confessa em uma nota manuscrita após a sua eleição – o apóstolo era “amoroso de Cristo”, amante de Cristo.

Durante todo o pontificado, ouviu dirigidas a si as palavras do Senhor: “Tu me amas? (...) Apascenta os meus cordeiros”. E, no “Pensamento à morte”, o texto que talvez seja o mais expressivo de Paulo VI, ele exclama em forma de oração: “Maravilha das maravilhas, o mistério da nossa vida em Cristo”.

O cristocentrismo de Paulo VI é um viver com Cristo no centro, é um reconhecer Cristo como Senhor, é uma comunhão com um Cristo que é companheiro e amante. De fato, Cristo “é o centro da história e do mundo; ele é aquele que nos conhece e que nos ama; ele é o companheiro e o amigo da nossa vida”, disse ele em Manila, em 29 de novembro de 1970.

Realmente, “Paulo VI soube testemunhar, em anos difíceis, a fé em Jesus Cristo. Ainda ressoa, mais viva do que nunca, a sua invocação: ‘Tu és necessário para nós, ó Cristo!’. Sim, Jesus é mais do que nunca necessário para o ser humano de hoje, para o mundo de hoje, porque nos ‘desertos’ da cidade secular, ele nos fala de Deus, revela-nos o seu rosto”, disse o Papa Francisco no dia 22 de junho de 2013.

Ecclesiam suam

A primeira encíclica de Paulo VI, Ecclesiam suam, foi confiada à Igreja no dia 6 de agosto de 1964, a pouco mais de um ano do início do pontificado. Ela não quis ser uma encíclica doutrinal – disse o papa –, mas sim exortativa e reconfortante, com um estilo aberto, não polêmico, mas espiritual. Nesse texto, em que ele recorre a fontes essencialmente bíblicas, Paulo VI insiste de modo particular na reforma da Igreja, indicando um itinerário preciso, ou seja, os três eixos centrais da encíclica: consciência, renovação, diálogo.

A Igreja deve “refletir sobre si mesma”, “aprofundar a consciência que ela deve ter de si mesma” (Ecclesiam suam, 7), sentir-se uma. Mas esse ato reflexivo nada mais é do que uma postura de escuta e de obediência à palavra de Deus, docilidade a Cristo Senhor (cf. Ecclesiam suam, 21 e 28).

Na Igreja, Paulo VI quer ver o rosto de Cristo, a esposa bela e pronta para o seu esposo (cf. Efésios 5, 27; Apocalipse 21, 2), sempre voltada com o olhar para o Senhor, mas, ao mesmo tempo, capaz de se colocar na história humana com o mesmo paradigma da encarnação, isto é, com o diálogo, tornando-se, assim, instrumento daquele diálogo que Deus tece com a humanidade.

O diálogo parece ser constitutivo da Igreja, conectado à sua íntima natureza e razão de ser. Assim, portanto, o papa se expressa em uma passagem da encíclica que com justiça se tornou célebre: “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio”, e esse diálogo “deve recomeçar a cada dia; e recomeçar do nosso lado, antes que do outro a que se dirige” (Ecclesiam suam, 38 e 44).

E ainda em Belém, em 6 de janeiro de 1964, ele exclamara: “Nós olhamos para o mundo com imensa simpatia. E, mesmo que o mundo se sentisse estranho ao cristianismo e não olhasse para nós, nós continuaríamos a amá-lo, porque o cristianismo não poderá se sentir estranho ao mundo”.

Se a salvação passa pelo espírito da relação com Deus em Jesus, palavra definitiva de Deus à humanidade (cf. João 1, 18; Hebreus 1, 2), então o diálogo é a forma e o conteúdo com que a Igreja obedece ao seu Senhor e se põe a serviço da humanidade, porque “tudo o que é humano nos diz respeito” (Ecclesiam suam, 54).

Eis o novo estilo que Paulo VI pede à Igreja para adotar no mundo contemporâneo: um estilo que é diretamente boa notícia, evangelho, na medida em que afirma que o modo da presença é tão essencial quanto o seu conteúdo, que o modo de ser da Igreja entre as pessoas já é mensagem. Assim, o diálogo torna-se para Paulo VI uma arte de comunicação espiritual, em que clareza, mansidão, confiança tornam-se também caridade da Igreja para com todos os homens e mulheres do mundo: “A Igreja quase se declarou a serva da humanidade”, disse Paulo VI em 7 de dezembro de 1965 na última sessão pública do Concílio. “A Igreja é a serva do homem, a Igreja crê em Cristo que veio na carne e, por isso, serve ao homem, ama ao homem, crê no homem”, ecoou-lhe o Papa Francisco em 22 de junho de 2013. Poderíamos dizer que Paulo VI lançou sobre nós o manto de uma sabedoria profética e de um estilo de escuta e de diálogo que a Igreja somente agora começa a aprender e a praticar.

Evangelii nuntiandi

O terreno para a evangelização, portanto, está preparado, e, quando Paulo VI escreveu a Evangelii nuntiandi, o seu magistério mais profético e ainda insuperável que o Papa Francisco, no dia 22 de junho de 2013, definiu como “o maior documento pastoral que foi escrito até hoje”, a Igreja pôde lembrar que a palavra de Deus é primeira e que a conversão é segunda, mas é absolutamente necessária para que haja diálogo entre a Igreja e o mundo.

A Evangelii nuntiandi é o paradigma do pensamento teológico-espiritual de Paulo VI e expressa a sua postura de cristão e de apóstolo. De um cristão que tenta levar o Evangelho ao mundo, certamente não o identificando com uma cultura; ao contrário, o Evangelho despojado de toda cultura, mas que sabe entrar no tecido das culturas, sem se submeter a nenhuma, permanecendo “boa notícia” que certamente deve ser comunicada mediante uma boa comunicação, mas, acima de tudo, através do testemunho. Em suma, um Evangelho vivido, ou seja, a coerência e o estilo do cristão que vive aquilo que anuncia.

A esse respeito, não se pode deixar de citar uma esplêndida passagem dessa exortação: “A Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os veem viver, perguntas indeclináveis: por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova” (Evangelii nuntiandi, 21).

Paulo VI tinha uma fé profunda na dýnamis da palavra de Deus: também nisso ele era verdadeiramente paulino (cf., por exemplo, Romanos 1, 16: “O Evangelho é dýnamis, poder de Deus”) e acreditava firmemente que a Palavra pode completar a sua corrida no mundo (cf. 2Tessalonicenses 3, 1), se aqueles que a anunciam a vivem como Jesus Cristo a viveu.

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