25 Junho 2026
"Proibir essa prática para leigos não é defender a natureza sacramental da homilia. É defender a instituição em detrimento do Evangelho. Porque o clericalismo não é apenas um vício moral. É também uma heresia eclesiológica. E o púlpito fechado aos leigos é o seu monumento mais visível", escreve José Manuel Vidal, doutor em Ciências da Informação e licenciado em Sociologia e Teologia, em artigo publicado por Religión Digital, 24-06-2026.
Eis o artigo.
O Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos fechou mais uma vez a porta que o Concílio Vaticano II entreabriu há mais de sessenta anos: leigos, por mais que sejam teólogos, catequistas ou missionários, não podem proferir a homilia na Missa. A justificativa oficial é canônica e teológica. O cânon 767 do Código de Direito Canônico reserva expressamente a homilia aos ministros ordenados — sacerdotes e diáconos — e o Dicastério reitera que esta norma não admite exceções, nem mesmo com a permissão do pároco ou do bispo. Roma se pronunciou. Caso encerrado?
O argumento oficial: a homilia como ato sacramental
A defesa do Dicastério baseia-se numa distinção teológica precisa, argumentando que a homilia não é catequese, nem discurso espiritual, nem reflexão piedosa. Segundo a doutrina oficial, é parte integrante do ato litúrgico eucarístico e, portanto, uma extensão do ministério ordenado.
O sacerdote que preside a Eucaristia age in persona Christi capitis — na pessoa de Cristo, a cabeça — e a homilia seria uma expressão dessa mesma autoridade sacramental. Seguindo essa lógica, permitir que um leigo pregue seria fundir duas naturezas eclesiais que a tradição considera distintas e hierarquicamente ordenadas. Em outras palavras, o argumento é internamente coerente dentro do atual sistema canônico-teológico. O problema reside no próprio sistema.
Quando a teologia se torna um privilégio
Porque se lermos os Evangelhos sem a lente do direito canônico, encontraremos algo completamente diferente. Jesus não ordenou ninguém antes de enviar seus discípulos para pregar. Maria Madalena foi a primeira a anunciar a Ressurreição — apóstolas dos apóstolos , como a tradição a chamava — sem ter recebido a imposição de mãos.
Por outro lado, as primeiras comunidades paulinas eram um foco de carismas: profetas, mestres, glossolalistas, homens e mulheres que falavam na assembleia sem que ninguém exigisse deles uma ordenação sacramental. A homilia como monopólio clerical não teve origem com Jesus. Teve origem com o Concílio de Trento.
O Papa Francisco — que ao longo de seu pontificado se insurgiu contra o clericalismo como "uma das maiores distorções da Igreja" — chegou a admitir em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium que a Igreja precisa de leigos com formação genuína e liderança eficaz. Mas persiste um abismo entre sua retórica e sua prática litúrgica, abismo que Leão XIV, seu sucessor, ainda não conseguiu transpor.
A pergunta que ninguém quer responder.
Com base em quê, exatamente, um leigo é considerado incapaz de comentar a Palavra de Deus diante de uma assembleia de fiéis? Se um teólogo com doutorado em Sagrada Escritura não consegue glosar o Evangelho do domingo, mas um sacerdote recém-ordenado que nunca sequer abriu um comentário exegético consegue, o critério não é a competência. É a casta clerical de funcionários do sagrado, que eles desejam preservar a todo custo.
E aqui surge a questão mais incômoda, aquela que o clericalismo institucional prefere não ouvir: o batismo não nos torna todos iguais? A teologia afirma isso inequivocamente. O Concílio Vaticano II falou do sacerdócio comum dos fiéis como uma realidade teológica de primeira ordem, não como uma metáfora devocional. A Lumen Gentium nos lembrou que todos os batizados participam, à sua maneira, do tríplice ofício de Cristo: sacerdote, profeta e rei. O ofício profético — proclamar a Palavra — não é reservado no Novo Testamento a nenhuma casta clerical de eleitos. É dado a todo o povo santo de Deus.
"Não chamem ninguém de Senhor ou Pai"
Jesus foi extraordinariamente explícito sobre este ponto. "Mas vocês não devem ser chamados de Rabi, porque vocês têm um só Mestre, e todos vocês são irmãos. E a ninguém na terra chamem de 'pai', porque vocês têm um só Pai, que está nos céus" (Mt 23:8-9).
Este não é um verso marginal nem uma hipérbole poética. É um alerta direto contra a institucionalização do privilégio religioso, contra a construção de uma elite que se apropria de Deus e o administra ao povo do alto do púlpito e da sagrada inviolabilidade do altar.
A homilia reservada é, nesse sentido, o símbolo mais visível daquilo que Francisco chamou de clericalismo: a convicção inconsciente – ou muito consciente – de que existe uma classe de fiéis que compreende a Palavra melhor do que outros, que tem acesso a um nível do sagrado proibido aos demais, e que precisa proteger esse acesso, porque nele, em parte, reside o seu poder e a sua identidade.
O que se perde ao longo do caminho
Enquanto Roma defende seu monopólio sobre o púlpito, milhares de comunidades rurais e missionárias na América Latina, África, Ásia e até mesmo na velha Europa operam há décadas com catequistas leigos — muitos deles mulheres — que lideram a congregação, comentam o Evangelho e sustentam a fé de seu povo sem que o mundo desabe . Essas não são irregularidades toleradas com má vontade.
Em muitos casos, elas são a verdadeira Igreja, aquela que sobrevive sem padres porque os padres nunca chegam e nunca chegarão. É claro que homilias e sermões continuarão sendo seu domínio e, talvez por isso, insuportáveis. E a pregação continuará sendo sinônimo de repreensões infundadas e sem fundamento.
Proibir essa prática para leigos não é defender a natureza sacramental da homilia. É defender a instituição em detrimento do Evangelho. Porque o clericalismo não é apenas um vício moral. É também uma heresia eclesiológica. E o púlpito fechado aos leigos é o seu monumento mais visível.
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