O conselheiro do Papa, Hans Zollner: “Agora cabe aos bispos italianos investigar a pedofilia”

Foto: Freepik

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Outubro 2021

 

“Agora as realidades eclesiásticas de outros países precisam ter a mesma coragem da Igreja francesa. Espero que também a Itália. A Igreja não é imaculada e, infelizmente, é feita também de pecados e crimes”. O homem de confiança do Papa, o jesuíta alemão Hans Zollner, 54, comenta a divulgação do Relatório da Igreja francesa sobre os abusos. Zollner lidera o Instituto de "Antropologia, estudos interdisciplinares sobre dignidade humana e cuidado de pessoas vulneráveis" da Universidade Gregoriana, um dos centros mais prestigiosos do mundo, tanto que, na quinta-feira, Angela Merkel, o visitará antes de se encontrar com o Papa.

A entrevista é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 06-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Por que a visita de Merkel?

O Instituto nasceu em colaboração com o Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade Clínica Estatal de Ulm. As instituições alemãs sempre acompanharam o nosso trabalho. Acredito que a chanceler esteja interessada em entender melhor como ajudamos a Igreja a prevenir. A Igreja alemã foi abalada por um relatório semelhante àquele francês. Mas os abusos dizem respeito a toda a sociedade.

 

Os números do relatório francês são impressionantes.

Por trás do choque desses números e das dimensões dessa chaga está a vítima, a sua família, o contexto em que vive. Precisamos pensar em cada vítima: é pela justiça e pela salvaguarda das pessoas que a Igreja quis este trabalho.

 

O senhor falou com os bispos franceses?

Encontrei-me com eles há duas semanas. Estavam cientes do eco que o Relatório teria e juntos reconheciam que o caminho da verdade e da sinceridade é o único que deve ser trilhado. Admitir os crimes do passado e as responsabilidades é o único ponto de partida. As responsabilidades são sistêmicas e institucionais. Os crimes foram tratados com negligência e também culpadamente e ativamente ocultados.

 

Há resistências na Igreja para investigar e fazer uma limpeza?

Sim, também porque encarar essa realidade é difícil para muitas pessoas que pensam que a Igreja seja imaculada, um lugar sem pecado e crimes. Não é assim. Para além do plano teológico, a realidade humana é constituída também por homens que erram, que cometem crimes e que os encobrem. Existem pessoas feridas na Igreja e elas devem estar em primeiro lugar. Muita coisa mudou de 2019 para hoje, desde que Francisco convocou as vítimas ao Vaticano e mudou as Normas do direito canônico em um sentido mais restritivo. Este é o caminho e não se pode voltar atrás.

 

Podemos esperar demissões dos bispos franceses?

Se um bispo não fez o que a legislação de seu Estado e o Código de Direito Canônico, lhe pedem, sim. Na Alemanha, o Cardeal Marx, mesmo não sendo diretamente culpado, ofereceu sua renúncia como sinal de que assumia responsabilidades pela Igreja que representa especificamente. O Papa rejeitou a renúncia, mas o seu gesto, inclusive para servir de sinal para todos, deveria fazer os outros pensarem.

 

Leia mais