Insatisfação popular destoa dos números da economia

Foto: Igor Sperotto/Extra Classe

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17 Setembro 2026

Descompasso entre dados econômicos positivos e avaliação negativa de uma fatia considerável da opinião pública indica necessidade de reconhecer gargalos e enfrentar problemas estruturais.

A reportagem é de Priscila Lobregatte, publicada por ExtraClasse, 16-09-2026.

Os brasileiros vivem hoje uma situação socioeconômica melhor do que nos períodos recentes sob os governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL). Porém, entre os números e a percepção da população sobre eles, há uma vasta distância. Dados de diferentes estudos apontam mais renda, redução recorde do desemprego e controle da inflação, entre outros indicadores positivos. Na contramão dos gráficos, pesquisas de opinião mostram que a sensação de grande parte da população sobre a economia não reflete a melhora, já que apenas um quinto dos pesquisados considera a situação favorável.

A diferença entre o quadro geral e a insatisfação de parte da população pode, em um primeiro momento, parecer contraditória. Mas, na verdade, expressa um contexto complexo, formado por diferentes fatores que incidem na forma como as pessoas percebem a realidade: das finanças pessoais a aspectos psicológicos, passando pela arquitetura das redes digitais e dos jogos de azar, até o humor político.

Lidar com esse “descompasso” tem sido uma das dificuldades enfrentadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para deslanchar junto à opinião pública.

A inflação vem desacelerando sua marcha: em março, atingiu 0,88% e, agora, está em 0,16%, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E o ano de 2025 fechou com inflação de 4,26%, a menor anual desde 2018.

“O que acontece é que entre 2020 e 2022 o país teve uma inflação muito elevada, que corroeu o poder de compra da população e superou os dois dígitos”, explica Maurício Weiss, economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No último ano do governo Bolsonaro, o índice chegou a marcar mais de 10%. “Depois, a inflação cedeu com as medidas adotadas pelo então presidente às vésperas da eleição, quando retirou o ICMS dos combustíveis. Isso, inclusive, gerou um enorme prejuízo para os estados, cuja fatura ficou para o governo Lula”, acrescenta Weiss.

Com relação ao desemprego, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, mostrou que no trimestre encerrado em junho a taxa foi de 5,4% – a mais baixa para o período desde 2012.

Seguindo o mesmo caminho, a informalidade no mercado de trabalho vem caindo de forma gradual e contínua: o índice recuou para a faixa de 37% da população ocupada, atingindo o menor patamar desde julho de 2020.

Acumulando ganhos reais acima da inflação, o salário médio do brasileiro alcançou R$ 3.732 no trimestre encerrado em abril, enquanto a massa salarial em circulação na economia somou mais de R$ 377 bilhões – ambos os valores são os maiores já aferidos desde 2012. Enquanto isso, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no acumulado do primeiro semestre deste ano, 87% das negociações salariais no Brasil resultaram em ganhos acima da inflação.

Esses, entre outros resultados – alcançados mesmo diante de um cenário externo turbulento e incerto –, tendem a melhorar a vida da população e, por consequência, a avaliação sobre a economia e o governo vigente. Contudo, as pesquisas têm mostrado, com algumas variações, certa resiliência na visão negativa do brasileiro sobre a economia e a gestão federal.

Uma das mais recentes, feita pela BTG/Nexus e divulgada em agosto, apontou que 47% avaliavam a situação econômica como ruim ou péssima, contra 21% que diziam estar boa ou ótima; outros 31% afirmaram estar regular.

No caso do presidente e do governo federal, pesquisa Quaest de agosto indicou que 48% dos entrevistados aprovam o trabalho de Lula e 47% desaprovam. Quanto ao governo, 36% o avaliam positivamente; 36%, negativamente; e 26%, como regular.

Afinal, como se dá essa disparidade?

Esse descompasso entre os dados positivos da economia e a avaliação do governo tem gerado análises e estudos de economistas e cientistas políticos. A forte divisão política, que interfere na maneira como parte da população julga o atual governo, é apenas um elemento de um leque multifatorial. A seguir, estão alguns dos que dizem respeito mais diretamente à seara econômica.

Em artigo sobre o tema, Laura Carvalho, professora de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), e Guilherme Klein Martins, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), procuram jogar luz sobre o tema, além de propor uma agenda para acelerar o processo de crescimento econômico inclusivo.

Entre outros aspectos, o estudo aborda quatro hipóteses explicativas “para esse hiato entre o desempenho e a percepção: uma inflação que cedeu, mas contribuiu para o mal-estar econômico na base da pirâmide; a comparação implícita com os primeiros governos de Lula, mas com um crescimento mais lento, que se deu a partir de um nível ainda deprimido da renda após uma década perdida; a transformação cultural produzida pelas redes sociais, que criou padrões elevados de aspiração de consumo; e a frustração de uma geração escolarizada que descobriu que o diploma não garante ascensão social”.

Diante do forte debate público sobre o papel das redes sociais na atualidade, Laura e Martins salientam que os algoritmos das plataformas “priorizam conteúdo aspiracional (viagens, luxo, estilo de vida)” e que as redes sociais de comércio “encontram aí um ambiente propício: não são apenas lojas, mas canais pelos quais as classes de menor renda se apropriam, de forma acessível, do vocabulário visual da elite”.

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Outro ponto importante por seu peso cotidiano na vida das pessoas é o endividamento. Levantamento divulgado em julho pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que oito em cada dez famílias (80%) têm dívidas, sendo o cartão de crédito o principal vilão.

“Na pandemia, muita gente se viu obrigada a contrair dívidas para sobreviver devido à queda da renda. E isso impacta ainda hoje porque, conforme as dívidas iam vencendo, essas pessoas tiveram de fazer novas dívidas para conseguir honrar as despesas já contratadas. E, ao fazer a rolagem dos empréstimos e as novas dívidas, a taxa de juros já estava bem mais alta”, pondera Maurício Weiss.

No eixo “endividamento”, também pesam, para uma parte considerável da população, as perdas em jogos on-line. Em 2025, as bets provocaram uma saída líquida de R$ 62 bilhões do orçamento das famílias, de acordo com levantamento feito pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) e pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef).

Para além do impacto financeiro e de saúde mental nas famílias, Weiss salienta que “se esse valor fosse destinado ao comércio ou serviços locais, geraria mais emprego e renda. É um montante gasto que não volta para o país” – até porque muitas bets são estrangeiras.

Conforme Laura e Martins, o endividamento e as bets “não são a causa da insatisfação, mas, ao menos em parte, consequências do descompasso entre renda e aspiração. Contudo, à medida que o pagamento das dívidas compromete uma parte cada vez maior do salário, o problema é agravado e se retroalimenta na esperança de renda com apostas”.

Gestão macroeconômica

Na avaliação da dupla, o terceiro mandato de Lula é, em termos de gestão macroeconômica, competente. Afinal, “reconstruiu programas sociais, controlou a inflação, reduziu o desemprego para mínimos históricos, ampliou a massa salarial, retirou dezenas de milhões de brasileiros da pobreza extrema”.

Porém, eles advertem, esses fatos não operam no vácuo. “Operam contra um pano de fundo de expectativas formatadas pelos anos dourados dos primeiros mandatos, contra a memória de uma mobilidade social excepcionalmente rápida. Operam contra uma cultura digital que exibe, para todos, ao mesmo tempo, o que os outros têm e o que ainda falta. Operam contra uma geração que estudou para mudar de vida e descobriu que o diploma, sozinho, não basta.”

Para tanto, eles propõem uma “agenda de prosperidade”, que aprofunde o que já foi feito no sentido do desenvolvimento socioeconômico.

Nesse sentido, defendem avançar nas políticas redistributivas (taxação progressiva e benefícios sociais) e horizontais (serviços públicos, salário mínimo, jornada de trabalho); na diversificação produtiva, soberania e transição climática; no enfrentamento da armadilha dos juros altos, na revisão da meta de inflação e na redução da volatilidade cambial.

O desafio, portanto, é, conforme salientam, “aprofundar um movimento de tradução dos bons resultados macroeconômicos em experiências cotidianas mais amplas de bem-estar e segurança econômica”.

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