31 Agosto 2026
"A possibilidade de Lula ser eleito é um dos temas quentes da política brasileira. Os primeiros números mostram um cenário favorável, embora desafiador".
O artigo é de Frei Betto, escritor, autor de “Anatomia do Poder” (Vozes), que chega às livrarias dia 1º de setembro, entre outros livros.
Eis o artigo.
Lula abriu sua quarta campanha a presidente do Brasil no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, palco das históricas assembleias dos metalúrgicos na virada das décadas de 1970/80. Às vésperas de completar 81 anos, ele busca seu quarto mandato, repetindo, pela segunda vez, a chapa com Geraldo Alckmin.
Mais do que uma formalidade, o evento em São Paulo expôs a estratégia de uma campanha que tenta equilibrar a defesa do legado com um olhar voltado para as novas demandas do país. Lula constrói a campanha apoiado nas conquistas de seu governo atual. Em discurso, afirmou que o Brasil voltou a crescer, com a economia superando a marca de 3%, algo que não ocorria desde o primeiro mandato. A aposta é que a memória do "pão e circo" do ciclo de inclusão social dos anos 2000, combinada com ações recentes, seja um diferencial.
Para o próximo governo, Lula apresenta prioridades que revelam uma guinada em relação às campanhas anteriores:
Educação e Cuidados com Idosos: temas de forte apelo social que resgata a tradição petista de políticas de proteção às minorias e grupos vulneráveis.
Indústria de Defesa e Soberania Nacional: mudança significativa de tom. O discurso ganhou contornos geopolíticos. Lula mencionou a necessidade de estar preparado para evitar uma eventual invasão ao país.
Controle sobre Terras Raras: outro ponto estratégico inédito. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, essenciais para tecnologia e energia limpa. A promessa é garantir que esses recursos permaneçam sob controle nacional, refletindo um nacionalismo econômico.
Soberania e Política Externa Independente: Este é o eixo central, uma resposta direta a tarifas e tensões com os EUA. O plano defende o fortalecimento da defesa nacional, a autonomia tecnológica e digital, e a rejeição de "alinhamentos automáticos".
Revisão do Sistema de Emendas e Modernização do Estado: O programa critica as emendas parlamentares, que em 2026 somaram cerca de R$ 56 bilhões e são vistas como uma "grave distorção" no Orçamento. A proposta é debater com a sociedade um novo modelo de orçamento participativo.
Continuidade com Ajustes Econômicos: Mantém-se o arcabouço fiscal atual, mas a equipe econômica estuda nos bastidores um pacote de ajustes para o primeiro ano. Isso inclui revisar gastos obrigatórios, benefícios sociais (como o BPC) e a fórmula de reajuste do salário mínimo, temas considerados sensíveis.
Agenda Trabalhista e Social: O plano inclui a promessa de articular no Senado o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, além de criar um sistema de proteção para trabalhadores de aplicativos e plataformas digitais.
Desenvolvimento e Neoindustrialização: A aposta é o foco em inovação, IA e minerais críticos para agregar valor e reduzir vulnerabilidades externas. O tom sobre o agronegócio se tornou mais estratégico, enfatizando sua importância econômica para a balança comercial.
Essa agenda, ao mesclar o social ao desenvolvimento nacionalista, sinaliza a tentativa de atrair eleitores que vão além da base tradicional. Abraça bandeiras de soberania, em resposta à pressão externa e ao protecionismo, como as tarifas impostas pelos EUA.
A possibilidade de Lula ser eleito é um dos temas quentes da política brasileira. Os primeiros números mostram um cenário favorável, embora desafiador. As pesquisas indicam que no primeiro e no segundo turnos Lula está em vantagem nas intenções de voto contra seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Este resultado demonstra sua força eleitoral no momento, especialmente considerando a turbulência política e a herança do governo anterior. Para além das pesquisas, sua popularidade atual é um termômetro crucial. Três fatores formam o núcleo da estratégia eleitoral de 2026:
1. Alívio Financeiro: o programa de renegociação de dívidas, "Desenrola 2.0", e o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda (para quem ganha até R$ 5 mil) injetaram ânimo na classe média e nos mais pobres, com 55% dos brasileiros aprovando as medidas.
2. Mudanças Trabalhistas: a proposta de reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais (com a mesma remuneração) é popular e conquistou até eleitores mais à direita, que veem a medida com bons olhos.
3. Estabilidade Econômica: A sensação de que a economia melhorou, com o crescimento do PIB e a redução do pessimismo sobre o futuro, fortalece a narrativa de que o país voltou aos trilhos.
Com a campanha oficial iniciada em 16 de agosto, a vantagem de Lula sobre a oposição, aliada a uma estratégia de governo focada em resultados práticos, será reforçada pelo “desnudamento” de Flávio Bolsonaro ao reforçar na memória do eleitor as “rachadinhas” em seu gabinete quando deputado estadual no Rio, as homenagens que prestou a milicianos e assassinos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, sua submissão aos ditames do governo Trump e ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por lavagem de dinheiro, dono do então Banco Master, liquidado pelo Banco Central, em 2025, devido a um rombo bilionário por emissão de carteiras de crédito falsas e títulos irregulares.
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