08 Abril 2026
A economia brasileira não se financeirizou no sentido estrutural, o que houve foi algo mais profundo: uma não produtivização que deslocou o centro da acumulação para atividades de circulação, tornando o crescimento cada vez mais dependente do que não gera valor
O artigo é de Henrique Morrone, professor de economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado por A Terra é Redonda, 06-04-2026.
Eis o artigo.
1.
A trajetória recente da economia brasileira tem sido amplamente interpretada à luz do conceito de financeirização. A crescente relevância das atividades financeiras, a expansão do crédito e o aumento do peso dos ativos imobiliários parecem oferecer uma explicação intuitiva para as transformações observadas desde o início dos anos 2000. No entanto, quando se observa a estrutura econômica no nível mesoeconômico — isto é, nas relações intersetoriais que organizam a produção — essa interpretação revela limites substantivos.
O que emerge da evidência empírica setorial não é a dominância das finanças enquanto tal, mas uma transformação mais abrangente: a expansão das atividades de não produção. Não se trata apenas de uma mudança de composição setorial, mas de uma alteração na própria forma de reprodução do excedente — isto é, no modo como ele é gerado, apropriado e reinserido no circuito da acumulação.
A distinção é decisiva. A tradição da economia política, especialmente em sua vertente marxiana, estabelece uma separação analítica entre atividades que geram valor e mais-valia e aquelas que apenas circulam, realizam ou redistribuem o excedente. Nesse enquadramento, setores como finanças, comércio, atividades imobiliárias, educação pública, saúde pública, defesa e administração pública são classificados como não-produtivos, não por sua irrelevância social, mas por não contribuírem diretamente para a geração de mais-valia no sentido marxiano.
Sua expansão, portanto, não representa um aprofundamento da capacidade produtiva, mas uma reconfiguração estrutural na qual uma parcela crescente do excedente passa a ser apropriada fora da esfera de sua geração.
A análise baseada em matrizes de insumo-produto para o período 2001-2021 permite tornar visível essa reconfiguração. Ao decompor os requisitos diretos e indiretos de produção, observa-se uma tendência persistente de elevação do conteúdo de atividades não produtivas incorporado à produção. Em termos substantivos, isso significa que a própria produção passa a depender crescentemente de esferas que não ampliam a base de valorização.
Produzir deixa de ser um processo predominantemente ancorado na transformação produtiva e passa a exigir, de forma crescente, mediações associadas à circulação do excedente. A economia não deixa de produzir; passa a produzir sob condições progressivamente mais mediadas por aquilo que não produz. A economia não apenas cresce menos — passa a crescer fora da esfera que sustenta o próprio crescimento.
2.
Esse movimento não é episódico, mas estrutural. Entre 2005 e 2015 — período de expansão econômica apoiada no boom de commodities, na ampliação do crédito e em políticas de estímulo à demanda — a economia brasileira cresceu ao mesmo tempo em que se aprofundava a incorporação de atividades não produtivas. Trata-se, portanto, de um crescimento que já carrega em si seus próprios limites: expande-se (seguindo a contabilidade nacional padrão) sem ampliar, na mesma proporção, a capacidade de geração de valor.
Ainda que haja inflexões pontuais — como no início dos anos 2000 e no período posterior a 2015 — a tendência dominante é inequívoca: a elevação do peso estrutural das atividades de circulação, com exceção do setor financeiro, cuja participação relativa se reduz no período. Cresce-se, portanto, com base em uma estrutura que desloca, gradualmente, o centro da dinâmica econômica para fora da esfera da produção.
A Figura 1 apresenta a evolução dos requerimentos totais dos setores de não produção (NP) e financeiro (FIRE), evidenciando a divergência entre a expansão do primeiro e a relativa retração do segundo. Em termos sintéticos, a figura captura o conteúdo de não produção e financeiro incorporado à produção. Ao nível mesoeconômico, observa-se uma redução dos componentes totais do setor financeiro na estrutura produtiva, o que indica ausência de evidência de financeirização neste plano analítico específico.
Resultado semelhante foi encontrado por Dávila-Fernández e Punzo (2020) para o período 1995-2010. Em contraste, a expansão da não produção é mais difusa e sustentada (pelo menos até meados da década de 2010), sendo puxada sobretudo por comércio e administração pública. Isso enfraquece a hipótese de uma financeirização no sentido estrito, entendida como a centralidade das finanças na determinação da dinâmica econômica.
O que se observa é algo mais abrangente: uma economia que se reorganiza em torno da circulação e da apropriação do excedente, e não de sua produção. A financeirização, nesse contexto, pode estar presente nos níveis micro e macroeconômico, mas não se manifesta como princípio organizador da estrutura produtiva.
Figura 1. Requerimento total do Setor de Não Produção (NP) e Financeiro (FIRE), Brasil.
Fonte dos dados brutos: Passoni e Freitas (2020).
3.
A análise dos encadeamentos intersetoriais reforça esse diagnóstico ao revelar uma dinâmica estruturalmente assimétrica. Por um lado, os encadeamentos para trás dos setores não produtivos apresentam tendência de enfraquecimento até 2017, indicando que sua capacidade de induzir a produção nos demais setores se reduz ao longo do tempo. Por outro, os encadeamentos para frente se intensificam no mesmo período, evidenciando que o conjunto da economia passa a depender crescentemente dessas atividades como insumos.
A Figura 2 ilustra esse movimento. Essa combinação não é trivial: ela expressa uma transformação na lógica de funcionamento do sistema. Os setores não produtivos deixam de atuar como vetores de dinamização e passam a constituir uma infraestrutura funcional da economia — indispensável à sua operação, mas incapaz de impulsionar sua expansão sustentada. Aquilo que não puxa o sistema torna-se, paradoxalmente, aquilo sem o qual ele não opera.
Figura 2. Encadeamentos para frente (Fwrd) e para trás (Bkwd) do setor de não-produção (NP), Brasil.
Fonte dos dados brutos: Passoni e Freitas (2020).
Esse quadro se altera com a crise econômica e política de 2015. A partir de 2017, observa-se uma inflexão nos multiplicadores: os encadeamentos para trás deixam de cair e passam a se recuperar, enquanto os encadeamentos para frente recuam. Mais do que uma reversão simples, trata-se de uma reconfiguração: a capacidade de indução dessas atividades aumenta, ao passo que sua centralidade como insumo sistêmico se atenua. O resultado não é o retorno a uma estrutura produtiva mais "equilibrada", mas a emergência de um novo padrão, ainda marcado pela presença estrutural da não produção.
4.
Em termos analíticos, trata-se de um deslocamento do centro de gravidade da acumulação. A economia não deixa de produzir, mas passa a fazê-lo sob condições crescentemente mediadas por atividades que não geram valor novo. A expansão dessas atividades pode sustentar a demanda agregada no curto prazo — especialmente via crédito e consumo —, mas o faz ao custo de uma absorção crescente do excedente.
O resultado é uma tensão estrutural: quanto mais a economia depende dessas esferas, menos capaz se torna de sustentar, de forma autônoma, sua própria dinâmica de acumulação. O sistema continua a se mover, mas o faz apoiado em bases progressivamente deslocadas em relação ao seu próprio fundamento.
Nesse sentido, a noção de não produtivização oferece um enquadramento analítico mais preciso do que a de financeirização para compreender a trajetória recente da economia brasileira. A financeirização, embora um conceito relevante, constitui apenas uma dimensão particular de um fenômeno mais amplo, no qual diversas atividades de circulação ganham centralidade. Ao deslocar o foco para a não produtivização, torna-se possível captar a transformação estrutural em sua totalidade, e não apenas em sua manifestação financeira. Não se trata, portanto, de negar a financeirização, mas de recolocá-la em seu devido lugar analítico.
As implicações desse diagnóstico são substantivas. O crescimento observado nos anos 2000, embora significativo, esteve apoiado em bases estruturalmente frágeis, marcadas pela expansão de atividades com limitada capacidade de geração de valor. A desaceleração posterior — particularmente a partir de 2010 — pode ser interpretada como a manifestação dessas fragilidades.
À medida que o excedente é crescentemente absorvido por atividades não produtivas, reduz-se a capacidade de financiamento do investimento produtivo, comprometendo a continuidade do processo de acumulação. O problema, portanto, não reside apenas na composição setorial, mas na forma como o excedente circula e é apropriado ao longo do sistema.
Em suma, a economia brasileira recente não é adequadamente descrita como um caso típico de financeirização no nível mesoeconômico. O que se observa é um processo mais profundo de não produtivização, no qual a expansão das esferas de circulação redefine a estrutura econômica e impõe limites ao crescimento de longo prazo.
A distinção entre produção e circulação, longe de constituir uma abstração teórica, revela-se central para compreender a dinâmica concreta do desenvolvimento brasileiro. Uma economia pode crescer; mas pode também crescer deslocando-se progressivamente para fora da esfera em que o crescimento se sustenta. E, quando isso ocorre, o crescimento deixa de ser motor e passa a ser apenas movimento — uma economia que gira, cada vez mais, em torno de seus próprios limites.
Referências
Dávila-Fernández, M. J., & Punzo, L. F. (2020). Financialisation as structural change: measuring the financial content of things. Economic Systems Research, 32(1), 98–120.
PASSONI, P.; FREITAS, F. Estimação de Matrizes Insumo-Produto anuais para o Brasil no Sistema de Contas Nacionais Referência 2010. Texto para Discussão 025. Rio de Janeiro: IE-UFRJ, 2020.
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