16 Setembro 2026
O embate eleitoral opõe um projeto de fortalecimento democrático e inclusão social a um modelo pautado pelo Estado mínimo, privatizações e autoritarismo punitivista.
O artigo é de Amélia Cohn, publicado por A Terra é Redonda, 15-09-2026.
Amélia Cohn, socióloga, é professora aposentada da Faculdade de Medicina da USP, docente do Programa de Mestrado em Direito da Saúde da UNISANTA. Autora, entre outros livros, de Cartas ao presidente Lula: Bolsa Família e direitos sociais (Azougue Editora).
Eis o artigo.
1.
Os tempos andam conturbados. Propositalmente conturbados por aqueles que apostam na discórdia, nos privilégios para poucos e na exclusão de muitos, no conflito social e na destruição da ordem democrática. Enquanto isso, o governo Lula e seus aliados apostam em políticas inclusivas, a começar pelos mais vulneráveis, e em medidas econômicas voltadas ao desenvolvimento econômico do país com inclusão social. Isso é óbvio, mas o óbvio não pode ser esquecido. Ensina a história.
Que está em jogo nessas eleições? Nossa sociedade está fraturada, segmentada por distintos interesses de distintos grupos sociais, mas sobretudo por radicalidade daqueles que se utilizam de redes, de púlpitos e do parlamento para a defesa de seus interesses imediatos. Outra obviedade. Mas aí é que reside o pulo do gato.
Na condição de pesquisadora e docente que fez carreira no ensino público e que atuou no movimento da reforma sanitária brasileira e participou do Programa Bolsa Família nos seus dois primeiros anos, sou testemunha de que a busca dos governos Lula sempre foi a de implementar políticas públicas que promovessem a cidadania dos mais vulneráveis, seja na inclusão educacional até o nível universitário, na ampliação do acesso à saúde e à habitação e em programas e políticas econômicas que produzam vagas de trabalho.
Claro que tudo isso sob o torniquete da manutenção da política de juros elevados para pagamento da dívida pública, um dos mecanismos que promovem a financeirização das políticas sociais. Mais que isso, num ambiente político que no outro extremo do quadro aprova leis que penalizam menores agredidas sexualmente dificultando acesso a serviços de saúde para interrupção da gravidez, que promovem a violência do sistema de segurança pública e até buscam uma legitimidade social, para além de legal, da prática da "justiça pelas próprias mãos".
Este é o ponto: de um lado, políticas que valorizam e promovem a vida; de outro, propostas que promovem e banalizam a morte, promovem o interesse imediato sem projeto a médio e longo prazo. De um lado, o interesse imediato, de outro o interesse geral, público, garantindo vida para as próximas gerações.
2.
Terceira obviedade: como diz Gabriel, o meu companheiro, da arquibancada eu marco todos os gols. No campo da disputa política a coisa é mais complicada. Então, embora muita coisa pudesse ter sido melhor realizada, isso de modo nenhum pode apequenar ou anular o quanto se avançou na construção de um ambiente democrático e das políticas sociais desde 2003, com Lula, e o quanto se conseguiu destruir desse avanço em apenas seis anos durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Daí o alerta: a construção de uma ordem democrática é demorada, requer coragem, paciência, persistência e luta. E em democracias ainda em construção como a nossa, conquistas na ordem democrática facilmente podem ser desconstruídas e substituídas pela ordem dura e excludente do autoritarismo social e político.
Nesse ambiente de tentativa de uma "togada" que ameaça as instituições democráticas e republicanas na base da ordem democrática, no nível nacional basta um mergulho nos programas de governo dos dois candidatos com maior intenção de votos à Presidência da República. O programa de governo de Lula enfatiza a inclusão social, o desenvolvimento econômico articulado ao desenvolvimento social e, mais que tudo, as políticas públicas de corte social articuladas à formação de cidadãos.
Não se trata apenas da expansão e aprofundamento dos programas e políticas públicas atuais, mas dessas políticas como vetores fundamentais de crescimento e desenvolvimento econômico. É o caso dos investimentos no complexo econômico e industrial da saúde, incorporados à concepção de promoção de crescimento e soberania nacional no setor da saúde. No programa são detalhados subsegmentos de atuação para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) com o objetivo de ampliar a efetivação de seus princípios e diretrizes. Importante ressaltar que não só a saúde da mulher vem destacada, em todos os seus ciclos de vida, como também a expansão da saúde bucal.
Quanto à saúde bucal, é interessante apontar seu aspecto simbólico. Em 1989 participei da elaboração do livro São Paulo: trabalhar e viver, coordenado por Vinicius Caldeira Brandt, publicado pela Editora Brasiliense e financiado pela Comissão de Justiça e Paz de São Paulo. Na ocasião busquei dados sobre acesso a ela enquanto política pública, e eram estarrecedores. Nada mais coerente: ainda na transição democrática conservadora, depois de décadas de ditadura, saúde bucal não era importante nem ganhava prioridade, pois não havia políticas de segurança alimentar, e muito menos espaços de expressão dos mais vulneráveis.
Nesse sentido, é significativo que o programa Lula dê destaque à saúde bucal para que os mais vulneráveis socialmente, até muito recentemente calados pelo poder em nossa história, possam ter voz, serem ouvidos e escutados, e possam desfrutar dos programas de combate à pobreza, inclusão social e segurança alimentar. Destaque à saúde bucal simboliza aqui não só a concepção de saúde integral dos indivíduos que orienta o programa de saúde de Lula, como sobretudo a dimensão da construção da cidadania, do bem viver, do viver com dignidade.
3.
Finalmente mais um ponto de destaque, dentre tantos outros, no programa de Lula: a forma como aborda a saúde mental. É dada ênfase à continuidade das propostas da Reforma Psiquiátrica, com expansão dos Centros de Atenção Psicossocial e da Rede de Atenção Psicossocial enquanto instituições públicas e comprometidas com modelos de atenção não confinantes.
Enquanto os pontos aqui destacados revelam a cidadania e a vida como eixo estruturante do programa do futuro governo Lula, o oposto ocorre na proposta de governo do seu oponente mais próximo nas intenções de voto. É um programa que não detalha suas propostas, sempre genéricas e formuladas como grandes intenções de realização sem explicitar como praticá-las.
Assim, do lado diametralmente contrário ao programa de governo de Lula, o programa de governo do candidato da família Bolsonaro parte do eixo estruturante do Estado mínimo. Afirma que "apenas administrar carências é comodismo", e depois é evasivo, sem apresentar como atingir e implementar propostas próprias. A utilização do termo "carências" aqui é central. Políticas de combate à pobreza e à desigualdade social, em decorrência, constituiriam ações que levam a uma dependência do Estado.
O importante seria a prosperidade e a acumulação de patrimônio. Vale dizer, ações para a qualificação da população para o mercado. Assim, na saúde o objetivo consiste em aprofundar a política de saúde (e isso, mediante a privatização da gestão dos serviços de saúde como vem ocorrendo em massa no estado de São Paulo tendo consequências desastrosas no modelo e na conscientização da saúde como um direito cidadão).
E a proposta da saúde mental? Fala-se em ampliação da rede de serviços, mas sem mencionar como fazê-lo. E o exemplo antirreforma saúde mental está aí como seu antípoda: as comunidades terapêuticas que sem a necessária regulação e o necessário monitoramento praticam o confinamento precário e violento dos doentes mentais, ao invés de indicar ações de tratamento e de reinserção na sociedade.
Nesse programa chamam a atenção não só a proposta de uma redução drástica do gasto público (com impactos não calculados nos gastos públicos a não ser "cortes"), com cálculos não fundamentados, como nas ações de cuidado às pessoas não autônomas custarem 8,5% do PIB, ou nas propostas para a educação.
4.
Neste caso, ao mesmo tempo que se propaga "uma educação orientada para o conhecimento e livre de doutrinação político-partidária respeitando a liberdade de consciência e o papel das famílias", e que "escola é um lugar de aprender a pensar", propõe-se a ampliação das escolas cívico-militares que estariam associando disciplina (militar) com desempenho e dedicando aos alunos com altas habilidades (para o mercado) um atendimento especial.
Contradição em termos nessa proposta: já pesquisas mostram que essas escolas, dirigidas por quadros não formados em pedagogia, mas na área militar, têm menor rendimento pedagógico do que as demais. Por outro lado, a prática da disciplina militar já traz consigo uma ideologia, a de uma ordem e hierarquia já estabelecidas, obediência sem questionamentos, incompatíveis com o lema de "aprender a pensar", substituindo-o por "aprender a obedecer".
Não bastasse isso, uma rápida leitura dos títulos do índice desse programa já aponta a proposta truculenta e anticidadã do que seria esse governo antipetista e antidemocrático. Na área trabalhista, a proposta é a regra do "negociado sobre o legislado"; ou quadruplicar a primeira pena para quem rouba celular e ampliar a rede carcerária, na velha concepção de que combater a violência significa produzir mais prisões; e coisas como a castração química para estupradores. E por aí vai a lista de horrores. Tudo isso remunerado por orçamentos elaborados por resultados. Como estamos na área social, para não falar das reformas políticas e institucionais, dentre elas do STF, e claro de extinguir a reeleição, talvez para tentar garantir o retorno do genitor à cadeira presidencial.
O que cimenta e tece tudo isso é não só uma concepção arraigada e radicalmente neoliberal, mas a criação de uma ou várias redes de cuidado, já que o "Estado não pode assumir [o cuidado] mas pode dividir com ela [a família]" esse cuidado. Propõe-se então uma Rede Nacional de Cuidado, que se entende como compondo a prestação dos cuidados, não especificados quais e como, à sociedade. O termo "cuidado" exige precaução: como no texto todo desse programa não aparece a palavra cidadão, ele estaria destinado às famílias tidas como uma massa composta por unidades indiferenciadas, público-alvo de ações do Estado para formar seus componentes enquanto perfis de mão de obra demandadas pelo mercado. Este é que, com sua batuta impiedosa, determina e define as ações estatais.
5.
Quanto à razão para votar em Fernando Haddad, os motivos são os mesmos para o voto em Lula. Os programas de governo federal e estadual são coerentes entre si, com ênfase nas políticas públicas forjadas pelas matrizes fundantes da justiça social e dos direitos sociais. As políticas de saúde e educação são tidas como estruturantes das ações, bem como o destaque à segurança pública.
A incorporação da Inteligência artificial nas ações do Estado é feita com moderação, mas sem inibições, fazendo com que a prática profissional humanizada (o cuidado enquanto reconhecimento do direito ao acesso a bens públicos essenciais) não seja substituída pela informatizada. A valorização dos profissionais do setor público é pressuposto da qualidade da oferta pública de serviços, a educação em tempo integral é valorizada e a segurança pública é priorizada como área de atuação que demanda coordenação estadual.
Ela é vista como objeto de ações organizadas estrategicamente e não de produção de equipamentos de combate à violência. Já afirmava o mestre Paul Singer, em 1981 no livro Prevenir e curar, que é um enorme equívoco medir o sucesso das ações de combate à violência pelo número de prisões realizadas (punição) e não por ações de prevenção, o mesmo se prestando à saúde: o aumento da rede de serviços de saúde é essencial, no entanto o mesmo vale para políticas e programas (econômicos e sociais) que combatam efetivamente os determinantes sociais da exposição tão desigual da população aos riscos de adoecer.
Com Fernando Haddad no governo estadual de São Paulo e Lula na presidência o SUS e as políticas sociais serão fortalecidas e aprofundadas, numa composição entre desenvolvimento econômico e social inclusiva. O mercado exclui, dada sua própria natureza; em sociedades tão injustas e socialmente tão desiguais, cabe ao Estado democrático prover e ofertar esses serviços essenciais.
Isso significa aprimorar os programas e políticas já existentes apontando-as para o futuro e não para a volta aos períodos do passado recente que redundaram em desconstrução dos avanços na área social como, em decorrência, nas mortes durante a pandemia e na queda violenta da cobertura vacinal, num Brasil reconhecido nacionalmente pela eficiência do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Mas, enquanto a gestão municipal de Fernando Haddad (2013-2016) enfrentou, por exemplo, a questão da Cracolândia de forma exitosa no que diz respeito à adesão e reinserção dos drogaditos ao programa "De Braços Abertos", a gestão de Tarcísio de Freitas no governo do estado desbaratou de forma violenta a concentração dessa população, não promoveu nenhuma política de reinserção social dessas pessoas e propõe para revitalização do centro paulistano a mudança da sede do governo estadual para a área central.
Na prestação de serviços básicos propõe a privatização, tal como feito com a Sabesp, de outros setores, sem especificar quais nem o montante de recursos envolvidos, e pasme-se: na educação propõe a incorporação pelos curricularistas (os que formulam os currículos escolares, termo até então inédito para mim) da Inteligência artificial.
E dado o vertiginoso aumento da violência contra as mulheres durante seu governo, propõe programas para seu combate, e demais programas como vouchers para creches para as mães poderem trabalhar, e incentivos para as mães empreendedoras para que elas possam prosperar. E, claro, não mais recursos para o sistema público de saúde estadual, mas sim a atualização de uma Tabela SUS Paulista (vale dizer, aumentar a remuneração do setor privado paulista da saúde).
E para arrematar, informatizar todos os serviços e o acesso a eles em nome de facilitação para o indivíduo consumidor, sem levar em conta que somos um país em que 1% dos mais ricos detêm 37,3% da renda nacional, segundo dados disponibilizados de forma resumida pela Oxfam.
Assim, a questão do voto, daqui a menos de um mês, não reside em escolhas entre alternativas razoáveis. Mas sim entre uma que respeita e leva em conta os cidadãos brasileiros, a ordem e as instituições democráticas, as formas civilizadas de convivência e a construção da possibilidade do bem viver para a grande maioria da população, e outra que desrespeita a vida, proclama a morte, direta ou indireta, daqueles que não rezam por sua bíblia, ou quiçá mesmo pela pontaria de sua arma ou caneta. Aqueles que votam por uma ordem democrática que respeita a justiça, ou por outra que prega a justiça feita com as próprias mãos.
Eis razões que demonstram que votar em Lula e Haddad é votar pela democracia e pela vida, pelo direito de bem viver!
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