16 Setembro 2026
"A riqueza da nossa tradição, representada na nossa vida sacramental, abre a porta não para um momento de ‘superação’, mas para a transformação", afirma o National Catholic Reporter, 15-09-2026.
Eis o editorial.
Os tribunais de falências e os acordos de mediação são instâncias de cálculo frio, concebidas para trazer alguma justiça sob a forma de acordos financeiros, um termo que sugere sedutoramente uma conclusão. No entanto, quando empregadas como tática no escândalo de abuso sexual em curso na Igreja Católica, fica claro que tais acordos deixam os fiéis com muito mais perguntas do que respostas.
Os processos legais cumprem o seu propósito, que é o de obter alguma reparação em nome das vítimas. Contudo, não restauram nem transformam os sobreviventes. Não apagam memórias assombrosas e debilitantes. E pouco fazem para responder às perguntas mais pungentes para as quais os fiéis ainda aguardam resposta: Como isso aconteceu? Como os principais pastores puderam permitir que os mais vulneráveis do rebanho fossem atacados?
Como explicou Charles Nadeau, representante nomeado pelo tribunal para representar as vítimas: "A falência não é inerentemente injusta. Ela existe para garantir um certo grau de equidade quando os recursos são limitados. Mas, quando aplicada a casos de abuso sexual por membros do clero, corre o risco de se tornar outra coisa — um substituto para a responsabilidade moral."
A Arquidiocese de São Francisco, diante de um acordo de US$ 359 milhões com centenas de vítimas de abuso sexual por membros do clero, explicou que a distribuição do ônus financeiro entre suas paróquias era essencial para "permitir que nossa igreja local saísse da falência e superasse este capítulo difícil de nossa história".
O desejo de "superar este capítulo difícil", que depende inteiramente da aplicação de pesados impostos àqueles que nada tiveram a ver com a criação do problema, é um sentimento revelador.
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É profundamente humano desejar deixar um passado doloroso para trás, querer encontrar a porta que podemos fechar atrás de nós. Mas isso não é possível, nem deveria ser o nosso desejo. Tal racionalidade reside nos domínios da negociação secular e da jurisprudência. Não é a linguagem de uma espiritualidade madura que compreende que o caminho da fé nunca é uma fuga desesperada em busca de escapar de um momento difícil. Pelo contrário, a orientação da fé nos conduz ao árduo trabalho de transformar tais momentos.
Meses antes do anúncio em São Francisco, a Diocese de Albany, em Nova York, chegou a um acordo de US$ 148 milhões com cerca de 440 vítimas. A reação foi bem diferente da maioria que vimos. Dom Mark O'Connell, que disse que sua vida mudou por causa de seu longo envolvimento com vítimas de abuso, foi enfático ao ser questionado se o pagamento permitiria à diocese "superar isso".
"Desculpe-me pela firmeza nesta resposta, mas absolutamente não. Não vamos superar isso. Isso fará parte da minha trajetória em Albany enquanto eu estiver aqui", disse ele. "E falando de coração, não vamos superar isso, estamos atendendo ao que foi pedido de forma humilde, com um pedido de desculpas e fazendo o que podemos, mas o que estamos fazendo não será suficiente... Tenho a forte convicção de que isso não ficou no passado."
O'Connell disse que passou 25 anos lidando com o assunto, inclusive "no olho do furacão em Boston" e como juiz-chefe e promotor no tribunal arquidiocesano.
"Eu estive presente em todas as etapas disso. Mudou a minha vida, mudou a minha perspectiva e sinto muito que a nossa igreja, coletivamente, tenha feito isso com essas pessoas pobres que foram profundamente feridas. Sinto muito mesmo."
É raro ouvir tamanha compaixão genuína, fruto da experiência, vinda de um bispo americano, mas mesmo a resposta apaixonada de O'Connell deixa de abordar a questão principal. Pois não foi "a Igreja coletivamente" que fez isso. Foi a cultura clerical/hierárquica. Essa cultura ainda não se deu conta, coletivamente, de que a crise de abusos na Igreja foi uma traição à comunidade em nível sacramental. É um nível de traição que não pode ocorrer em nenhuma outra circunstância.
Em uma declaração feita em junho de 2002, durante a reunião que resultou na versão inicial da Carta para a Proteção de Crianças e Jovens, o então bispo Wilton Gregory, que era presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA e falava em seu nome, estabeleceu o que deveria ter sido a diretriz central para uma cultura hierárquica que havia sido cúmplice na destruição de milhares de vidas jovens.
"O que precisamos é de uma reconciliação que cure... uma que comece com o amor pela verdade que é Jesus Cristo, uma que abrace plena e honestamente os elementos autênticos do sacramento da penitência, tal como o celebramos na tradição católica."
"A penitência necessária aqui", continuou ele, "não é uma obrigação da Igreja em geral nos Estados Unidos, mas sim uma responsabilidade dos próprios bispos."
Essa reivindicação nunca pareceu ter sido totalmente acolhida pelos bispos.
A riqueza da nossa tradição, representada na nossa vida sacramental, abre a porta não para um momento de "superação", mas para a transformação. Esta última exige um grau de sinceridade e especificidade que pode ser doloroso e requer genuína humildade. Os nossos bispos têm feito tudo, menos alcançar esse nível de responsabilidade.
O Papa Francisco reconheceu a gravidade da situação quando enviou o pregador da Casa Pontifícia para conduzir um retiro para os bispos dos EUA em 2019. "A credibilidade da Igreja foi seriamente abalada e diminuída por esses pecados e crimes, mas ainda mais pelos esforços feitos para negá-los ou ocultá-los", escreveu Francisco em uma carta aos bispos.
Francisco reconheceu que "os pecados e crimes que foram cometidos, e suas repercussões nos níveis eclesial, social e cultural, afetaram profundamente os fiéis".
Embora muitos bispos tenham saído do retiro sentindo-se renovados, as sessões não produziram, no âmbito da conferência, as mudanças de grande impacto que Francisco delineou em sua carta: "não apenas uma nova abordagem à gestão, mas também uma mudança em nossa mentalidade (metanoia), em nossa maneira de orar, em nossa gestão do poder e do dinheiro, em nosso exercício da autoridade e em nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros e com o mundo ao nosso redor".
A dura realidade é que os leigos acabam arcando com as consequências, financeiras e de outras formas, do comportamento depravado de seus bispos. Eles ficam com paróquias em dificuldades, recursos reduzidos para o ministério e a perda de credibilidade da Igreja perante a sociedade em geral.
Agora sabemos que o acobertamento não foi obra de um bispo isolado; não foi prerrogativa de liberais ou conservadores. Foi resultado de uma cultura hierárquica que se desenvolveu de forma a permitir que seus membros acreditassem estar acima de qualquer crítica ou responsabilidade, mesmo pelos comportamentos mais flagrantes.
Os líderes de hoje são herdeiros do legado de figuras como os cardeais Anthony Bevilacqua, da Filadélfia, Bernard Law, de Boston, Roger Mahony, de Los Angeles, o arcebispo Rembert Weakland, de Milwaukee, e o bispo Charles Grahmann, de Dallas. Esses são apenas alguns dos nomes mais notórios cujo uso de dinheiro, poder e privilégios nos primórdios do escândalo exemplificou a cultura doentia da igreja. Suas desculpas, justificativas e estratégias elaboradas, destinadas a proteger o tesouro e a reputação da igreja, desmoronaram rapidamente quando expostas à luz da verdade.
Existe algo mais contrário ao Evangelho cristão do que padres e bispos cúmplices na destruição de crianças?
A Igreja merece ouvir uma confissão completa. Precisa ouvir detalhes de como nossos líderes pretendem transformar a cultura clerical/hierárquica. Os bispos precisam transformar um de seus encontros nacionais em uma profunda exploração dessas questões. Precisam de um exame completo, intransigente e sem rodeios da atividade pecaminosa e criminosa de seus antecessores, da cultura que herdaram e que permitiu que tal pecado e crime se alastrassem por tanto tempo.
Continuaremos a ouvir expressões de pesar e a tomar conhecimento de pagamentos monumentais, bem como de aperfeiçoamentos nos procedimentos institucionais. O que permanece por fazer é o trabalho sacramental. Os bispos não podem delegar essa tarefa a mais ninguém.
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