“Cerimedo é apenas uma peça de uma rede muito maior”. Entrevista com Julián Macías Tovar

Fernando Cerimedo e Eduardo Bolsonaro | Foto: Fernando Cerimedo/Reprodução do Twitter

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14 Setembro 2026

O pesquisador analisa as conexões por trás do caso Cerimedo e reconstrói uma rede transnacional de consultores, veículos de comunicação, fundações e operadores digitais. Fazendas de bots, influenciadores digitais, think tanks — essas são as novas formas de intervenção política empregadas por uma estrutura voltada para a construção e amplificação de narrativas de extrema-direita.

A entrevista é de Natalia Aruguete e Bárbara Schijman, publicada por Página|12, 14-09-2026. 

O caso Cerimedo rapidamente deixou de ser um mero episódio jurídico na Bolívia. As acusações, conversas e conexões políticas que vieram à tona após sua prisão revelaram uma teia que cruza fronteiras e conecta consultores eleitorais, veículos de comunicação, fundações, líderes e estruturas de amplificação online. Julián Macías Tovar, pesquisador espanhol especializado em redes sociais e fundador da Pandemia Digital, vem monitorando o funcionamento de algumas dessas redes na América Latina e na Espanha há anos. Em entrevista ao Página/12, ele reconstrói o papel de Fernando Cerimedo nessa rede, analisa suas fazendas de bots e centros de trolls e explica por que, em sua opinião, o foco não deve estar apenas em um único operador.

Eis a entrevista.

Qual foi a descoberta mais importante que este caso nos permitiu fazer?

Com a prisão de Fernando Cerimedo, acusado de tentativa de feminicídio, foi revelado que Nadia Beller era sua companheira e que ele aparentemente pretendia fugir para Buenos Aires. Pouco depois, quando ela deu um depoimento a um jornalista boliviano de sua confiança, a caixa de Pandora foi aberta. Ela afirmou que Cerimedo estava por trás da tentativa de homicídio e alegou estar em perigo por possuir muitas informações. Diversas ramificações surgiram de suas declarações.

Qual deles?

Uma das questões diz respeito à violência: ela o culpou pela tentativa de homicídio e também afirmou que ele já havia tentado matá-la antes, que detinha considerável poder e que conseguiu obstruir uma investigação por controlar setores da polícia. Outra questão relaciona-se às alegações de corrupção envolvendo Cerimedo, sua esposa e vários associados. Beller mencionou negócios ligados a hidrocarbonetos, ouro, seguradoras, contratos governamentais e até mesmo conexões com o tráfico de drogas. Uma terceira dimensão é a questão de por que Cerimedo tinha tanto poder.

De onde veio esse poder e em que situações ele foi revelado?

Beller afirmou que o parceiro internacional de Cerimedo era Brad Parscale, estrategista digital de Donald Trump em 2016 e, posteriormente, gerente de sua campanha de reeleição em 2020. Cerimedo havia reconhecido publicamente sua relação com empresas ligadas a Parscale e com tecnologias de campanha que, segundo ele, incorporavam parte do legado da Cambridge Analytica. Isso foi corroborado pelo que foi encontrado no telefone de Cerimedo: conversas com Erick Correa, um oficial boliviano ligado à unidade de inteligência antinarcóticos. De acordo com a reconstrução, Cerimedo atuava como intermediário entre agências americanas e o governo boliviano de Rodrigo Paz. Posteriormente, vieram à tona conversas com Paz e vários ministros.

Que informações começaram a surgir a partir das imagens e materiais que foram divulgados?

Uma das imagens mostrava Rodrigo Paz, seu ministro das Relações Exteriores, e Cerimedo reunidos com Marco Rubio em um encontro sobre segurança e narcotráfico. Além disso, esse oficial da inteligência, que já estava sob investigação por outros motivos, aparece nas conversas e, segundo o material divulgado, teria trocado mensagens relacionadas ao atentado contra Beller. Posteriormente, muitos dos associados a Cerimedo se distanciaram ou negaram qualquer ligação: os presidentes José Antonio Kast, Keiko Fujimori e Javier Milei, e o jornalista espanhol Javier Negre, fundador da EDATV e ligado ao jornal La Derecha Diario. Mas os documentos mostram que Cerimedo tinha ligações estreitas com todos esses grupos.

Você também vem reconstruindo a trajetória de Javier Negre na Bolívia e sua relação com Cerimedo. O que esse caso revela sobre as redes que se formam entre consultores, veículos de comunicação e operadores políticos, e que depois reaparecem em diferentes campanhas eleitorais?

Cerimedo era um peão do trumpismo que aplicava o que eu chamo de "método Bannon": mentiras, ódio e bots. Ele próprio se gabou em várias entrevistas de ter 50 mil contas falsas só na Argentina. E nas buscas realizadas nas propriedades de Cerimedo na Bolívia, foi encontrado um centro de trolls, segundo relatos publicados. Nadia Beller afirmou que esse era o menor dos centros que ele mantinha na Bolívia, que havia outro maior e que o principal ficava em Buenos Aires, em escritórios ligados à agência de publicidade Numen ou ao jornal La Derecha Diario. O jornalista Juan Luis González, autor de El Loco, disse ter visto essa estrutura. Isso não é algo que está vindo à tona agora. Se você adicionar a isso o La Derecha Diario como um veículo de comunicação criado para disseminar certas narrativas, ataques ou informações falsas, que são então amplificadas por bots e um regimento de trolls, você começa a entender como funciona. Porque bots sozinhos não bastam: é preciso um grupo de pessoas que transmita a mensagem.

Quem desempenha esse papel?

É aí que entram políticos, jornalistas e o que eu chamo de "estrelas dos trolls". Na Argentina, conhecemos muitos: Daniel Parisini, "El Gordo Dan"; Juan Pablo Carreira; Ezequiel Acuña. Alguns trabalharam em veículos de comunicação ligados a Cerimedo e depois ocuparam cargos na estrutura de comunicação do governo ou em órgãos públicos. Com Santiago Caputo, resumidamente, formou-se uma estrutura com cerca de vinte contas que funcionavam como estrelas dos trolls e milhares de bots que amplificavam o que essas contas publicavam. Então, alguém dizia: "Precisamos fazer disso uma tendência mundial", uma notícia aparecia no La Derecha Diario, uma imagem ou uma acusação, essas contas espalhavam e milhares de perfis replicavam até que se tornasse um assunto em alta.

Javier Negre, que havia trabalhado com Cerimedo e tinha ligações com o jornal La Derecha Diario, também aparece nesta trama. Que papel ele desempenhou na Bolívia e o que aconteceu com essa relação após a prisão de Cerimedo?

Há algo sobre o jornal La Derecha Diario que considero importante. Após o atentado, Javier Negre afirmou já ter acertado a venda do jornal com Cerimedo antes de tudo acontecer. Mas, em seguida, surgiram informações que indicavam que o acordo foi feito depois da prisão de Cerimedo, e Negre rapidamente tentou se distanciar. No entanto, entre as capturas de tela divulgadas, o La Derecha Diario Bolivia apareceu em grupos de WhatsApp ligados a Cerimedo. E Negre havia estado na Bolívia fazendo campanha para Rodrigo Paz. Em uma dessas capturas de tela, também aparece uma pessoa ligada à Fundação Faro, dirigida por Agustín Laje. Assim, diferentes grupos começam a se conectar.

Que outras conexões surgiram?

O caso Cerimedo também levou a uma ruptura, ou pelo menos a uma mudança, dentro do próprio movimento libertário argentino: houve rumores de que Santiago Caputo estaria se distanciando do movimento, e também de tensões com Agustín Laje. Nadia Beller chegou a afirmar que Cerimedo já considerava outro candidato à presidência da Argentina e mencionou o pastor Dante Gebel. Não sei até que ponto isso vai — aí entramos no campo da especulação —, mas parece claro que Cerimedo manteve contato com figuras dentro desse movimento fora da estrutura formal do governo.

Então, essas relações iam além da estrutura formal do governo argentino?

Exatamente. Em uma das capturas de tela, por exemplo, há uma conversa entre Cerimedo e Ricardo Ferrer, alguém que ocupou cargos relacionados à inteligência e segurança e que também participou de reuniões do Fórum de Madri. Ferrer parece estar ligado a uma fundação dentro dessa rede transnacional, onde também encontramos a Atlas Network. Lá, a rede se expande: o Fórum de Madri é organizado pela Fundação Disenso, ligada ao Vox; ao seu redor aparecem líderes, fundações e figuras que participam regularmente de reuniões em vários países da América Latina. O interessante é que, quando você começa a seguir os nomes e as organizações, deixa de ver casos nacionais isolados e começa a observar conexões que reaparecem no Chile, Paraguai, Argentina, Bolívia e outros países. Foi aí que tentei reconstruir historicamente essas redes e sua relação com certas agendas promovidas pelos Estados Unidos.

Como funcionam essas redes?

O que precisamos é do que eu chamo de "matriz de opinião". Desde o golpe de Estado de 2019 na Bolívia, tenho observado um padrão recorrente no Twitter. Essa matriz de opinião inclui as contas que são retuitadas, aquelas que ditam a narrativa a ser promovida, o que repetir, o que dizer. Esses roteiros frequentemente aparecem ligados a think tanks e fundações transnacionais. Nas campanhas que analisei na Bolívia, Equador, Chile, Argentina, México, Uruguai, Paraguai e Brasil, encontrei essa matriz de opinião e, em seguida, uma matriz de disseminação, composta por bots e contas que replicam esse conteúdo em massa.

Quem elabora essa matriz de opiniões?

Dentro da matriz de opinião, encontramos políticos, líderes de fundações, comunicadores, jornalistas, veículos de comunicação, influenciadores e estrelas do trollagem. Também aparecem contas anônimas, capazes de lançar as acusações mais graves. Algumas contas chegam a se passar por jornais sem site ou redação. Publicam uma acusação contra um rival, e então toda a estrutura a amplifica. Esse padrão se repete nas campanhas pós-eleitorais. Quando o oponente vence, acusações de fraude eleitoral costumam surgir. Vimos isso na Bolívia, no Brasil e nos Estados Unidos.

O que esses casos têm em comum?

Essas estratégias se alinham a alguns dos serviços oferecidos pela Team Jorge, a empresa israelense liderada por Tal Hanan, que foi exposta por meio de uma investigação com câmera escondida: criação em massa de contas falsas, contatos com serviços de inteligência, acesso a jornalistas e a capacidade de invadir dispositivos. Eles chegaram a oferecer estratégias para impedir a implementação política de um resultado eleitoral desfavorável. Nessa mesma gravação com câmera escondida, Hanan também afirmou que eles trabalharam com a Cambridge Analytica em uma campanha na América Latina. Eu relaciono isso à eleição argentina de 2015, onde houve uma forte campanha digital e midiática contra o peronismo.

Há continuidade com as operações anteriores, mas Cerimedo ainda não estava envolvido na campanha argentina de 2015. Quando ele começa a aparecer nessa trama?

Não, Cerimedo não estava envolvido em 2015. O que estou dizendo é que essa metodologia é anterior a isso. Segundo ele próprio, começou a operar mais claramente por volta de 2018 no Brasil. Mais tarde, apareceu nas campanhas de Patricia Bullrich no Chile, novamente no Brasil, e no final de 2022, começou a trabalhar com Milei. Depois disso, construiu uma rede de associados em vários países: Paraguai, Chile, Peru e Equador. Não estou dizendo que Cerimedo participou de todas as operações anteriores, mas sim que posteriormente se integrou a um método e infraestrutura já existentes. É importante distinguir entre dados e conclusões ou hipóteses. Há coisas que podemos verificar e outras conexões que exigem investigação adicional.

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Por exemplo?

Por exemplo, Brad Parscale teve contratos com o Estado de Israel nos últimos anos. Ao analisar os candidatos e os espaços com os quais essas redes atuam, encontramos posições muito alinhadas com os Estados Unidos e Israel. Houve até relatos de ofertas de apoio midiático e digital condicionadas a determinadas posições em relação a Israel. Sabemos também, por meio de conversas vazadas, que Cerimedo esteve em Israel poucos dias antes do ataque contra Nadia Beller e se comunicou de lá com Erick Correa. Esses são fatos relevantes, embora não sejam conclusivos por si só.

Como isso se relaciona com outras empresas que você investigou, como a Team Jorge?

A investigação secreta sobre a Equipe Jorge revelou diversas informações interessantes. A empresa alegou ter participado de dezenas de campanhas eleitorais em vários países e mencionou uma campanha na América Latina realizada em conjunto com a Cambridge Analytica. Martín Rodil, um venezuelano cujos vínculos com agências americanas foram investigados, também aparece na investigação, inserido em uma rede de operações políticas e judiciais contra líderes latino-americanos.

Que outras conexões surgem nesse caso?

Rodil foi ligado, por exemplo, a depoimentos de pessoas perseguidas pelo sistema judiciário venezuelano que, segundo diversas investigações, receberam benefícios em troca de informações contra certos governos ou partidos políticos. Entre essas pessoas estava Hugo “El Pollo” Carvajal, que acabou fazendo acusações de financiamento venezuelano contra um grande número de grupos políticos latino-americanos e europeus. O ponto crucial é que essa operação digital não parece ser isolada: ela pode ser combinada com operações midiáticas, políticas, judiciais e de inteligência.

Com base em todo esse contexto, o que o caso Cerimedo realmente revela?

A questão não é Cerimedo. Cerimedo é apenas uma peça do quebra-cabeça. A questão central é uma rede muito maior de interesses e organizações estadunidenses e israelenses que intervêm nas democracias latino-americanas e também na Espanha. Esses agentes são munidos de tecnologia, mas também de uma retórica constantemente repetida: narcotráfico, terrorismo, ameaça estrangeira. Em uma das gravações de áudio entre Rodrigo Paz e Cerimedo, por exemplo, quando discutiam como responder às manifestações, surge a ideia de "encenar um espetáculo" — construir uma narrativa e acusar os manifestantes de serem terroristas ou narcotraficantes. E quando se examinam documentos historicamente desclassificados sobre as operações dos EUA na América Latina, encontram-se termos e enquadramentos recorrentes: por um lado, "liberdade"; por outro, terrorismo, narcotráfico, interferência estrangeira. O que muda são as tecnologias e os atores que executam essas estratégias.

Qual o papel dos think tanks e das fundações?

Esses dados são fundamentais porque nos permitem entender que isso não depende de um único consultor ou necessariamente de contratos diretos com candidatos. José Antonio Kast, por exemplo, negou ter qualquer relação contratual com Cerimedo. Um contrato direto pode não existir. Mas, ao analisar as campanhas digitais no Chile, entre as contas mais amplificadas estão líderes e figuras de fundações integradas a redes transnacionais. Nas campanhas de 2020 e 2022, observei uma estrutura de bots em que as contas mais retuitadas eram de figuras como Kast e outros líderes ligados a organizações desse ecossistema, juntamente com estrelas do troll criadas especificamente para a conversa digital. E ainda há organizações como Hazte Oír, CitizenGO, ou redes ligadas ao El Yunque, além de fundações neoliberais.

Que tipo de agendas eles promovem?

Uma dessas agendas é “menos governo, mais liberdade”. Outra é construir certas ameaças: comunismo, terrorismo, narcotráfico, imigração. Por trás de tudo isso, também existem interesses econômicos. Muitas dessas fundações recebem financiamento de setores empresariais interessados ​​em recursos naturais, energia, petróleo ou processos de privatização. O importante é observar a estrutura como um todo e não se concentrar apenas em Cerimedo: ele pode desaparecer amanhã, mas a estrutura permanece.

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