22 Mai 2026
Pouco mais de seis meses após assumir o cargo, o novo presidente boliviano enfrenta uma onda de protestos. Além da rejeição às políticas econômicas liberais, há um sentimento de indignação moral entre as organizações sociais que se sentem marginalizadas em meio às atuais mudanças de poder.
A entrevista é publicada por Nueva Sociedad, maio de 2026.
As eleições presidenciais bolivianas de agosto e outubro de 2025 foram, ao mesmo tempo, previsíveis e surpreendentes. Por um lado, não havia dúvidas de que marcariam o fim da hegemonia do Movimento para o Socialismo (MAS) na política boliviana, que durava desde sua ascensão ao poder em janeiro de 2006. Por outro lado, os vencedores não estavam entre os favoritos. A chapa era composta por Rodrigo Paz, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), e pelo ex-policial Edmand Lara. Paz havia construído uma longa carreira política como deputado, senador e prefeito de Tarija, no sul do país; Lara, de origem operária, era conhecido por sua postura anticorrupção. O contexto não era fácil. A crise econômica que pôs fim a um longo período de crescimento foi agravada por uma crise de legitimidade para toda a classe política. Contudo, o novo governo enfrenta uma série de protestos violentos muito cedo, quando o período de lua de mel com o eleitorado ainda deveria ter terminado, com seu epicentro no departamento de La Paz. Quais são as causas da atual agitação social e qual a posição do governo em relação ao seu enfrentamento? Quais dimensões caracterizam a atual mudança política? A socióloga María Teresa Zegada e o economista Armando Ortuño respondem a uma série de perguntas propostas pela Nueva Sociedad para tentar compreender o atual momento político do país, que volta a ser notícia internacional devido ao conflito social em curso.
Eis a entrevista.
Rodrigo Paz completou agora os primeiros seis meses de seu mandato. Seu governo herdou uma grave crise econômica, mas também reflete uma erosão da liderança política nos últimos anos e uma mudança ideológica substancial. Qual é a avaliação até o momento nas esferas política e econômica, e quais mudanças se destacam em comparação com a era MAS?
María Teresa Zegada: A chegada de Rodrigo Paz e Edmand Lara à Presidência e à Vice-Presidência, respectivamente, foi inesperada até mesmo para os próprios candidatos. Portanto, desde o início, o governo careceu de um partido coeso, uma estrutura de poder sólida e um programa mais ou menos claro. Esse contexto explica, em parte, as características de sua administração e alguns dos conflitos atuais.
A vitória deles foi produto de dois fatores sobrepostos: por um lado, o declínio do partido MAS em seus últimos anos no governo, que culminou em uma implosão irreversível após sua divisão em duas facções irreconciliáveis; por outro, a clara resistência do eleitorado a líderes conservadores tradicionais, como Jorge "Tuto" Quiroga e Samuel Doria Medina. Nesse contexto, a chapa Paz-Lara emergiu e obteve sucesso repentino, aparentemente atendendo às demandas do eleitorado: renovação política (embora Paz tivesse uma longa carreira política, ele não havia ocupado cargos executivos nem sido candidato à presidência), uma mudança de rumo após a longa hegemonia do MAS e atenção às necessidades e demandas significativas da classe trabalhadora empobrecida do país em meio à crise econômica. Quanto a este último ponto, ele se conectou diretamente com a candidatura a vice-presidente de "Capitão Lara", um ex-policial do meio popular que ficou famoso em suas redes sociais denunciando atos de corrupção policial, o que lhe custou o emprego.
Hoje, ao contrário do período eleitoral, quando a chapa Paz-Lara parecia favorecer os interesses dos setores populares, sinais contrários se fazem presentes. Por exemplo, as visitas de altos funcionários do governo aos Estados Unidos para buscar empréstimos de organizações internacionais e uma explícita reaproximação com Washington; a eliminação do imposto sobre grandes fortunas, que visava incentivar o investimento nacional e estrangeiro; o fracassado Decreto 5503, que incluía um amplo pacote de estabilização econômica e a redução dos subsídios aos combustíveis; e, mais recentemente, a pressão pela aprovação da lei fundiária, que buscava converter pequenas propriedades em médias, promovendo assim a liberalização da agricultura [1]. Embora medidas sociais também tenham sido aprovadas, como o aumento de 20% no salário mínimo, o bônus PEPE para setores vulneráveis e um plano de apoio à produtividade para microempresas, os primeiros sinais apontavam para uma crescente rejeição social e a sensação de fraude eleitoral, especialmente no departamento de La Paz.
A isso se soma a relação crítica do governo com o vice-presidente Lara. Desde o início, ele se proclamou o garantidor do cumprimento das promessas "ao povo". Em um evento de campanha, declarou: "Eu sou a garantia. Se Rodrigo Paz não cumprir, eu o confrontarei". Assim, uma vez no governo, o vice-presidente, com sua personalidade volátil, gradualmente adotou uma postura crítica e de oposição a Paz, enquanto o presidente o isolava das responsabilidades do Poder Executivo. Durante os dias críticos do atual conflito social, Lara afirmou: "Estarei sempre ao lado do povo", acrescentando: "O povo está cansado de mentiras, corrupção e falsas promessas". Ele chegou a advertir que, se necessário, se juntaria aos protestos.
Ao assumir o cargo, três grandes desafios foram anunciados: uma mudança gradual para políticas liberais; o combate à corrupção desenfreada que se instalou durante os governos do MAS; e a reconstrução de uma estrutura institucional devastada. Essas intenções ainda não se materializaram, nem sequer passaram da retórica. Em conclusão, dadas as circunstâncias destes primeiros seis meses, pode-se argumentar que o governo de Paz é um governo de transição, preso entre o esgotamento do modelo de gestão anterior e uma nova era muito aguardada que ainda não emergiu completamente. Enquanto isso, o governo mantém posições ambíguas e contraditórias diante do crescente acúmulo de demandas e da impaciência social.
Armando Ortuño: Nestes seis meses, confirmaram-se as principais características políticas do período que se iniciou com a implosão do MAS: uma desintegração acelerada do sistema partidário e da governança hegemônica que governou o país por quase 20 anos, sem que ainda surja qualquer arranjo político estável que una os diversos atores no poder nesta nova etapa. Embora as eleições gerais de 2025 tenham confirmado a derrota da esquerda do MAS e o fim de seu mandato, um cenário político estável não emergiu, nem esse resultado conferiu ao novo presidente um mandato programático claro. Rodrigo Paz foi eleito mais por uma confluência de circunstâncias do que por ter angariado apoio para sua plataforma. Ele também carece de uma estrutura política mais ou menos articulada; aliás, teve que adotar o nome de um partido, o Partido Democrata Cristão (PDC), por falta de um nome próprio. Mas o PDC é apenas um nome alugado, não um partido. A plataforma eleitoral de Paz-Lara combinava elementos liberais com populistas; Ele alternava entre prometer "capitalismo para todos", como alternativa ao estatismo do MAS, e falar sobre Deus e a defesa da família. Seus eleitores ocasionais o apoiavam mais por rejeição ou medo das opções da extrema direita que competiam com ele. Essas ambiguidades explicam alguns dos problemas que ele enfrenta atualmente.
Nestes meses, também foram observados sinais de fragmentação do cenário político: coligações ocasionais e instáveis na Assembleia Legislativa, divisão em quase todos os blocos políticos, surgimento de novos líderes populistas com uma mensagem antipolítica, um notável enfraquecimento dos partidos nacionais e a ascensão de forças localistas nas eleições subnacionais (para eleger governadores e prefeitos), ou o reaparecimento do conflito social com grande capacidade de mobilização, mas desordenado, centrífugo e sem liderança centralizada.
Simultaneamente, foram iniciadas reformas econômicas para sanar os graves desequilíbrios fiscais e externos e implementar a guinada liberal. Esse processo começou com grande ímpeto com a eliminação dos subsídios aos combustíveis e o anúncio de medidas de liberalização econômica em dezembro de 2025; contudo, a agenda perdeu força ao encontrar resistência. Na prática, adotou-se uma abordagem gradualista, com algumas conquistas significativas, mas ainda enfrenta o desafio de consolidar um novo sistema cambial e um quadro de financiamento externo de médio prazo para sustentar a estabilização macroeconômica.
A essas dificuldades inerentes ao programa de reforma econômica e à construção de uma nova governança, somaram-se dois eventos imprevistos que complicaram a situação: o surgimento de um grave problema com a qualidade da gasolina – a chamada "gasolina de má qualidade" – que provocou descontentamento social, e os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, que agravaram os cenários fiscais.
Em resumo, o governo de Rodrigo Paz opera em um contexto cada vez mais difícil e enfrentará grandes desafios nos próximos meses, particularmente relacionados a uma agenda de reformas econômicas incompleta, que precisa ser implementada em um contexto de deterioração das condições políticas, queda nos índices de aprovação presidencial e possíveis novos desequilíbrios e insatisfações, além do conflito social que já se iniciou.
Num continente onde as forças de extrema-direita têm ganhado terreno, sobretudo no Cone Sul com Javier Milei e José Antonio Kast, Rodrigo Paz não se alinhou com esse bloco, embora tenha se alinhado claramente com os Estados Unidos. Qual é a posição ideológica — e geopolítica — do novo governo?
MTZ: Em consonância com os pontos levantados na seção anterior, dentro do contexto geral do discurso do governo "Bolívia para o mundo e o mundo para a Bolívia", Paz demonstra falta de clareza em seu posicionamento geopolítico. Contudo, ele expressou repetidamente sua afinidade com países democráticos liberais e um distanciamento de antigos parceiros da Bolívia, como Venezuela, Nicarágua e Cuba.
O presidente e seu círculo íntimo viajaram aos Estados Unidos para reconstruir os laços rompidos pelo partido MAS e contataram organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) para obter empréstimos e apoio internacional para enfrentar a grave crise econômica interna e atrair investimentos estrangeiros. É importante lembrar que o presidente Paz herdou um déficit fiscal de aproximadamente 10% do PIB e uma taxa de inflação anual acumulada de 18%, que já impactava o cotidiano dos cidadãos comuns. Da mesma forma, o governo buscou assistência dos EUA no combate ao narcotráfico, facilitando o retorno da DEA (Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos). A abordagem do governo no contexto regional e global é impulsionada principalmente pela necessidade urgente de resolver problemas estruturais internos.
Com relação aos países da região, foram feitas abordagens nas linhas mencionadas acima e buscou-se amenizar tensões e fortalecer acordos com países vizinhos, como a histórica disputa marítima – e mais recentemente a disputa migratória – com o Chile, no primeiro caso, ou os acordos econômicos com o Brasil, no segundo.
AO: O presidente Paz expressou publicamente uma posição "pragmática" sobre questões internacionais e geopolíticas, evitando assumir posições ideológicas fortes, ao contrário de outros líderes da região. É evidente, no entanto, que ele busca se diferenciar das orientações políticas dos governos do MAS, o que o coloca efetivamente dentro de uma estrutura programática alinhada com as posições regionais de centro-direita e direita.
Por trás de sua retórica moderada, reside uma mudança notável em um aspecto central da política externa do MAS: o restabelecimento de uma relação próxima com os Estados Unidos, tanto em termos do apoio da Bolívia às posições internacionais americanas quanto da intensificação da cooperação em questões estratégicas, como o combate interno ao narcotráfico e a exploração de terras raras e lítio. Contudo, também há indícios de um desejo de manter boas relações com a China, que continua sendo um parceiro comercial importante para a Bolívia, e um diálogo fluido tem sido mantido com o governo brasileiro.
O partido MAS passou de controlar dois terços do Parlamento para uma posição marginal, quase inexistente. Evo Morales mantém — como se viu no voto nulo nas últimas eleições presidenciais — uma influência considerável nas áreas rurais, mas encontra-se em exílio interno; figuras jovens como Andrónico Rodríguez não conseguiram ganhar força. Você vê alguma possibilidade de uma reconstituição da esquerda boliviana, ou ela retornou à fragmentação da década de 1990?
MTZ: O MAS deixou uma marca profunda após quase duas décadas no poder na Bolívia; mas, enquanto a princípio representava a aspiração histórica de inclusão social dos setores indígenas e camponeses, após alguns anos não só se envolveu em atos de corrupção e perpetuou seu domínio no poder, ultrapassando todas as linhas institucionais e de legitimidade, como também abandonou as demandas e os direitos dos povos indígenas. Esse comportamento provocou um profundo desencanto entre a base social popular com seus principais líderes. Nas eleições gerais de 2025, participou dividido em pelo menos três opções políticas (a de Luis Arce, a de Andrónico Rodríguez e a de Evo Morales, que pediu a anulação da votação), e nenhuma conseguiu restaurar a unidade ou a força do chamado "instrumento político" das organizações sociais; no caso das eleições subnacionais de 2026, mal conseguiu vencer em 12 dos 335 municípios e em um dos nove governos estaduais, enquanto antes havia conquistado dois terços das prefeituras e vários governos departamentais.
A força política do movimento MAS persiste em torno da figura do ex-presidente Evo Morales, que se encontra em isolamento na região de Chapare, seu reduto, e está bastante fragilizado pelos processos judiciais que enfrenta por tráfico de pessoas, sob a acusação de ter mantido um relacionamento com uma menor. Sua influência política e eleitoral se limita basicamente ao departamento de Cochabamba, de onde busca recuperar o protagonismo antagonizando o governo Paz por meio da mobilização de sua base.
Mas para onde migraram os votos do MAS? Nos resultados das eleições gerais, a geografia eleitoral que apoiava o MAS deslocou-se para a candidatura de Paz-Lara, enquanto nas eleições subnacionais os votos se dispersaram entre siglas partidárias recém-criadas e grupos de cidadãos locais com identidades próprias.
Contudo, o ressurgimento dos movimentos populares parece estar ocorrendo à margem da arena política institucional. Os protestos sociais contra o governo Paz têm, sem dúvida, uma dimensão política, embora lhes falte uma liderança unificada e uma visão política clara: por exemplo, a exigência da renúncia do presidente Paz não é acompanhada por uma proposta para o futuro, como acontecia, por exemplo, no início dos anos 2000.
AO: O golpe político sofrido pela esquerda nas eleições de 2025 foi muito forte e seus efeitos ainda são sentidos. Apesar de uma relativa recuperação do movimento de Evo Morales nas eleições regionais, com a eleição de Leonardo Loza, um colaborador próximo de Morales, como governador de Cochabamba — o terceiro maior departamento do país —, o cenário é de fragmentação, falta de unidade, desconfiança mútua e acusações.
As eleições subnacionais deste ano revelaram uma fragmentação dos votos do MAS entre dezenas de forças locais, um apoio reduzido a Evo Morales e um número significativo de votos nulos e em branco. Contudo, ao mesmo tempo, nenhum outro líder nacional de esquerda conseguiu articular uma força relevante; nem mesmo Andrónico Rodríguez, que tentou em 2025 ser o candidato da unidade e renovação do MAS. Apesar dessa fragilidade significativa, um grupo substancial de eleitores, em torno de 35-40%, continua a apoiar a esquerda de diversas maneiras.
Dentro das organizações sociais, a divisão e a fragmentação são a norma. Embora a COB tenha conseguido formar uma coalizão no início do ano para confrontar as medidas econômicas iniciais do governo, bloqueando algumas delas, ainda está longe de ser uma força unificadora para todas as organizações populares. Os sindicatos camponeses, tradicionalmente poderosos, também não conseguiram se reunificar após as divisões que sofreram durante as lutas internas no MAS, embora alguns estejam se reorganizando em certas áreas, como é o caso da Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses Tupak Katari de La Paz, que tem sido a principal força por trás dos bloqueios de estradas que se espalharam por todo o departamento em agosto.
Uma análise do governo revela uma maior presença das elites tradicionais (embora estas não estivessem totalmente ausentes dos governos do MAS) e uma menor presença de camponeses e indígenas… O vice-presidente Edmand Lara, que atraiu votos populares durante a campanha, principalmente do MAS, está agora fora do círculo de tomada de decisões. Como você avalia sociologicamente esse novo bloco de poder e que estabilidade você acredita que ele possui?
MTZ : Não creio que possamos falar da formação de um novo bloco de poder. É verdade que a chegada de Paz à Presidência significou a substituição de setores sociais corporativos, como a Confederação Unificada de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), a Confederação de Comunidades Interculturais, as federações de produtores de coca dos Trópicos de Cochabamba e a Confederação de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa, que apoiaram o MAS por duas décadas. Hoje, governa uma aliança precária entre grupos e indivíduos que ocupam cargos de poder público, carentes de uma estrutura institucional sólida e de uma base social própria.
As elites empresariais tradicionais, especialmente na região de Santa Cruz, que historicamente negociaram com o poder político e/ou participaram dele — e que inclusive desfrutaram de privilégios durante os governos do MAS — celebraram a chegada de Paz, confiantes no esgotamento do modelo estatista do MAS e no anúncio de políticas favoráveis ao livre mercado e ao investimento privado. No entanto, diante das posições vacilantes do governo, elas estão em alerta máximo e preparadas para agir em defesa de seus interesses. É o caso dos agronegócios, exportadores e outros setores empresariais do país, juntamente com o Comitê Pró-Santa Cruz, a mais alta autoridade cívica da região, que, em uma recente Assembleia de moradores de Santa Cruz, exigiu que o governo interviesse nos bloqueios com reforço policial, implementasse a medida constitucional de "estado de emergência" para controlar a violência e restabelecesse o fluxo de tráfego. Essa demanda foi ecoada por setores como transporte, serviços e comércio em outras cidades. Dessa forma, o governo corre o risco de ficar pressionado entre as demandas dos setores social e empresarial.
Entretanto, setores da classe trabalhadora, que inicialmente deram seu apoio eleitoral a Paz, agora lideram uma crescente onda de conflitos devido ao descontentamento e ao acúmulo de promessas não cumpridas ou apenas parcialmente cumpridas por parte do governo. Claramente, esses setores não constituem sua base social leal; seu apoio eleitoral foi condicionado à resolução dos graves problemas econômicos que assolam o país há vários anos.
Nas mobilizações de protesto social que têm florescido nestes meses de governo, sobrepõem-se reivindicações concretas e legítimas – como a escassez e a má qualidade dos combustíveis, o aumento dos preços dos produtos básicos e a defesa das terras, além da reivindicação de aumentos salariais, entre outras – mas estas coincidem com os interesses políticos dos setores que foram afastados do poder.
Na verdade, o movimento popular boliviano é amplo e diverso: abrange trabalhadores assalariados, autônomos, membros de cooperativas de mineração, indígenas e camponeses, entre muitos outros, e não se limita de forma alguma àqueles que faziam parte da base social do MAS. Todos os setores esperam soluções estruturais para a crise.
Em resumo, o governo é frágil porque não possui uma base social própria e, portanto, necessita de acordos substanciais e pactos políticos, baseados em uma linha programática mais clara.
AO: Num país polarizado durante muitos anos entre o partido MAS, cuja base social era principalmente rural e indígena, e as forças de oposição de direita que representavam as classes média e alta urbanas, Paz tentou posicionar-se no centro durante as eleições. O seu conceito de "capitalismo para todos" conferiu ao seu liberalismo um verniz populista, enquanto a sua aliança com Edmand Lara lhe deu um tom populista. Tentou apresentar-se como alguém que reconciliava e protegia o povo contra as propostas da extrema-direita.
Contudo, desde o início de seu governo, o tom de seus discursos e até mesmo sua imagem mais elitista contrastavam fortemente com o que ele havia projetado durante as eleições. Seu gabinete e a maioria de seus novos funcionários vêm da classe média ou são representantes de associações empresariais; quase não há presença de indígenas ou pessoas de origem operária. A isso se soma o desentendimento amplamente divulgado com o vice-presidente Lara.
Embora fosse previsível que qualquer novo governo de oposição ao MAS alterasse a composição sociológica do bloco governante que sustentou o partido por duas décadas, o que impressionou foi a força desse processo, considerando que Paz havia sido eleito principalmente por eleitores rurais e da classe trabalhadora. Esse sistema rapidamente se esgotou e tem poucas chances de permanecer inalterado se o governo deseja reconstruir a confiança e consolidar a governabilidade. Os conflitos sociais demonstram que as organizações sociais e os sindicatos exercem um poder considerável que não pode ser ignorado, e uma profunda desilusão surgiu entre a classe trabalhadora, que transcende as razões socioeconômicas e deriva das demandas por reconhecimento e participação no poder. Essencialmente, eles sentem que perderam o poder que detinham sob o MAS e que Paz se recusa a reconhecer que venceu graças ao seu apoio. Essa mistura de indignação econômica e moral é potencialmente muito perigosa para um governo que ainda não encontrou seu rumo. Talvez sua relativa força resida na falta de alternativas. Ou talvez a alternativa seja a extrema-direita.
Que cenários se desenrolam no futuro? Há riscos de ingovernabilidade? De que coligação Paz precisaria para concluir seu mandato?
MTZ: Na realidade, para o governo Paz, consolidar alianças e pactos é imprescindível para a sua própria sobrevivência. Para começar, precisa fortalecer a sua coligação interna para reduzir as tensões evidentes no poder executivo, dado que os membros do gabinete provêm de origens diversas. Alguns são do círculo íntimo do presidente, enquanto outros estão ligados ao antigo Movimento Revolucionário de Esquerda (MIR, partido do ex-presidente Jaime Paz Zamora, cujo nome pode gerar confusão quanto à sua ideologia) [2], ou ao ex-candidato presidencial Samuel Doria Medina — assim como o atual Ministro da Presidência, José Luis Lupo, entre outros profissionais e tecnocratas convidados a integrar o governo. Isso sem sequer considerar a já mencionada ida para a oposição por parte do Vice-Presidente. Além disso, é fundamental fomentar acordos políticos com os demais partidos com representação parlamentar, ou ao menos com alguns deles, para facilitar a aprovação das propostas de lei e emendas constitucionais; mas também com as autoridades subnacionais recém-eleitas, com as quais há pendências, como a distribuição de recursos entre o governo central e as regiões.
Além disso, dada a natureza altamente politizada da sociedade boliviana, a governança também reside nas ruas, portanto o governo precisa negociar com organizações populares, priorizando as necessidades da população. Praticamente desde as primeiras semanas, o governo tem lidado com cenários de conflito de alta e baixa intensidade; hoje, há um sentimento generalizado de crescente descontentamento que põe em risco a governabilidade e o futuro imediato da administração.
AO: Os problemas de governança já eram particularmente desafiadores desde o início do novo governo. O presidente estava praticamente obrigado a ser uma espécie de grande arquiteto do equilíbrio e de uma nova forma de governança com maior pluralismo político e social. Essa não era uma tarefa fácil sem um partido ou coalizão sólida em que se apoiar. Embora tenha havido progresso na agenda de reformas econômicas, o maior déficit é político e relacionado à governança, a ponto de Paz estar enfrentando, logo no início, uma onda de conflitos sociais e crescente descontentamento que pode corroer seriamente sua estabilidade.
Por ora, a maior vantagem do presidente é a inexistência de uma alternativa política ao seu governo, apesar dos seus problemas. Isso pode lhe conferir um certo grau de estabilidade precária, mas levanta dúvidas sobre sua capacidade de gerir e implementar com sucesso uma ambiciosa agenda de reformas tanto na esfera econômica quanto na institucional.
Consequentemente, seu maior desafio político está ligado à reformulação da coalizão sociopolítica que mantém desde que chegou ao poder e à capacidade de conceber uma forma mais eficiente de funcionamento político interno. Há uma demanda de diversos setores por um pacto formal entre os principais partidos de direita e as autoridades locais eleitas, que poderia obter uma ampla maioria parlamentar. No entanto, existem sérias dúvidas sobre se esse arranjo seria suficiente, visto que, na prática, não contempla nem representa uma parcela significativa da sociedade.
Portanto, surge a necessidade de ampliar essa coalizão, incorporando os interesses, a liderança e as estruturas de poder das diversas comunidades populares, camponesas e indígenas da Bolívia. Esse desafio é complexo, não apenas em termos da disposição e da capacidade do governo de considerar e conciliar esses interesses com os dos setores empresariais ou da classe média, mas também em termos de fazê-lo em um contexto de significativa fragmentação e enfraquecimento de todas as estruturas representativas tradicionais.
Notas
[1] A Lei 1720 permitia que pequenas propriedades rurais (que eram legalmente isentas de confisco) fossem convertidas voluntariamente em propriedades de tamanho médio, com o objetivo declarado de possibilitar aos agricultores hipotecá-las para obter crédito. Os críticos consideraram-na inconstitucional e um mecanismo para que grandes empresas agropecuárias concentrassem terras. Ela desencadeou uma enorme marcha indígena e foi revogada poucas semanas após sua promulgação.
[2] O MIR foi fundado em 1971 e refletia o clima de radicalização daqueles anos. Fez parte da coligação Unidade Democrática e Popular, que governou a Bolívia entre 1982 e 1985 e levou Jaime Paz Zamora ao poder em 1989. Durante esses anos, o partido abandonou sua filiação revolucionária de esquerda, tornando-se muito pragmático e chegando a negociar com o partido conservador liderado pelo ex-ditador Hugo Banzer, Ação Democrática Nacionalista (ADN), para garantir a maioria e conquistar a presidência.
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