22 Mai 2026
"Ativista do direito de mentir, [Flávio Bolsonaro] luta contra o direito universal de não acreditar", escreve Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional da USP, doutor em direito e ciência política e membro do Observatório Pesquisa, Ciência e Liberdade (SBPC), em artigo publicado por Folha de S.Paulo, e reproduzida no Facebook de André Vallias, 21-05-2026.
Eis o artigo.
Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do pai. Trilha o curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade 01. Amor filial supera o paterno.
Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".
Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato a versão moderada da família.
Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.
"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".
Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.
Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".
Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.
Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.
Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.
Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.
Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.
Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"
Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".
Quer novo emprego.
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