12 Setembro 2026
"Em meio às incertezas da vida, discernir é aprender a reconhecer a vontade de Deus, desapegar-se das próprias certezas e caminhar com confiança pelos caminhos que Ele revela", escreve Maura Aranguren, em artigo publicado por Global Catholic Reporter, 11-09-2026.
María Maura Aranguren é membro da Congregação de Hermanas de Nossa Senhora da Consolação. Possui licenciatura em Educação com menção em Ciências Religiosas. Atualmente vive na comunidade do Colégio Nuestra Señora del Valle, em Porlamar, onde coordena a pastoral escolar.
Eis o artigo.
Num mundo cheio de ruído, distrações e escolhas constantes, como saber qual caminho seguir? Discernimento não é simplesmente escolher entre o bem e o mal; é a capacidade espiritual de reconhecer a vontade de Deus revelada nas situações do dia a dia que nos convidam a conformar-nos à sua verdade. Para aqueles que consagraram suas vidas ao Senhor, o discernimento não é um ato administrativo a ser aplicado quando queremos resolver conflitos. É um estado permanente de escuta, um exercício místico onde a liberdade humana encontra a vontade divina.
No contexto atual da vida consagrada — frequentemente caracterizada pelo ativismo pastoral, sobrecarga de responsabilidades, ansiedade, solidão e crises vocacionais — dedicar tempo ao discernimento torna-se uma necessidade profética e insubstituível. Nesse processo, a experiência de Abraão, nosso pai na fé, certamente pode nos auxiliar. Um homem de Deus que se apresenta a nós como o arquétipo vivo da alma consagrada — alguém que aprende a decifrar os sussurros de Deus no crepúsculo da fé e que aprende a obedecer com amor.
Abraão aprende que discernimento significa abrir mão das próprias certezas: "Saia da sua terra, da sua pátria e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei" (Gênesis 12,1).
Ele rompe radicalmente com tudo o que prende seu coração: o ego, os apegos desordenados e o desejo de controle. O chamado divino irrompe na vida cotidiana de Ur e exige um desapego total de tudo o que lhe dava identidade e segurança.
Para nós hoje, esta passagem ilumina o primeiro limiar do discernimento autêntico: a capacidade de desapegar. Nosso discernimento não floresce no conforto de nossas próprias certezas, em apegos desordenados ou em um sutil apego a estruturas pastorais que já não comunicam vida, mas apenas perpetuam a rotina. Ele floresce quando nos abrimos ao novo — seja no familiar ou no desconhecido — às decisões relativas ao trabalho apostólico, a uma mudança de comunidade, a uma nova missão que nos é oferecida e à organização de nossas vidas, que às vezes estão desordenadas porque estamos apegados àquilo que nos distancia de Deus.
Discernir à luz de Abraão implica um êxodo constante do coração. Deus não mostra a Abraão o mapa completo nem o itinerário detalhado da jornada. Ele apenas indica o primeiro passo: deixar sua terra natal.
Da mesma forma, na vida comunitária ou pessoal, o Senhor muitas vezes nos pede que caminhemos em meio à incerteza do dia a dia, confiando unicamente que aquele que nos chamou no início da nossa jornada é fiel e cumprirá a sua promessa. O discernimento amadurece precisamente aí, em plena luz do dia, quando deixamos de tentar controlar o futuro e nos permitimos ser guiados pela suave brisa do Espírito Santo, sabendo que a única verdadeira pátria de um coração consagrado é a vontade do Pai.
Abraão aprende que discernimento é confiar na palavra de Deus, contra toda esperança: "Olha para o céu e conta as estrelas, se é que podes contá-las. Assim será a tua descendência" (Gênesis 15,5).
Abraão experimentou em primeira mão o fardo da velhice e a esterilidade de Sara. A lógica humana, o senso comum e o pragmatismo de sua época o levaram, compreensivelmente, à resignação, à queixa ou à busca de soluções puramente pessoais.
No entanto, no silêncio da noite, Deus o tira dos confins estreitos de sua tenda e o convida a ampliar o olhar, a erguer os olhos e a contemplar o infinito com o olhar de um sonhador. Deus o convida a expandir a tenda, a evitar permanecer preso a uma vida perdida na rotina e que abandona a novidade simplesmente por acreditar já ter conquistado tudo.
Abraão recebe um convite: confiar e caminhar. Para Deus não há limite de idade. Em qualquer momento de nossas vidas, podemos experimentar esse "ir em frente", esse compromisso com a vida de diversas maneiras.
Muitas de nossas comunidades religiosas hoje podem estar sentindo o peso da "seca" espiritual, o envelhecimento das estruturas e uma aparente falta de frutificação apostólica em suas frentes missionárias. O desânimo e o cansaço podem turvar nossa visão, fazendo-nos enxergar apenas o quão poucos somos e que as vocações não estão chegando.
Nesse cenário, discernimento significa aprender a olhar para o céu quando a terra parece árida. Não se trata de um otimismo ingênuo ou alienante, mas da esperança teológica que nos permite lembrar o propósito de nossa vocação e missão.
Abraão aprende que discernimento significa oferecer seus planos: "Toma teu filho, teu único filho, a quem amas — Isaque... e oferece-o ali em holocausto" (Gênesis 22,2).
Este texto bíblico nos leva ao ápice teológico e espiritual do discernimento abraâmico. Isaque não era apenas um filho muito amado; ele era a personificação física da promessa de Deus, o milagre concedido após décadas de espera e sofrimento. Ao pedir que ele oferecesse Isaque em sacrifício, Deus purificava a fé de seu servo ao máximo.
A tentação mais sutil na vida consagrada é o apego idólatra aos dons de Deus. Muitas vezes corremos o risco de nos apaixonarmos perdidamente por nossos ministérios — obras educacionais, hospitais, prestígio pastoral, projetos comunitários — enquanto nos esquecemos da fonte que nos chamou.
Um discernimento profundo e maduro exige uma purificação dolorosa de nossas intenções. Envolve estar disposto a colocar no altar aquilo que consideramos nossa maior conquista — nosso "Isaac" pessoal ou institucional. Quando Abraão ergue a faca, ele demonstra com dolorosa clareza que ama mais o doador do que o presente recebido.
O discernimento atinge sua plenitude quando abrimos mão do controle sobre nossas obras e nossos projetos e os entregamos ao Senhor, reconhecendo que os meios vêm e vão, mas a aliança permanece firme.
O que o Senhor nos pede hoje? Do que devo abrir mão? A que devo entregar?
Lembremo-nos de que o discernimento não é um evento isolado que ocorre apenas ao tomar decisões importantes; ele deve se tornar a pulsação contínua de uma vida totalmente entregue a Deus — uma vida que busca ser moldada e mais profundamente unida a Ele, e que é completamente apaixonada pela busca daquilo para o qual foi chamada.
Sentimo-nos compelidos a cultivar a ousadia evangélica em resposta ao chamado para caminhar em sinodalidade, e essa renovação exige que abandonemos o egocentrismo e o medo paralisante da mudança. O discernimento não busca nossa autorrealização, mas sim a plenitude do amor divino em nossa própria fragilidade.
Somos convidados a redescobrir o frescor e a força profética que surgem do sentimento de consagração e de sermos comunidades peregrinas capazes de caminhar com confiança pela noite da fé, sustentados unicamente pela certeza absoluta da palavra prometida pelo Senhor.
Leia mais
- Com Deus, Abraão e Lázaro; o rico, não (Lc 16,19-31). Artigo de Frei Gilvander Moreira
- A tentação de olhar para Abraão e não ver que também existe Sara. Artigo de Enzo Bianchi
- Abraão e Sara: genitores de um povo a caminho
- Abraão, Sara e a conjuntura atual. Artigo de Pedro A. Ribeiro de Oliveira
- Eva, o “tu” que dialoga com Abraão. Artigo de Adriana Valerio
- Abraão e o Êxodo em nossos dias. Entrevista com Gabriele Vacis
- Abraão, Sara e a conjuntura atual. Artigo de Pedro A. Ribeiro de Oliveira
- Fé de Abraão, Fé Cristã
- Abraham avinu - Abraão, nosso pai. Artigo de Gianfranco Di Segni
- A submissão de Abraão é escravidão, não fé, mas não por isso eu sou um antissemita. Artigo de Vito Mancuso