Eva, o “tu” que dialoga com Abraão. Artigo de Adriana Valerio

Foto: Pxhere

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Abril 2025

"Entrar nos territórios inexplorados do encontro entre mulher e homem significa entrar em contato com experiências não apenas de dor e marginalização, mas também de amizade e trocas enriquecedoras de crescimento mútuo", escreve Adriana Valerio em artigo publicado por “Avvenire”, 25-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini

Adriana Valerio é historiadora e teóloga, professora de História do Cristianismo e das Igrejas da Universidade de Nápoles Federico II, autora de obras como Il potere dele donne nella Chiesa [O poder das mulheres na Igreja] (Laterza, 2016) e Maria di Nazaret: storia, tradizioni, dogmi [Maria de Nazaré: história, tradições, dogmas] (Il Mulino, 2017).

Eis o artigo. 

Éden está o homem, nascido do pó (Adão significa terroso) e animado pelo sopro vital de Deus (a Ruah). Mas o homem está sozinho e não se reconhece nos animais: ele precisa de um ser vivo com quem possa entrar em comunhão. E eis que, com a plasticidade dos contos antigos, toma forma a descrição do nascimento de Eva, cujo nome significa aquela que dá à luz a vida. Se, por um lado, o texto sagrado declara a bondade de toda a criação, por outro, a solidão do homem é apresentada como a única condição negativa. Eis, então, que Deus pensa em um tu que possa entrar em diálogo com Adão, em um ser humano que viva em relação e dá vida a uma mulher, “uma ajuda que lhe corresponda”.

Adriana ValerioLe radici del mondo, publicado pela Mondadori na série “Le Scie” (páginas 216, euro 21,00). O livro inclui os estudos e as pesquisas da autora sobre a Bíblia, usada muitas vezes e por muito tempo para definir a identidade masculina e feminina, confinando as mulheres a papéis rígidos estabelecidos por modelos hierárquicos e patriarcais. Papéis de suposta inferioridade e subalternidade desmentidos, entretanto, pelas numerosas figuras femininas na Sagrada Escritura e por interpretações mais livres capazes de se desvincular de antigos estereótipos culturais.

Em uma leitura superficial, pode parecer que essa criação seja funcional para cobrir o vazio do homem. A razão da existência da mulher é fazer companhia a ele? Para salvá-lo e libertá-lo da solidão?

Sem dúvida, a história da interpretação considera a existência da mulher como secundária à do homem, com um papel complementar. O termo 'ezer ('ajuda') tem sido entendido como o apoio feminino que torna a vida do homem menos pesada, como se a mulher devesse ser uma “cuidadora qualificada” para socorrer o homem em suas necessidades. No entanto, esse termo no texto sagrado refere-se a pessoas iguais e nunca subordinadas. De fato, é atribuído ao próprio Deus, quando ele é invocado como a ajuda que sustenta (“Eis que Deus é o meu auxílio, o Senhor me sustenta”, Sl 54,4) ou quando ele intervém em momentos de necessidade: “A ti, Senhor, clamei, ao Senhor pedi misericórdia” (Sl 30,8). Não é forte, portanto, aquele que precisa de ajuda, mas aquele que é capaz de emprestá-la: “Pois ele liberta os pobres que pedem socorro, os oprimidos que não têm quem os ajude” (Sl 72,12).

Eva, então, é o tu que desperta o homem de seu torpor solitário, é aquele cara a cara que permite que eles se percebam em sua recíproca identidade, aquela alteridade que está “diante” para gerar diálogo e confronto: ambos se ajudam mutuamente. Isso foi bem entendido pela jornalista e escritora Elisa Salerno (1873-1957), sensível às ansiedades expressas pelos movimentos femininos do início do século XX, que corajosamente enfrentou uma releitura do texto sagrado para recuperar a real figura bíblica da mulher, deturpada pela “interpretação ruim e malévola dos homens da igreja”. Em Per la riabilitazione della donna (1917), Salerno expõe as razões para a igualdade de natureza e dignidade entre Adão e Eva, destacando a arte empregada por Deus na moldagem da mulher, “a obra-prima de suas mãos”. Portanto, a ajuda “que fosse a ele semelhante” deve ser entendida, para a escritora, não em um sentido material, mas em um sentido espiritual: a tarefa da mulher é acompanhar o homem na busca por Deus. Nesse relato do Gênesis, a diferenciação sexual não tem como objetivo a procriação, como na primeira narrativa (“sede fecundos e multiplicai-vos”, Gn 1,28), mas sim estar juntos.

Deus, a fim de superar a solidão e o isolamento, cria distinguindo e comparando: a luz das trevas, a terra das águas, e assim por diante, e tudo é “bom”. Assim, ser companheiros pode ser uma marca da jornada comum pela vida. Aqui, agora, juntos é a relação para o qual o significado de estar no mundo é jogado: estar perto um do outro nos momentos dolorosos e alegres da existência, no cuidado, na resposta à necessidade do outro/a. Jesus de Nazaré não se tornou presença e companhia para ajudar as pessoas a serem cuidadas, ouvidas, acolhidas, no encontrar-se cotidiano, conversando, partindo o pão, compartilhando?

Não estavam as mulheres justamente na companhia do Mestre quando, rompendo o círculo de proteção doméstica, seguiram-no pelas estradas da Galileia (Lc 8,1-3), quando estavam próximas nos caminhos da fé, nos momentos das necessidades materiais, nas situações de dor, presentes até a morte, aos pés da cruz, primeiras testemunhas da ressurreição e enviadas em ajuda aos discípulos assustados? E não foi o apóstolo Paulo apoiado por mulheres, companheiras na jornada de uma vida compartilhada e ativas no empenho de proclamar o Evangelho?

Pensemos na diácona Febe, a guia respeitada da comunidade de Cencreia, nos arredores de Corinto; na missionária Priscila, que, com seu marido Áquila, juntou-se a Paulo na missão em Éfeso, providenciando a casa e desempenhando um importante trabalho de catequese na nascente igreja doméstica; à apóstola Júnia, enviada em missão com não poucas penas e sofrimentos; às evangelizadoras Trifena, Trifosa e Pérside, “que trabalharam para o Senhor”; a Maria, “que muito trabalhou”; à mãe de Rufo, que Paulo considera como sua mãe; a Pátrobas, Júlia, irmã de Nereu e Olimpas (Rm 16,1-17). A elas se somam as missionárias de Filipos, Evódia e Síntique, que com Paulo “lutaram pelo evangelho” (Fp 4,2-3); as benfeitoras Áfia (Fm 1 e s.), que o hospedou em Colossos, e Ninfa, que o recebeu na casa de Laodiceia para celebrar a Ceia do Senhor (Cl 4,15). Tantas mulheres prestativas, corresponsáveis pela missão evangelizadora das primeiras comunidades cristãs.

O texto sagrado retrata a vida em todas as suas facetas humanas e, quando ao falar da história de um povo, é impensável ignorar o envolvimento de todos os seus componentes - mulheres, homens, jovens, idosos - atravessados por toda a gama de sentimentos. E, é claro, não conta histórias de heróis solitários, pois enfatiza em cada uma de suas páginas a estrutura fundamental da existência: estar em relação. A vida é compartilhada com os outros seres humanos, com a criação, com Deus. Todos estão inseridos em redes de experiências, sentimentos, aspirações e ideais. A história do cristianismo é também, como todas as experiências humanas, uma história de gênero, um entrelaçamento de relações complexas nas quais os códigos do masculino e do feminino interagem, se cruzam e se delineiam no desenrolar-se de uma vida de coparticipação em espaços de troca e enriquecimento mútuos, em um panorama variegado de sensibilidades e abordagens interpretativas.

Entrar nos territórios inexplorados do encontro entre mulher e homem significa entrar em contato com experiências não apenas de dor e marginalização, mas também de amizade e trocas enriquecedoras de crescimento mútuo. Muitas vezes, mulheres e membros do clero ou da vida monástica percorrem juntos o caminho da vida, reconhecendo e aceitando uns aos outros tanto em suas diferenças quanto em sua igual dignidade, em uma contínua referência de necessidades e ideais, de exigências afetivas e ansiedades espirituais.

Leia mais