Nós, feministas cristãs. Artigo de Grazia Villa

(Foto: Allen Taylor | Unsplash)

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28 Setembro 2023

"Desde a iniciação com o Grupo Promozione Donna, de Milão, ao longo caminho atual com os grupos de mulheres das comunidades de base e as muitas outras, passando pelo Sínodo Ecumênico de Barcelona em 2003 e pela relação com a Coordenação das Teólogas Italianas, até o encontro com as realidades mais jovens: Donne per la ChiesaNoi siamo il cambiamento, Osservatorio interreligioso sulla violenza contro le donne (Mulheres para a Igreja. Nós somos a mudança. Observatório inter-religioso sobre a violência contra as mulheres, em tradução livre), chegando à estimulante construção de uma rede de mulheres e homens no percurso sinodal da Igreja italiana e universal, na qual “sem pedir licença” tentamos oferecer a nossa contribuição como feministas para uma reforma da Igreja", escreve Grazia Villa, pesquisadora e ativista feminista, em artigo publicado por Donne Chiesa Mondo, setembro/2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em 1924, Elisa Salerno, modernista católica, à pergunta: “Quantos destinos existem para o feminismo? respondia: Só existe um feminismo verdadeiro: o feminismo cristão”.

Em 2018, bell hooks, ativista feminista afro-americana, afirmava que apenas “uma visão feminista da realização espiritual é naturalmente o fundamento de uma autêntica vida espiritual". Duas mulheres, duas feministas laicas radicais, entre elas um oceano e um século de história, de lutas, de movimentos das mulheres, de “feminismo cristão”.

Um feminismo cristão afirmado na liberdade, sem reticências servis, não uma contradição em termos, uma questão marginal a ser tratada com prudência, uma realidade a ser confinada entre as tantas periferias existenciais.

São muitas as narrativas sobre estes últimos cem anos de vida e de história de tantas mulheres crentes, rebeldes, visionárias, hereges, pensadoras atuantes, praticantes de relações, tecelãs de redes, que viveram e vivem a experiência desse feminismo para todas e para todos.

Sem qualquer óbvia pretensão de falar "em nome de", refiro-me aqui às experiências com que cruzei na densa rede de grupos, associações, relações duais que inerva e anima o movimento das mulheres, não só católicas, também na Itália. Desde a iniciação com o Grupo Promozione Donna de Milão, ao longo caminho atual com os grupos de mulheres das comunidades de base e as muitas outras, passando pelo Sínodo Ecumênico de Barcelona em 2003 e pela relação com a Coordenação das teólogas italianas, até o encontro com as realidades mais jovens: Donne per la Chiesa, Noi siamo il cambiamento, Osservatorio interreligioso sulla violenza contro le donne, chegando à estimulante construção de uma Rede de mulheres e homens no percurso sinodal da Igreja italiana e universal, na qual “sem pedir licença” tentamos oferecer a nossa contribuição como feministas para uma reforma da Igreja.

Na realidade, nas representações oficiais, especialmente da Igreja Católica, permanece a tentativa de relegar essa contribuição às margens da vida eclesial num confinamento elitista, muitas vezes até mesmo com uma deslegitimação autoritária. Certamente isso é um resquício de uma expressão das derivas de viés patriarcal que afligem os ambientes eclesiais ainda teimosamente afeitos ao clericalismo e à misoginia, mas acredito que também é importante nos perguntarmos sobre o nosso posicionamento como feministas cristãs.

Se, de fato, é verdade que o patriarcado nos colocou à margem da história e da Igreja, nós escolhemos habitar aquele lugar como lugar de resistência, de liberdade e de criatividade, um espaço inclusivo em que reencontrar a nós mesmas, mas ao mesmo tempo tentamos redefini-lo, para não permanecer emaranhadas dentro do binômio margem/centro, uma margem na qual ficar separadas ou um centro de tomada de decisão a conquistar, desvencilhando-nos hoje até do fascinante binômio poliedro/periferia, interessante para questões de justiça, ecologia, equidade, perigoso se assumido como possível metáfora de uma colocação do feminismo. A força feminina não vem nem de se cristalizar nas margens, nem de se colocar no centro (cf. a filósofa italiana Chiara Zamboni), mas de se mover ao longo de uma fronteira móvel, uma fronteira como o horizonte que acompanha o mar, uma fronteira que nos permite estar mais atentas para acolher as diferenças entre as duas “margens”, para não nos comprometermos com apenas um lado e nos tornar um lugar aberto de referência para outras/os (cf. a teóloga religiosa espanhola Mercedes Navarro Puerto). Uma orla onde o ritmo é dado pela água que avança e recua, mutável conforme muda o vento, mas também um limiar a ser transposto para ir a um alhures, até mesmo além da fronteira do campo onde o Deus fala, para sair do espaço em que havia sido confinada autoritariamente a nossa relação com o divino (cf. a pastora batista Elizabeth Green).

O que significou ser mulheres no limiar do divino e colocar “o deus patriarcal à margem”? Que vazio criou, que arcabouços desmontou, que faixas de futuro abriu para os nossos pertencimentos ou não-pertencimentos, também em relação à Igreja? Para algumas, viver fora dos espaços institucionais foi uma oportunidade de despertar e de tomada de consciência que permite, sem esperar ser autorizadas de cima para mudar, tornar-se “ministras de profecia” também dentro da igreja, para reescrever seus cenários com o aporte de autoridade e da liberdade feminina. Para outras, a busca continua para encontrar sinais, gestos e palavras “encarnadas”, também por meio de uma teologia corporal e de novas liturgias, para habitar o vazio, para desvendar e falar do divino, por meio de uma ministerialidade desordenada. Para muitas tratou-se de praticar aquele vaivém das mulheres, aquele nomadismo do dentro-fora que permite cruzar as fronteiras e dissolver as margens, até mesmo aquelas de uma Igreja que podemos ter ajudado a transformar em multicêntrica, assimétrica e… Madalena! Para todas é uma questão de fidelidade ao duplo sim ao cristianismo e ao feminismo.

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