“Teremos que construir um judaísmo diferente”. Entrevista com Arielle Angel

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12 Setembro 2026

Arielle Angel nasceu em 1984 e cresceu em Miami. Neta de sobreviventes do Holocausto, recebeu uma educação sionista desde muito jovem, que incluía as tradicionais viagens à Polônia e a Israel. A mudança veio em 2014, com a invasão israelense de Gaza naquele ano. “A história que me contavam – as Forças de Defesa de Israel como o exército mais moral do mundo e a relação da sociedade israelense com a militarização – simplesmente deixou de fazer sentido diante de um número tão grande de vítimas civis. Lembro-me de ter lido um artigo no Times sobre israelenses carregando um sofá para uma colina com vista para Gaza para comemorar enquanto as bombas caíam. E a famosa imagem das crianças na praia, praticamente decapitadas, me afetou profundamente. Aquilo me destruiu”, disse à New Left Review há algum tempo. Em 2018, participou do relançamento da Jewish Currents, que passou de uma pequena revista quase esquecida da esquerda judaica para uma publicação com mais de um milhão de leitores por ano.

A entrevista é de Francisco Claramunt, publicada por Brecha, 11-09-2026. A tradução é do Cepat.

A Jewish Currents é a expressão intelectual de um fenômeno mais amplo. Organizações como Jewish Voice for Peace e IfNotNow cresceram em poucos anos, reunindo dezenas de milhares de jovens judeus que se mobilizam para exigir o fim das relações entre os Estados Unidos e Israel. Uma pesquisa recente revelou que apenas 37% dos judeus estadunidenses se consideram sionistas e que, entre os jovens judeus, os sionistas representam pouco mais de um terço. O prefeito antissionista da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, recebeu massivo apoio eleitoral da comunidade judaica, e candidatos judeus antissionistas venceram nas primárias democratas em junho.

Eis a entrevista

O que Israel e o sionismo significaram para a sua identidade como judia?

Minha identidade como judia esteve intrinsecamente ligada à minha identidade sionista durante a maior parte da minha vida. A guerra de Gaza de 2014 destruiu isso. Tive que me redescobrir como judia, mas como judia antissionista. Isso envolveu muito luto e romper com o que eu pensava saber sobre mim mesmo. Talvez para alguns dos jovens da Geração Z que estão na faculdade agora seja um pouco mais fácil, porque eles têm uma comunidade ao seu redor que vê o que eles veem. Mas quando eu estava na faculdade, não havia muitos exemplos de judaísmo antissionista. A Jewish Currents não existia. Então, envolveu renegociar comigo mesma quem eu pensava ser.

Dito isso, tenho uma identidade judaica muito forte. Há pessoas que, ao começarem a questionar o sionismo, sentem a necessidade de rejeitar o judaísmo. Para mim, essa não é uma opção; sinto que preciso encontrar uma maneira de viver essa identidade. E parte disso é dedicar minha vida a criar, junto com outros, um judaísmo fora do sionismo.

Em um de seus artigos, você menciona como existem agora importantes movimentos judaicos antissionistas nos Estados Unidos, mas ainda é difícil desenvolver uma vida judaica educacional, religiosa e cultural fora do sionismo. Como esse processo está se desenrolando?

Muito lentamente. Somos muito mais numerosos do que os recursos institucionais disponíveis. Não existe nada nos Estados Unidos hoje que possa substituir a enorme mobilidade social e a acumulação de riqueza que ocorreram em meados do século XX. Foi nessa época que muitas das principais organizações da vida comunitária judaica foram construídas. Não temos os recursos, em um sentido econômico muito literal, nem o mesmo legado de habilidades organizacionais. Mas há novas organizações tentando. Você não imagina a quantidade de coletivos, grupos de oração, grupos de estudo e programas extracurriculares que estão surgindo o tempo todo. Existem novas alianças, como o Movimento da Diáspora Judaica, que reúne dezenas de grupos, rabinos e líderes comunitários. Mas tudo isso está acontecendo sem nenhum apoio.

É um compromisso com a construção de novas instâncias de vida comunitária em um momento em que a sociedade em geral, e não apenas os judeus, enfrenta muitos problemas com a organização coletiva…

Exatamente. É por isso que surge o debate sobre reformar as instituições existentes ou construir novas. As instituições existentes têm a vantagem de simplesmente existirem, então têm seu próprio espaço físico, algum tipo de estrutura administrativa e recursos, ao passo que, ao construir algo novo, você começa do zero. Muitos dos novos minyan [grupos com o quórum mínimo necessário para os serviços religiosos] que estão surgindo se reúnem em salas de estar. Uma colega minha tem um minyan que começou com dez pessoas em uma sala de estar e agora, nos feriados, reúne centenas. Para onde vão? Elas não têm um espaço próprio e dependem da caridade de outros grupos. Tudo é feito do zero, mas é feito. As pessoas não desistem.

Por que pode ser tão difícil para alguém de identidade judaica deixar o sionismo?

Muitas pessoas que participam dessas instituições sabem, inconscientemente, que o judaísmo não sionista não pode mais lhes oferecer uma vida comunitária em outros lugares. E isso as impede de questionar as coisas mais a fundo, porque não se trata apenas de discutir com a família. Trata-se de perder uma parte importante da sua vida. Se você tem um filho que precisa celebrar seu bar mitzvá, você não pode. Se alguém da sua família morre, aquela comunidade que o apoiaria no seu luto deixa de existir. Estamos lentamente chegando a esse ponto de organização, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Nossas organizações políticas só podem substituir as organizações comunitárias até certo ponto. Então, sim, é realmente difícil. Você está pedindo às pessoas que abandonem tudo o que conhecem.

Veja bem, é um preço pequeno a pagar. É o mínimo que podemos fazer pelas pessoas que estão sendo dizimadas em Gaza. Novamente, chega-se ao ponto em que não se suporta mais estar aí, o genocídio torna tudo insuportável… Algumas pessoas conseguem esquecer. Em um artigo recém-publicado na revista Equator, “Gaza e o problema da estupidez moral”, Abdaljawad Omar, um dos intelectuais palestinos mais influentes, tenta entender por que algumas pessoas, com tudo o que sabemos, continuam repetindo os argumentos israelenses. Ele tem uma resposta psicanalítica: elas sabem que enfrentar o genocídio em Gaza é muito custoso, que isso as destruiria, que “lhes custaria o mundo”. A intensidade da negação é resultado de repressão e vergonha, como se, no fundo, soubessem o quão errado é o que defendem. Imagine ser alguém que apoiou tudo isso. Pense na expiação que você teria que fazer por seu apoio a esses massacres, a esse genocídio, ao assassinato de crianças.

Como dizemos em inglês: “Toquemos o menor violino do mundo”. Toquemos o menor violino possível pela tragédia dos pobres sionistas que não têm condições de apoiar o sionismo. Mesmo assim, pensar nisso em termos de um problema político ou organizacional é muito importante.

Em que medida o sionismo mudou o significado de ser judeu?

Veja, por exemplo, a festa da Páscoa judaica. Todos os anos, recita-se: “Em cada geração, se levantam contra nós para nos aniquilar, mas o Santo, bendito seja Ele, nos salva de suas mãos”. Essa é apenas uma parte da história; o restante do texto é basicamente um chamado à vingança. Recitar algo assim fazia sentido quando se era uma comunidade tentando reunir coragem para suportar a opressão assassina. Mas quando essas mesmas frases são repetidas a partir de posições de poder, elas se tornam chamados ao genocídio. E é isso que acontece com grande parte da nossa liturgia e dos nossos textos. Tudo isso está sendo usado agora para fortalecer o sionismo religioso. Essas são coisas que precisam ser mudadas, reelaboradas dentro da tradição para levar em conta o fato de que a posição do povo judeu na estrutura de poder pode mudar. E existe uma responsabilidade ética e moral de ter uma liturgia que reflita isso.

Precisamos também considerar a relação teológica com a terra. Após a destruição do Templo, a religião tornou-se diaspórica; o judaísmo estava presente onde quer que houvesse judeus. O sionismo veio e fez sua própria reinvenção do judaísmo. Há muito a renegociar em nossa tradição, e muitos de nós acreditamos que este é um momento de renegociação para o judaísmo diferente de tudo o que vimos em milênios, desde a destruição do Segundo Templo.

E isso é apenas o que diz respeito à religião. Em todas as outras esferas das nossas vidas, nossas instituições foram construídas em torno do sionismo. E isso não reflete mais a posição das pessoas. Nos Estados Unidos, há um número impressionante de judeus que estão se afastando do sionismo e não têm para onde ir. Eles não têm um lugar que os represente dentro da comunidade judaica.

Muitos grupos ortodoxos hassídicos dirão que já resolveram essa questão. Eles acreditam que migrar para Israel antes da vinda do Messias é um pecado. Em que o judaísmo que vocês defendem difere dessa concepção?

Para começar, para a maioria dos hassidim, suas posições não têm nada a ver com os palestinos, exceto para alguns grupos. Para mim, a base teológica não é central, exceto quando pensamos em como reconstruir nossa vida espiritual à luz do que aconteceu desde 1948. A questão é, antes de tudo, moral. E também política. Quando a mídia contata representantes judeus, com quem ela entra em contato? Quando o governo consulta membros da comunidade judaica, quem ele consulta? No momento, há uma captura total da nossa comunidade em nível global. Às vezes, a mídia e as autoridades nem sequer consultam judeus estadunidenses, mas sim diretamente figuras israelenses, o que significa que nossa representação foi completamente terceirizada para os sionistas. Isso, por sua vez, também fomenta a confusão entre judaísmo e sionismo. É muito conveniente para os governos israelenses que haja antissemitismo. Eles não se preocupam em reduzir ou erradicar o antissemitismo porque sua resposta é: “venham para Israel”. Sua prioridade é fortalecer esse Estado.

Essas são as pessoas que nos representam no cenário mundial, e queremos mudar isso. Estamos tentando enfraquecer a máquina política que permite o genocídio e o assassinato contínuo de palestinos, que se manifesta por meio do envio de armas, de acobertamentos políticos e de uma recusa perpétua em prestar contas.

Embora seja uma revista judaica voltada para um público judeu, a Jewish Currents trabalha amplamente com jornalistas palestinos na Palestina. Que papel desempenha a libertação da Palestina nessa nova identidade judaica?

Já disse antes que o judaísmo significará justiça para o povo palestino, ou não significará nada. Obviamente, não quero que o judaísmo seja definido para sempre apenas pela questão palestina. Ele tinha uma vida independente disso antes, e o que buscamos é que ele tenha uma vida depois. Mas, de agora em diante, o judaísmo sempre estará associado ao genocídio palestino, e terá que haver maneiras de ele assumir a responsabilidade e criar caminhos para a justiça, as reparações, o retorno e a igualdade. Não defendo a libertação da Palestina pelo bem do judaísmo; defendo os palestinos e com os palestinos. Mas não acredito que um judaísmo do qual a maioria de nós queira fazer parte possa sobreviver se não confrontar a questão palestina e ajudar a criar as condições para a libertação da Palestina.

Como você responde às críticas sionistas? Dizem que aqueles que não defendem Israel não reconhecem a importância da Terra de Israel na tradição e, portanto, não entendem o judaísmo. Que a maioria dos judeus já decidiu apoiar o sionismo. Que os judeus antissionistas não são “judeus de verdade”.

Essas lutas entre sionistas e antissionistas dentro do judaísmo são tão antigas quanto o próprio sionismo. A verdade é que hoje a afirmação de que a maioria apoia o sionismo está perdendo força, especialmente nos Estados Unidos. As coisas estão mudando muito de geração para geração.

O argumento de que o sionismo deriva automaticamente de textos judaicos também não se sustenta. Para começar, há inúmeros judeus hassídicos que nunca concordaram com isso. O judaísmo existia há milênios antes do Estado político de Israel e continuará a existir depois. A ideia de que nossa identidade é tão antiga quanto este Estado de 80 anos não faz sentido. É um Estado-nação que nega direitos humanos a metade da população que vive entre o rio e o mar. É isso que o judaísmo nos chama a preservar?

A Torá é vasta e permite muitas interpretações. Há coisas muito rigorosas, como a observância do Shabat, mas em outros assuntos, as pessoas leem o que elas querem ler. Ninguém é mais ou menos judeu nesse sentido. Os colonos violentos na Cisjordânia são tão judeus quanto eu.

Todas essas tradições com as quais crescemos – cristianismo, judaísmo, islamismo – têm muitos elementos que foram usados durante séculos para oprimir pessoas. Mas elas também podem fornecer uma bússola moral forte. Como você pensa que os valores judaicos com os quais você foi criado influenciaram sua posição atual?

Detesto o termo valores judaicos. Na minha opinião, o colono que age com violência está colocando em prática “valores judaicos”, e eu, ao me opor ao genocídio em Gaza, estou colocando em prática “valores judaicos”. Os valores judaicos são o que os judeus fazem, e não existe um conjunto fixo de valores judaicos. Acredito que existem valores que são expressos verbalmente e valores que são ensinados. Cresci em uma comunidade que, obviamente, se considerava justa e boa. Mas não fui criada no judaísmo reformista, onde o foco é a justiça social. Fui criada em uma comunidade judaica mais conservadora, onde os valores judaicos que nos eram ensinados eram mais insulares: cuidar uns dos outros, a fortaleza, o orgulho. E esses também eram valores judaicos. Sou neta de sobreviventes do Holocausto originários da Grécia, que estiveram em Auschwitz. Para mim, essa história significa “nunca mais para ninguém”. Mas existem pessoas que são netas e filhos de sobreviventes para quem a mensagem é “nunca mais para nós”.

Não será fácil, e não porque o judaísmo seja inerentemente ruim. Todas as religiões do mundo têm essa dualidade, e, no fim das contas, tudo se resume ao que seus praticantes fazem e no que acreditam. Não penso que baste dizer: “Bem, vamos voltar a uma expressão idealizada dos valores judaicos”. Não, teremos que lutar por isso. Teremos que construir um judaísmo que diga essas coisas, e não aquelas outras. E teremos que integrar isso ao nosso modo de vida, ao funcionamento das nossas comunidades. Isso exigirá muito trabalho.

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