Possível atuação política de Mendonça no caso Master pode beneficiar investigados

André Mendonça. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

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03 Setembro 2026

Constitucionalistas defendem investigação de Moraes, mas questionam Mendonça e o encontro com Vorcaro; estratégia do relator expõe contradições e pode comprometer validade dos atos.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por ExtraClasse, 02-09-2026.

A crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas revelações sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes da Corte ganhou um novo e explosivo capítulo nesta quarta-feira, 2. Um dia depois de o ministro André Mendonça, relator no STF do inquérito sobre o Banco Master, retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens envolvendo o colega Alexandre de Moraes, veio à tona que o próprio Mendonça recebeu reservadamente o então dono do Banco Master, em março de 2025. O encontro ocorreu na sede do Instituto Iter, entidade privada fundada pelo magistrado e por ex-integrantes do governo Bolsonaro, em São Paulo.

Para os constitucionalistas Pedro Serrano e Gisele Cittadino, ouvidos pelo Extra Classe, o episódio coloca o Supremo diante de uma crise institucional de dimensões inéditas. Os dois consideram necessária a apuração dos indícios envolvendo Moraes, mas questionam duramente o procedimento adotado por Mendonça.

“Tenho 40 anos de exercício da advocacia e não lembro nem de perto de uma crise dessa”, afirma Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC-SP, doutor em Direito do Estado pela instituição e pós-doutor em Direito pela Universidade de Lisboa.

Para ele, Mendonça incorreu em duas irregularidades: provocou de ofício a PF para investigar fatos envolvendo outro ministro e fez isso sem autorização do plenário. Ainda assim, o jurista sustenta que as provas têm origem legítima.

Com celulares apreendidos judicialmente, os indícios contra Moraes não podem simplesmente desaparecer. “Você tem indícios que exigem uma investigação, não condutas que ensejam responsabilização”, entende Serrano.

Ministro fazendo política

Cittadino, professora do Departamento de Direito da PUC-Rio, doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e pesquisadora nas áreas de pensamento constitucional, democracia e direitos humanos, chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. Para a constitucionalista, Mendonça deveria ter interrompido o procedimento ao surgirem elementos envolvendo Moraes e submetido a questão institucionalmente ao Supremo. Ao divulgar o relatório antes disso, teria colocado em risco a validade dos próprios elementos que pretendia apurar.

“Isso mostra que o ministro André Mendonça está fazendo política e não direito”, critica Cittadino. Ao mesmo tempo, considera insustentável simplesmente encerrar o assunto por uma nulidade processual. “Alexandre de Moraes vai precisar se defender, vai precisar ser investigado”, defende.

A tensão aumentou porque, dentro do próprio STF, circula a avaliação de que a regra que exige autorização da Corte para investigar ministros não constitui privilégio pessoal, mas proteção institucional. A dúvida levantada reservadamente é sobre o precedente: se menções, conversas ou relações financeiras justificarem investigações, o mesmo parâmetro precisará valer indistintamente para outros integrantes do tribunal.

Serrano também considera “absolutamente inusual” Mendonça ter tornado público o relatório, lembrando que investigações envolvendo magistrados costumam tramitar sob sigilo. E vê risco adicional na proximidade das eleições: uma disputa pública no plenário poderia transformar a Corte em palco de um “espetáculo”, com interferência no processo eleitoral.

Cittadino, por outro lado, vê com simpatia o afastamento temporário tanto de Moraes quanto de Mendonça, ao menos durante o período eleitoral. “Isso nunca aconteceu na história do Brasil. Um ministro do Supremo investigar outro ministro do Supremo”, lamenta.

A exigência de autorização para uma investigação contra ministros decorre do foro por prerrogativa de função previsto no artigo 102 da Constituição. A Carta atribui ao próprio STF competência para processar e julgar seus integrantes por crimes comuns. A regra não é considerada um privilégio pessoal de um ou outro ministro, mas uma garantia institucional destinada a preservar a independência da função e o princípio do juiz natural.

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A reunião secreta de Mendonça e Vorcaro

A revelação feita nesta quarta-feira pelo ICL Notícias tornou mais delicada a posição do relator. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram que uma aproximação com Mendonça foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP).

Em fevereiro de 2025, Soares enviou ao banqueiro uma foto ao lado do ministro e afirmou, em áudio, que estava “trabalhando” por ele. O advogado afirmou estar levando o ministro para fazer um terno em um dos alfaiates mais caros do Brasil. Também relatou posteriormente ter conversado com Mendonça sobre os problemas do Master no Banco Central e que o ministro queria receber Vorcaro.

O encontro ocorreu em 14 de março de 2025, na sede do Iter, em São Paulo. Mendonça confirmou a reunião, mas afirma que se limitou a ouvir Vorcaro sobre uma ação envolvendo créditos de precatórios de interesse do banco. O ministro ressalta que, posteriormente, votou contra a posição defendida pelo empresário.

Para Serrano, a reunião cria outro problema. Se confirmada nas condições reveladas, Mendonça não deveria permanecer como relator do caso Master.

Instituto amplia questionamentos

O local do encontro também chama atenção. Criado em 2023, quando Mendonça já integrava o STF, o Iter atua com cursos e treinamentos nas áreas jurídica, de gestão pública e governança. Em pouco mais de um ano, acumulou cerca de R$ 4,8 milhões em contratos com órgãos públicos.

Parte dessas relações passou a ser escrutinada pela coincidência entre contratantes do instituto e casos submetidos à atuação de Mendonça. Há registros envolvendo governos, prefeituras e consórcios regionais. Os dados apontam proximidades temporais entre contratos e decisões judiciais.

A crise, assim, já ultrapassa Moraes. Enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, consulta ministros sobre como conduzir o episódio, o caso Master coloca sob escrutínio relações entre Vorcaro e diferentes autoridades e, agora, também a atuação daquele que determinou que essas relações fossem investigadas.

Conduta de Mendonça pode gerar nulidade e beneficiar investigados

Serrano alerta para uma consequência adicional. A sucessão de procedimentos questionáveis pode acabar favorecendo os próprios investigados. “Quando você começa a ter uma conduta muito espetaculosa por parte do magistrado, isso gera nulidades, como já deu na Lava Jato”.

Cittadino conclui acentuando sua perplexidade diante das movimentações de Vorcaro. Na opinião dela, o ex-banqueiro aproveitou a falta de cultura republicana do Brasil. “A cada dia que passa se percebe que ele é realmente um gangster. A palavra é essa. Ele é um gangster que capturou uma quantidade de gente impressionante”.

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