18 Mai 2026
Como um teto de campanha que virou promessa de filme e um escândalo cinematográfico podem sugar o clã do ex-presidente para dentro do caso Master e derreter a candidatura de Flávio, o "Bolsonarinho".
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 15-05-2026.
A promessa de R$ 134 milhões que Daniel Vorcaro fez para bancar a cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL) continha uma ironia: era praticamente o mesmo valor do limite de gastos permitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cada candidato na campanha presidencial de 2022 — R$ 133,4 milhões nos dois turnos. Informado a respeito, o cientista político João Feres Júnior não conteve a reação. “Bombástico”, exclamou.
Para o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Monitor do Debate Público, o número que surgiu após a revelação dos áudios de Flávio Bolsonaro (PL) com o ex-banqueiro — preso um dia depois — revela um esquema em que Vorcaro atuava como principal financiador do bolsonarismo. É a “continha inteira” do limite legal, define, no que classifica como “crime organizado entrando no coração da política”.
Além do tamanho do esquema, Feres Júnior avalia que o escândalo inviabiliza a candidatura do “zero um” de Bolsonaro, que já vê o apelido de “Bolsonarinho” figurar ao lado do já conhecido “Rachadinha”.
“O chão é alto, mas o teto baixou muito”, analisa o cientista político. Ele acredita em uma situação que afugenta conservadores moderados, que não aderem “às loucuras do bolsonarismo”, como a recente onda de apoio à marca de detergentes Ypê. O chão, explica, são os cerca de 25% de eleitores bolsonaristas radicais, em sua estimativa. O teto é o limite de ampliação desse eleitorado.
Estrago ainda a ser medido
No campo político, o estrago foi imediato. A candidatura de Flávio Bolsonaro, segundo analistas das mais variadas matizes, de Rodrigo Constantino a Reinaldo Azevedo, começou a fazer água por todos os lados. Romeu Zema e Ronaldo Caiado, dois nomes da extrema direita, disseram publicamente que o filho do ex-presidente preso por atentado ao Estado Democrático de Direito não teria mais condições de seguir na disputa. Tanto que, dentro do próprio bolsonarismo, há setores pressionando pela retomada do nome de Michelle Bolsonaro na corrida eleitoral.
Com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fora do jogo por já ter passado o prazo de descompatibilização, Feres Júnior aposta que a “chance de ouro” será de Ronaldo Caiado — ainda que, na visão do professor, ele próprio tenha limitações para derrotar Lula.
Enquanto o “castelo de cartas” do Banco Master desmorona, a possibilidade de reeleição de Lula no primeiro turno, segundo ele, “começa a ressurgir no cenário”.
Prevista para esta sexta-feira, 15, a pesquisa Datafolha ainda não deverá captar o impacto total do caso. Isso porque o trabalho de campo foi realizado na terça-feira, 12, e na quarta-feira, 13, e a reportagem sobre o áudio só veio à tona na tarde do dia 12, com a pesquisa já em andamento. Ou seja, o tamanho do rombo eleitoral provocado pelo escândalo ainda deve demorar um pouco para aparecer nos números.
Por ora, o cenário mais provável é que Flávio permaneça candidato. Ele tem dado entrevistas, se atrapalhado nas declarações e garantido que não sairá da disputa. Apenas uma catástrofe nas pesquisas poderia mudar esse quadro.
A saia justa que ficou mais apertada
Mesmo que a campanha presidencial bolsonarista de 2022 não tenha alcançado o teto do TSE, com R$ 89 milhões utilizados, os R$ 62 milhões pagos por Vorcaro, sob pedidos do filho do ex-presidente, perfazem 69,7% desse valor.
Para se ter ideia do tamanho da quantia, o aporte de Vorcaro para o filme Dark Horse supera os orçamentos de Ainda Estou Aqui (R$ 45 milhões) e O Agente Secreto (R$ 28 milhões). Já o compromisso total, de R$ 134 milhões, é maior que o orçamento de 15 dos últimos 20 filmes vencedores do Oscar.
Outra questão que torna ainda mais delicada a situação de Flávio Bolsonaro são as informações desencontradas sobre o destino dos recursos de Vorcaro: ora a produtora Go Up relata não ter recebido nada do ex-banqueiro; ora o roteirista, produtor e também ator da produção, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), publica nota afirmando que “não iria se sujar pelos R$ 2 milhões que a imprensa agora tenta atribuir”.
Com o dinheiro saído do caixa de Vorcaro parando em um fundo chamado Heaven Gate Development Fund LP, registrado no Texas e gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, há quem suspeite da existência de uma espécie de caixa dois do clã.
Seja para enriquecimento pessoal, para manter Eduardo Bolsonaro em seu autoexílio ou para abastecer campanhas futuras, como a de 2026, já há movimentações por investigações da Polícia Federal (PF), registradas pela imprensa.
O Globo, Oliver Stone e o dinheiro privado-público
No mesmo dia da divulgação dos áudios de Flávio Bolsonaro, o jornalista Lauro Jardim publicou, em O Globo, que Vorcaro também teria apoiado filmes sobre Michel Temer e Lula. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) entrou em contato imediatamente com o jornalista para afirmar que nem o presidente nem o governo solicitaram qualquer patrocínio a Vorcaro. Lauro Jardim registrou a nota, mas manteve o título da publicação.
Nesta sexta-feira, 15, o cineasta Oliver Stone, responsável por um documentário sobre Lula concluído em 2024, declarou que não recebeu nenhum recurso do ex-banqueiro. Stone e sua equipe já se preparam para adotar medidas judiciais contra as informações que associam seu trabalho ao escândalo do Banco Master.
Também nesta sexta-feira, 15, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu uma apuração preliminar sobre o envio de emendas parlamentares para uma ONG ligada à produtora do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Paralelamente, foi revelado que uma secretária parlamentar lotada no gabinete de Mário Frias trabalhou na produção do filme Dark Horse enquanto recebia salário pago pela Câmara dos Deputados.
Tanto Flávio Bolsonaro quanto Mário Frias afirmaram publicamente que não havia “um centavo de dinheiro público” na cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
E ainda piora. Na tarde desta sexta-feira, o The Intercept, responsável pela divulgação dos áudios do filho 01 do ex-presidente, apresentou um contrato onde o irmão, Eduardo figura como diretor-executivo de Dark Horse. Assim, ele tinha poder sobre todos os recursos da produção.
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