"Putin está tentando intimidar o Ocidente, mas mais cedo ou mais tarde ele negociará". Entrevista com Mark Galeotti

Guerra na Ucrânia (Foto: Noah Brooks | Ministério da Defesa da Ucrânia | Wikimedia Commons)

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29 Agosto 2026

Historiadores preveem mais ataques híbridos. "Mas Londres e Bruxelas devem estar preparadas para possíveis negociações na primavera."

A entrevista é de Enrico Franceschini, publicada por La Repubblica, 28-08-2026.

A escalada de Putin em direção ao Ocidente acontecerá, mas será baseada em ataques híbridos, não militares. Ele não usaria armas nucleares na Europa ou na Ucrânia; ele só as utiliza para nos intimidar. No entanto, a Europa precisa abrir um diálogo com o Kremlin, para não deixar as negociações nas mãos de Trump quando, talvez na próxima primavera, a guerra possa terminar. Esta é a opinião do historiador Mark Galeotti, o mais renomado especialista britânico em Rússia, sobre os últimos movimentos de Moscou e o que pode acontecer no conflito nos próximos meses.

Eis a entrevista.

Quão real é o risco de uma escalada russa?

Haverá um aumento contínuo nos ataques cibernéticos e na sabotagem por parte de países europeus, que Putin alega estarem travando uma guerra por procuração contra a Rússia. No entanto, não acredito que veremos incursões militares ou lançamentos de mísseis e drones contra países da OTAN. Duvido que Putin faça algo que possa ser interpretado como um ato de guerra. O presidente russo quer intimidar o Ocidente, mas sabe que qualquer ataque direto à Europa a uniria e provocaria uma forte reação.

E poderia haver uma escalada militar na Ucrânia?

É possível; aliás, já está em curso, com uma campanha de mísseis e drones contra as redes de energia e água da Ucrânia, que deverá intensificar-se com a aproximação do inverno. Uma escalada no terreno, contudo, exige mais tropas, uma mobilização de reservistas, o que duvido que aconteça antes das eleições parlamentares russas em setembro.

Você acredita na possibilidade de usar armas nucleares?

Não. É apenas um espantalho, para assustar e dividir o Ocidente, para pressionar um segmento dos círculos políticos europeus a forçar a Ucrânia a ceder à Rússia tudo o que ela quer, só para parar a guerra. Putin sabe que a China e a Índia são hostis à ideia de Moscou violar o tabu do uso de armas nucleares. Se ele recorresse a elas na Ucrânia, ou em qualquer outro lugar, teria que lidar não só com uma reação militar ocidental, mas também com a reação política de Pequim e Nova Déli, seus parceiros econômicos cruciais.

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Por que você acha que o diretor da CIA foi a Moscou ?

Todas as hipóteses levantadas pelos vazamentos são válidas: um aviso à Rússia para não atacar a OTAN, uma troca de prisioneiros, uma discussão sobre o Irã.

Blefe para intimidar o Ocidente ou ameaça real? Putin está aumentando a pressão porque está em crise? A frente está estagnada, filas nos postos de gasolina em Moscou, eleições se aproximando...

Esses são três fatores que explicam seu comportamento. Mas isso não significa necessariamente que Putin se sinta em crise. Certamente, a tecnologia de mísseis de longo alcance fornecida pelos europeus a Kiev o preocupa. E militarmente, a Ucrânia consegue surpreendê-lo continuamente. Mas os russos demonstraram sua capacidade de adaptação: as tropas de Moscou estão avançando em Donbass, embora lentamente e com enormes perdas; e a escassez de combustível está perto de ser resolvida. Putin pode ver a Ucrânia em uma situação de maior crise, com a demissão do Ministro da Defesa, a investigação de corrupção entre os assessores de Zelensky, a dificuldade em recrutar soldados, o sistema energético devastado e as defesas antiaéreas debilitadas.

O que o Ocidente deveria fazer?

Além de manter seu apoio inabalável à Ucrânia, uma coisa que a Europa deveria ter feito há muito tempo é dialogar com Putin. Dialogar não significa apaziguamento, não significa fazer concessões ao líder do Kremlin. Mas não dialogar com Moscou significa dar a Trump o papel de embaixador europeu quando as negociações começarem — e mais cedo ou mais tarde elas começarão. Ambos os lados entendem que a guerra não pode se arrastar indefinidamente. A diplomacia foi abandonada por ora; Bruxelas e Londres deveriam abrir um canal de comunicação com a Rússia.

A guerra só terminará se a Europa se cansar de ajudar a Ucrânia ou se Putin cair?

Ambos os desdobramentos poriam fim ao conflito, mas a mensagem cada vez mais clara vinda de Moscou é que, uma vez conquistada a última parte de Donbass, Putin poderá declarar que alcançou seus objetivos e iniciar negociações. Naturalmente, ele mudaria de ideia e desejaria mais se a Ucrânia estivesse em colapso. Mas o cenário mais provável é que, em algum momento da próxima primavera, a guerra termine e as negociações comecem.

Então, por que Zelensky não entrega logo aquela parte de Donbass para ele?

Em teoria, sim, mas não acho que ele possa. Aquele território está encharcado de sangue ucraniano. Mesmo que ele quisesse se retirar, os militares não o obedeceriam. Então, estamos presos nessa situação. 

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