Inteligência artificial e humanidades: desafios do pensamento crítico na era algorítmica

Ciclo de estudos “Inteligência Artificial e Humanidades. O pensamento crítico na era algorítmica" reflete sobre bases para uma formação crítica e consciente diante dos mais recentes desdobramentos das tecnologias digitais

Foto: DeltaWorks/Pixabay

Por: Luana de Oliveira | 31 Agosto 2026

O conhecimento vindo do saber humano não pode ser substituído puramente por máquinas, a partir disso trago a reflexão: de que forma sistemas de inteligência artificial podem se relacionar com o cotidiano humano sem alterar nossa humanidade? Tal questão tem gerado inúmeros debates no âmbito acadêmico e social, principalmente pelo fato dessa tecnologia estar se expandindo em nossa vida de tal forma que a maioria das atividades cotidianas já são compostas pelo uso da IA.

O sistema está sendo implementado de forma obrigatória em várias empresas, especialistas tem usado a tecnologia como um auxílio para suas pesquisas, vídeos e fotos feitas por IA circulam livremente na internet e tristemente há governos usando tal prática em drones para matar gentes.

Tudo isso reflete a preocupação da questão anterior sobre a IA ser usada além de uma ferramenta e substituir nossa própria humanidade a partir do pressuposto de não conseguirmos pensar ou agir sem que haja pesquisas ou a própria ação através dela. 

Na encíclica "Magnifica Humanitas - Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial" o Papa Leão XIV comenta que a inteligência artificial não é apresentada como um mal. O problema está nas estruturas econômicas, políticas e sociais que determinam quem controla a tecnologia, quem se beneficia dela e quem suporta seus custos. O documento guia-se pelo pensamento de que a humanidade não precisa escolher entre inovação e atraso, mas entre diferentes projetos de sociedade mediados pela tecnologia.

A questão não é rejeitar a inovação, mas impedir que eficiência, produtividade e crescimento econômico se transformem em valores absolutos. Leão XIV rejeita a ideia de que uma máquina que processa informações, reconhece padrões e produz respostas possa ser simplesmente comparada à inteligência humana. Em sua reflexão, ele afirma que inteligência envolve experiência, consciência, corporeidade, relação, responsabilidade e capacidade moral.

Em "Máquina e Soberania" o filósofo Yuk Hui defende um pensamento planetário que ilumina outra forma de se relacionar no mundo mesmo em meio ao desenvolvimento tecnológico. Hui fala que essa ideologia " se resume a uma questão muito complexa: como podemos desenvolver a coexistência entre humanos e também com os não humanos? De acordo com ele "Isso implica retornar à Terra e pensar a diversidade em três áreas: biodiversidade, noodiversidade — do grego nous, pensamento — e tecnodiversidade. Essas três áreas não são separadas; elas estão interconectadas. Os humanos não podem permanecer à margem da biodiversidade; vivemos na natureza e fazemos parte dela". Assim como a natureza necessita de várias espécies para manter o equilíbrio ecológico, a humanidade necessita de múltiplos caminhos tecnológicos para coexistir harmonicamente e superar crises globais.

Ciclo de Estudos Inteligência Artificial e Humanidades. O pensamento crítico na era algorítmica

No dia 01-09-26 iniciaremos o "Ciclo de Estudos Inteligência Artificial e Humanidades. O pensamento crítico na era algorítmica", trazendo a proposta de uma reflexão transdisciplinar sobre os desafios epistêmicos, pedagógicos e éticos que as tecnologias digitais impõem as universidades e à sociedade contemporânea.

Sendo guiado pela tese de Carl A. Raschke em meio a necessidade de uma transformação humanística da universidade, o clico se guia a partir dos eixos temáticos que vão das relações entre humanidades, artes e IA ao conectivismo e à aprendizagem rizomática, passando pelo conceito de cointeligência, a colaboração entre humanos e sistemas algorítmicos, e pelas habilidades transdisciplinares e éticas requeridas nesse contexto.

Mediante essa lógica, nas palestras serão discutidas tais questões fundamentais: Como as humanidades podem dialogar com as ferramentas digitais sem abdicar de sua vocação reflexiva e crítica? De que modo a dimensão digital redefine as práticas de pesquisa e a relação entre professores e alunos? Em que medida a IA amplia ou ameaça a autonomia intelectual cultivada na universidade?

Colocando no centro dos debates as ciências humanas como parte integrante e importante da inovação tecnológica, o ciclo vai oferecer bases para uma formação crítica e consciente diante dos mais recentes desdobramentos das tecnologias digitais.

Programação e informações sobre os palestrantes do evento

Carl A. Raschke

Carl A. Raschke (Foto: arquivo pessoal)

O Prof. Dr. Carl Raschke é professor de Filosofia da Religião na Universidade de Denver e diretor do programa de mestrado da instituição. O professor é especialista em filosofia continental, teologia política, filosofia da religião, teoria da arte, teoria da globalização e teoria da religião. Carl é um escritor e acadêmico de renome internacional, autor de inúmeros livros e centenas de artigos sobre temas que variam do pós-modernismo à religião e cultura populares, passando por tecnologia e sociedade.

Raschke ministrará a primeira palestra do ciclo com a temática " Inteligência artificial nas universidades e o papel das humanidades", na terça-feira, 01-09-2026, às 10h. 

Eleonora Lima

 Eleonora Lima (Foto: arquivo pessoal )

A Profa. Dra. Eleonora Lima é professora de IA Cultural no Departamento de Humanidades Digitais e pesquisadora no Trinity College Dublin, onde atua no projeto "Knowledge Technologies for Democracy" (KT4D), financiado pela União Europeia. Sua pesquisa situa-se na interseção entre Estudos Críticos de IA, Estudos Narrativos e Literários e Estudos de Ciência e Tecnologia.

Eleonora realizará a palestra sobre "Tecnologia de linguagem da IA como poder. Negociando representação e invisibilidade nos LLMs", na terça-feira, 15-09-2026, às 10h. 

Gustavo Borba 

Gustavo Borba (Foto: Divulgação)

O Prof. Dr. Gustavo Borba é Líder do grupo de pesquisa Design Estratégico para a Inovação Cultural e Social na Unisinos. Borba tem interesse em pesquisas nas áreas de inovação na educação, inovação orientada pelo design e inovação social. O professor é Doutor em Engenharia de Produção pela UFRGS.

O pesquisador ministrará a palestra com a temática "Educação, inteligência artificial e universidade. Novos desafios para ensinar, aprender e criar", na quarta-feira, 30-09-2026, às 13h05.

Jon Dron (Foto: Arquivo Pessoal)

O Prof. Dr. Jon Dron é professor titular e vice-diretor (na área de Aprendizagem e Avaliação) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Athabasca, a principal universidade aberta e online do Canadá. Ele detém o título de "National Teaching Fellow" do Reino Unido. Sua pesquisa abrange as áreas de educação, tecnologia e computação, valendo-se de diversos outros campos disciplinares, desde a arquitetura até a teoria da complexidade.

Jon é autor de três livros e de mais de 150 publicações nessas áreas (principalmente em suas interseções com a aprendizagem online), além de ser um blogueiro da área educacional e palestrante de destaque. Antes de se tornar professor, Jon trabalhou na área de TI por alguns anos, gerenciando equipes de suporte, desenvolvendo softwares educacionais e administrando servidores. Ao longo dos últimos 30 anos, ele desenvolveu uma ampla gama de aplicações de aprendizagem (em sua maioria, de natureza social) e continua a lecionar cursos de computação.O professor realizará a palestra sobre "Cognições entrelaçadas. Uma perspectiva complexivista sobre a IA e a aprendizagem", na quarta-feira, 07-10-2026, às 10h.

David Staley (Foto: arquivo pessoal)

O Prof. Dr. David Staley é professor associado do Departamento de História, onde ministra disciplinas de história digital e métodos históricos, e mantém vínculos de colaboração com os departamentos de Design, onde lecionou História do Design e Futuros do Design, e de Estudos Educacionais, no qual liderou o "Fórum sobre a Universidade".

Staley desenvolverá a palestra com a temática "Universidades do futuro. Interfaces entre pensamento crítico, história digital e IA", na quarta-feira, 04-11-2026, às 10h.

Ilia Delio (Foto: Arquivo Pessoal)

A Profa. Dra. Ilia Delio é Irmã Franciscana de Washington DC e professora da Universidade Villanova. Ela é a fundadora e diretora executiva do Instituto Mundial de Ciência, Religião e Cultura, um fórum educacional online focado no pensamento integrativo e na formação pessoal. É autora de mais de vinte e cinco livros, incluindo "The Christian Mutation: Reclaiming the Dynamic God of Jesus" (Orbis, 2026), "The Not Yet God: Carl Jung, Teilhard de Chardin and the Relational Whole", "The Hours of the Universe", vencedor do Prêmio Nautilus de Ouro de 2022, e "The Unbearable Wholeness of Being: God, Evolution and the Power of Love" (Orbis, 2013), que recebeu o Prêmio Nautilus de Prata de 2014.

Ilia formou-se em Biologia pela Universidade DeSales, possui mestrado em Biologia pela Universidade Seton Hall, doutorado em Farmacologia pela Faculdade de Medicina da Universidade Rutgers-Nova Jersey e doutorado em Teologia Histórica pela Universidade Fordham.

A professora realizará a palestra sobre "O que nos faz humanos? Teologia, inteligência artificial e a questão antropológica do nosso tempo", na quarta-feira, 18-11-2026, às 10h.

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/inteligencia-artificial-humanidades

Novas tecnologias. Gênero, poder e dis/utopias tecnopolíticas

Recentemente, encerramos as palestras do ciclo de estudos " Novas tecnologias. Gênero, poder e dis/utopias tecnopolíticas". Com as temáticas guiadas a partir das discussões feministas e ecofeministas, o ciclo analisou como estruturas tecnocientíficas, sociais e políticas produzem e reproduzem formas de dominação, marginalização e opressão, em especial sobre as mulheres e outros corpos historicamente vulnerabilizados, ao mesmo tempo que reconhece nesses sujeitos a emergência de pensamentos e práticas capazes de imaginar alternativas menos desiguais e violentas. 

Na última palestra realizada no dia 18-08-2026, o professor Gregory Swer trouxe uma discussão importante sobre a filosofia ecofeminista da tecnologia. De acordo com o pesquisador "o ecofeminismo é um subconjunto em particular da filosofia ecofeminista que argumenta que a opressão das mulheres e a opressão da natureza estão inexplicavelmente ligadas de tal modo que um não pode significativamente falar da liberação da natureza sem falar da libertação feminina e vice e versa".

Gregory explica que " o ecofeminismo sempre teve uma relação com a tecnologia, talvez muito mais claramente do que muitos outros aspectos da filosofia feminista". Segundo o professor, essa relação se dá a partir do pressuposto de que "a tecnologia é inerentemente patriarcal, ou seja, ela não é remotamente neutra e tem seus valores porque está enraizada no caráter essencial dos homens".

A aula do especialista e as demais palestras do ciclo podem ser assistidas a partir da playlist anexada aqui.

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