09 Fevereiro 2026
"A revolução da IA trará, como afirma um pesquisador da área da educação, "um verdadeiro renascimento das humanidades". Por quê? Porque a IA não consegue pensar de verdade. Ela só consegue responder. A IA pode gerar respostas complexas, mas não consegue avaliar sua veracidade. A IA pode obedecer a regras éticas, mas permanece desprovida de valores ou intenções. A IA pode imitar empatia, mas carece de experiência de vida. Ela pode sintetizar informações, mas não consegue determinar quais problemas valem a pena resolver", escreve Carl Raschke, em artigo publicado por The Globoscope e reproduzido por Settimana News, 09-02-2026.
Segundo ele, "trata-se de aprender a fazer perguntas que a IA jamais pensaria em fazer. Como observa David Meerman Scott, "a IA consegue resumir dados, mas ainda não consegue decidir quais problemas valem a pena resolver. Ela consegue escrever código, mas não consegue imaginar categorias inteiramente novas de produtos e serviços. Ela consegue analisar mercados financeiros, mas não entende as motivações humanas por trás das decisões econômicas".
"As universidades que compreenderem isso e mudarem o foco da concessão de diplomas para o fomento da inteligência conjunta não apenas sobreviverão, como prosperarão - afirma o autor do artigo. Os dinossauros que pastam no pântano e observam o asteroide cair do céu têm uma escolha: evoluir ou perecer. Alguns perceberão que, na verdade, não são dinossauros. São a nova espécie no meio acadêmico, aguardando para herdar a Terra".
Carl Raschke é professor de Filosofia da Religião na Universidade de Denver e diretor do programa de mestrado da instituição. Ele já foi chefe do departamento. Suas áreas de especialização incluem filosofia continental, teologia política, filosofia da religião, teoria da arte, teoria da globalização e teoria da religião.
Eis o artigo.
Esqueça os robôs roubando seu precioso trabalho de escritório. Essa é uma ansiedade do passado, o tipo de pânico em relação à IA que você vê sendo repetido incessantemente nos noticiários por consultores que vendem seus rabiscos no Substack sobre o futuro do trabalho.
A verdadeira história, aquela que deveria manter reitores de universidades, burocratas de credenciamento e diretores de admissão acordados à noite, entupindo-os de Ambien como se fossem Tic-Tacs, é muito mais significativa e ameaçadora.
A inteligência artificial não está ameaçando empregos em sua essência. Ela está destruindo todo o ecossistema do ensino superior, que por gerações serviu como principal guardião das trajetórias de carreira e do sistema de certificação para o emprego profissional.
Em outras palavras, a IA está prestes a fazer com as universidades o que o furacão Katrina fez com Nova Orleans. Ou o asteroide com os dinossauros.
Inteligência Artificial e a Universidade dos Dinossauros
Deixe-me explicar, começando pelos próprios dados. De acordo com a análise da Microsoft para 2025, aproximadamente cinco milhões de empregos administrativos — analistas de gestão, representantes de atendimento ao cliente, engenheiros de vendas — correm o risco de extinção, à medida que a IA cria o que alguns economistas chamam de "a maior força deflacionária da história da humanidade".
O CEO da Ford, Jim Farley, alertou que a IA "literalmente substituirá metade de todos os funcionários". O CEO da Salesforce, Marc Benioff, afirmou que ela já está assumindo até 50% da carga de trabalho de sua empresa. O JPMorgan e o Goldman Sachs estão utilizando IA para contratar ainda menos pessoas do que atualmente.
Isso pode ser um futurismo especulativo exagerado, mas não é necessariamente o caso. Barton Swaim, escrevendo no Wall Street Journal, compara o alarmismo em relação à inteligência artificial ao alarmismo em relação às mudanças climáticas do passado.
Uma confederação de especialistas — cientistas climáticos numa versão, gênios do Vale do Silício noutra — junta-se a políticos liberais e líderes de organizações sem fins lucrativos para alertar para uma catástrofe iminente. A única resposta moral a esta nova situação, dizem-nos estes defensores, é transferir a autoridade sobre grande parte da economia para pessoas como eles. O fato de serem a favor dessa transferência em quaisquer circunstâncias, com ou sem desastre iminente, não incomoda a imprensa tradicional, que noticia as suas previsões com credulidade e fervor. Entretanto, as pessoas comuns, desprovidas do conhecimento especializado necessário para tirarem as suas próprias conclusões, sentem-se intimidadas e obrigadas a aceitar tudo isto.
Ao mesmo tempo, o próprio jornal relata que os maiores empregadores dos Estados Unidos estão cortando empregos administrativos "em um ritmo alarmante". Dados da Challenger, Gray & Christmas mostram que os empregadores americanos anunciaram 696.396 demissões apenas nos primeiros cinco meses de 2025, um aumento de 80% em relação ao ano anterior.
Mas eis o ponto crucial, que toda a nossa classe de especialistas perplexos parece ignorar. O problema não é que a IA esteja prestes a devastar os meios de subsistência das pessoas. O problema é que toda a estrutura do ensino universitário, concebida para preparar as pessoas para esses meios de subsistência, tornou-se uma espécie de dinossauro, e a IA é o asteroide prestes a colidir e garantir sua rápida extinção.
Vamos analisar como o modelo de negócios predominante no ensino superior evoluiu ao longo do último meio século.
As universidades não se preocupam primordialmente com a educação dos alunos, mas sim com a produção de diplomas, pedaços de pergaminho que sinalizam aos empregadores que Tizio ou Caio frequentaram tantas horas de aulas e tantos cursos, acumulando, no processo, créditos suficientes para demonstrar seu compromisso incondicional com a carreira.
O modelo de negócios não foi desenvolvido pelas universidades. Ele foi moldado e aprimorado ao longo das décadas pelos próprios empregadores e seus apoiadores políticos, que impulsionaram o ensino superior nessa direção desde o início.
Como destaca uma análise recente publicada na revista Frontiers in Education, três pilares têm sustentado o ensino superior por muito tempo: a transmissão de informações por meio de aulas expositivas; avaliações padronizadas como demonstração de domínio; e diplomas como monopólio da legitimidade inerente à concessão de títulos. Cada um desses pilares está sendo agora desestabilizado pela IA.
Considere o mais sólido desses três pilares: a transmissão de informações. Tutores de IA e plataformas multimodais tornaram rapidamente o ensino unilateral "supérfluo". Alunos em alguns países do Oriente Médio relatam até mesmo preferir simulações com IA à tomada de notas passiva.
Avaliação padronizada? Os alunos estão explorando abertamente a IA para contornar testes de múltipla escolha e provas padronizadas. Como alertou um professor da Universidade Estadual do Arizona sem rodeios: "Se os alunos aprenderem a usar IA para concluir tarefas e os instrutores usarem IA para criar cursos, tarefas e avaliar o trabalho dos alunos, qual será o valor de uma educação universitária?"
Monopólios de credenciais? De acordo com Samar Ahmed, comentando sobre a mudança radical em curso nos Emirados Árabes Unidos (EAU), os empregadores estão "reconhecendo cada vez mais as certificações modulares e os sistemas de verificação baseados em blockchain", enquanto as universidades estão "experimentando cautelosamente" o reconhecimento baseado em competências.
Tradução? As muralhas aparentemente inexpugnáveis do Forte da Academia foram rompidas em todas as frentes.
Fim da relação universidade-empresa
No entanto, o corpo docente — e, claro, administradores, supervisores, consultores de recrutamento e assim por diante — continua a fingir que, se os professores modificassem ligeiramente seus programas para incorporar alguns módulos sobre ética em IA ou pesquisa supervisionada, ou novas estratégias de alfabetização em IA "em todo o currículo", o ensino superior de alguma forma se "adaptaria" ao novo mundo em que nos encontramos. Isso não acontecerá.
O ensino superior americano é estruturado de forma completa e fatal em torno da escassez: escassez de conhecimento, escassez de acesso, escassez de diplomas. As universidades cresceram e prosperaram por muito tempo porque controlavam o acesso privilegiado a esses recursos escassos. A escassez é o que garante os preços altos. A grande maioria dos americanos acredita, desde tempos antigos, que para ter sucesso financeiro na vida é preciso ir para a faculdade, pois assim se terá algo que outros, em diferentes graus, não possuem. A inteligência artificial elimina essas escassezes praticamente da noite para o dia.
Como Luke Lango destaca no InvestorPlace, "quando uma empresa pode substituir um gerente que ganha US$ 120.000 por ano por uma assinatura de IA de US$ 20 por mês, não é uma escolha, é um dever fiduciário". Os americanos já perderam a fé na universidade e não a recuperarão tão cedo. Uma pesquisa da NBC News de novembro de 2025 constatou que a percepção do valor de um diploma universitário está "em queda livre". Apenas 34% dos americanos agora acreditam que a universidade tem um efeito benéfico no país, uma queda em relação aos 57% de uma década atrás.
A confiança dos empregadores no ensino superior vem diminuindo há cinco anos consecutivos. Com poucas exceções, as trajetórias de carreira seguidas por gerações de estudantes estão se tornando obsoletas diante de nossos olhos, à medida que algoritmos de inteligência artificial substituem os próprios empregos para os quais eles foram cuidadosamente treinados.
Além disso, o sistema de acreditação, concebido para garantir que o ensino superior ofereça valor real aos estudantes e, claro, para assegurar que os empréstimos estudantis federais não financiem escolas privadas predatórias, está perdendo credibilidade rapidamente. Transformou-se num cenário infernal à la Hieronymus Bosch, repleto de favorecimentos burocráticos e conluios disfarçados de controle de qualidade. Como observa a Century Foundation, "o público confia nos órgãos de acreditação e acredita que eles sejam eficazes e consistentes em suas decisões, mas, na realidade, a fragilidade desses órgãos permitiu que muitas instituições e programas com baixo desempenho escapassem da fiscalização."
Humanidades: Pensamento Crítico e Inteligência para o Uso da IA
Mas eis a reviravolta que os profetas da desgraça não conseguem compreender. O suposto impacto catastrófico no ensino superior não levará necessariamente à destruição da educação universitária. Muito pelo contrário.
O que a literatura emergente demonstra — e o que o professor Ethan Mollick, da Wharton, expressou melhor do que ninguém — é que a gestão eficaz e produtiva da IA requer exatamente os mesmos tipos de habilidades que a educação tradicional em artes liberais sempre cultivou. Essas habilidades podem ser consideradas a "santíssima trindade" das competências autênticas em IA, e não apenas a alfabetização. São elas: pensamento crítico, raciocínio contextual e julgamento ético.
Além disso, essas habilidades consistem na capacidade de fazer as perguntas certas em vez de se contentar com a primeira resposta plausível. O filósofo alemão Martin Heidegger enfatizou esse ponto com sua famosa, porém enigmática, frase: "A dúvida é a devoção do pensamento".
O conceito de "co-inteligência" de Mollick ou a colaboração entre inteligência humana e artificial, não nega a necessidade da cognição humana. Na verdade, reforça o valor daquilo que são, inegavelmente, capacidades humanas. Como explica Mollick, "a melhor maneira de trabalhar com inteligência artificial é tratá-la como uma pessoa... ao mesmo tempo, é preciso lembrar que se está lidando com um software". Navegar pelas complexidades da inteligência artificial sofisticada exige uma capacidade igualmente sofisticada de julgamento crítico.
Claro, isso é o que o ensino superior poderia ensinar, se não estivesse tão ocupado defendendo seu esquema de diplomas. De acordo com um estudo de agosto de 2025 da Academia Americana de Faculdades e Universidades, 93% dos gerentes de contratação consideram "comunicação escrita e oral, pensamento crítico e julgamento/tomada de decisão ética" as habilidades mais importantes que buscam em recém-formados.
Vamos pensar sobre isso. Não programação. Não ciência de dados. Pensamento crítico!
A McKinsey prevê que a demanda por inteligência social e emocional nos Estados Unidos aumentará 14% até 2030, à medida que os empregadores buscam graduados que possam "pensar criticamente e trazer um toque humano para desafios complexos". O Relatório de Aprendizagem no Local de Trabalho de 2023 do LinkedIn confirma que gestão, comunicação, liderança, pesquisa e análise continuam entre as habilidades mais procuradas em todos os setores. "Essas são precisamente as habilidades que a educação em artes liberais desenvolve."
Até mesmo executivos do setor de tecnologia seguiram essa tendência. Muitos CEOs de grandes empresas de tecnologia, as mesmas pessoas que constroem sistemas de IA, têm formação em história, literatura ou ciências sociais, em vez de áreas técnicas. Sua formação em humanidades lhes deu "as ferramentas para liderar equipes, antecipar consequências sociais e tomar decisões que vão muito além dos limites da expertise técnica".
A revolução da IA trará, como afirma um pesquisador da área da educação, "um verdadeiro renascimento das humanidades". Por quê? Porque a IA não consegue pensar de verdade. Ela só consegue responder. A IA pode gerar respostas complexas, mas não consegue avaliar sua veracidade. A IA pode obedecer a regras éticas, mas permanece desprovida de valores ou intenções. A IA pode imitar empatia, mas carece de experiência de vida. Ela pode sintetizar informações, mas não consegue determinar quais problemas valem a pena resolver.
Como concluiu um estudo acadêmico recente que analisou 640 artigos sobre IA, "o pensamento crítico é concebido como um processo intencional, avaliativo e autorregulado que deve ser preservado apesar da crescente dependência de ferramentas de IA". O estudo identificou vários desafios importantes, incluindo "a dependência acrítica da IA, as disparidades na alfabetização digital e a falta de transparência do sistema". A solução proposta foi ao mesmo tempo surpreendente e previsível: "estruturas instrucionais inclusivas e adaptativas que integrem a IA de maneiras que apoiem o pensamento crítico".
É aqui que a educação em humanidades, se feita corretamente e sem a influência da propaganda woke, se torna indispensável. Cursos que ensinam os alunos a criticar as "conquistas" da IA e a "fortalecer suas habilidades de raciocínio e pensamento crítico" são a tendência do futuro, de acordo com um artigo sobre o uso de IA na Universidade Gonzaga. Os alunos percebem que "as tecnologias de IA não 'pensam' como nós e não têm uma preocupação séria com a verdade". O corpo docente da Gonzaga enfatiza que "os alunos precisam saber quando e como usar a IA de forma crítica e responsável, como combater sua destruição ambiental e como questionar e transformar suas falhas".
Ensinar os jovens a pensar
A ironia para administradores e gerentes de RH obcecados por credenciais é que as instituições que sobreviverão à transformação da IA são justamente aquelas que tiverem a coragem de abandonar a pretensão de treinamento profissional e retornar à sua missão original: ensinar as mentes jovens a pensar. Elas não se concentrarão mais em como memorizar informações que podem ser encontradas no Google, ou como executar tarefas que podem ser feitas por máquinas, mas em como ensinar seus alunos a exercer um julgamento sólido. Será simplesmente uma questão de ensiná-los a distinguir a verdade de invenções automatizadas ou baseadas em memes.
Trata-se de aprender a fazer perguntas que a IA jamais pensaria em fazer. Como observa David Meerman Scott, "a IA consegue resumir dados, mas ainda não consegue decidir quais problemas valem a pena resolver. Ela consegue escrever código, mas não consegue imaginar categorias inteiramente novas de produtos e serviços. Ela consegue analisar mercados financeiros, mas não entende as motivações humanas por trás das decisões econômicas."
As universidades que compreenderem isso e mudarem o foco da concessão de diplomas para o fomento da inteligência conjunta não apenas sobreviverão, como prosperarão. Os dinossauros que pastam no pântano e observam o asteroide cair do céu têm uma escolha: evoluir ou perecer. Alguns perceberão que, na verdade, não são dinossauros. São a nova espécie no meio acadêmico, aguardando para herdar a Terra.