25 Agosto 2026
O desfecho de desavenças e traumas de uma família gaúcha que se amava e foi dividida ao meio pela política.
O artigo é de Moisés Mendes, jornalista, publicado por ExtraClasse, 24-08-2026.
Eis o artigo.
A família Sylveira está rachada desde 2018. Em alguns momentos, chegaram a tentar reaproximações, mas os esforços foram sabotados por novos embates. Tios, sobrinhos, cunhadas, irmãos, pais, filhas, primos e agregados foram divididos pelo lulismo e pelo bolsonarismo.
O último tio que não levava a sério as brigas, e que parecia ser neutro, era o tio Amâncio, de Cacequi. Tio Amâncio parecia levar tudo na brincadeira, até que um dia tomou posição.
Seria bolsonarista, por achar que sua neutralidade não lhe oferecia nenhuma vantagem. Seria um bolsonarista moderado, mas de qualquer forma bolsonarista, como eram dois filhos, que brigam com outros dois, um lulista e o mais novo caiadista.
A família Sylveira, com origem em Cacequi, onde morava tio Amâncio, chegou a ser imensa e tem parentes espalhados por todo o Estado. Uma das últimas do Brasil que ainda escrevem o sobrenome com ‘y’ e têm até brasão da família.
A adesão de tio Amâncio ao bolsonarismo traumatizou o lado lulista, que um dia decidiu se reunir para saber se continuavam conversando com o parente antes tão admirado. Haviam descoberto que Amâncio não era nada moderado.
Lulistas e bolsonaristas dos Sylveira têm uma espécie de escala que mede, dos dois lados, o grau de lulismo e bolsonarismo uns dos outros. Todos sabem que uns avaliam os outros, numa graduação de um a cinco.
Tia Alzira, irmã de Amâncio, era bolsonarista em grau três até o ano passado, e este ano passou para o grau quatro. Um filho de Amâncio é grau cinco, com posições contra gays, contra cotas para negros nas universidades e contra vacinas.
Esse filho também era terraplanista e participou dos acampamentos. Mas havia nos Sylveira gente com graduação de um ou dois, de ambos os lados, porque agiam como bolsonaristas ou lulistas com certa moderação.
Mas o caso em exame agora era o do tio Amâncio, que parecia ter aderido ao bolsonarismo já em grau quatro. O que iriam fazer com ele entre os lulistas? Iriam parar de conversar, como fizeram com a tia Alzira?
Mas como ficaria tia Eugênia, mulher do Amâncio, que decidiu continuar neutra e eleitora do Romeu Zema? Pois fizeram a reunião em Porto Alegre, chamando todos os Sylveira que poderiam participar.
Teve até gente chorando, porque o tio Amâncio ajudava todo mundo, era solidário, prestativo, engraçado e amoroso. Mas era preciso decidir de acordo com os mesmos critérios que levaram ao rompimento com outros parentes bolsonaristas. E os bolsonaristas faziam o mesmo com os lulistas.
Passaram a avaliar o que poderiam perder sem o contato com tio Amâncio e como isso poderia afetar a vida dele. Chegaram a considerar se ele não estaria desorientado ou caduco, como disse alguém que foi repreendido pelos outros.
Essa reunião acontecia durante um almoço, na casa do Sylveira que coordenava as atitudes dos lulistas, um sobrinho de Amâncio, porque os bolsonaristas de Cacequi, principalmente esses, haviam se tornado insuportáveis.
Pois no momento em que se dava a reunião, já com encaminhamento de votação para saber se tio Amâncio seria cancelado, o telefone fixo tocou. Os Sylveira ainda tinham telefone fixo na casa onde acontecia a reunião.
O dono da casa atendeu. Era o tio Amâncio. Ouviu-se um oh!! abafado na varanda. Amâncio perguntou por todos, ficou sabendo que muita gente estava na casa e logo anunciou por que havia ligado: faria um churrasco no domingo, pelos 49 anos de casamento com Eugênia.
Alguém pediu para que colocassem o telefonema no viva-voz, para que todos ouvissem, e tio Amâncio disse a frase que era sua marca nos Sylveira: “Ou vocês me aparecem aqui ou eu não considero vocês da família”. E ainda completou: “Eu amo vocês”.
Amâncio achava que a família era tudo e levava a sério qualquer iniciativa dos Sylveira, em qualquer área, que significasse parentes reunidos e fortalecidos, em aniversários, formaturas e velórios.
Os que estavam na reunião saudaram tio Amâncio meio sem jeito, fizeram intervenções protocolares, a conversa tratou do tempo e até de futebol, sempre com os chistes do tio Amâncio, e finalmente o tio desligou e se formou um silêncio na sala.
Era preciso tomar uma decisão. Alguém sugeriu que pensassem e decidissem no dia seguinte, porque não era hora para radicalismos, mesmo que também o tio Amâncio tivesse se tornado uma figura complicada como líder de um grupo de tios do zap da região da Campanha.
Aparentemente ainda amável, mas às vezes repulsivo. O telefonema poderia ser uma armadilha. E se esperassem pelo aniversário dos 50 anos de casamento, no ano que vem, depois da eleição? As coisas poderiam estar mais acomodadas.
E foram embora com a decisão tomada por maioria: não iriam à festa. Era sacrifício demais, não pelo tio, mas pelos parentes que não gostariam de ver. Mas no dia seguinte pela manhã o telefone tocou de novo.
Era da casa do tio Amâncio. Um filho dele, o único lulista, avisava que o pai havia morrido de infarto fulminante tomando mate e envelopando cartões com os convites para o churrasco.
“Ele estava lidando com os cartões para vocês”, disse o filho. “Estava faceiro porque vocês viriam para a festa”. O dono da casa, o sobrinho de Amâncio, disse não acreditar, que ontem mesmo eles haviam conversado, que ele parecia tão bem. E lembraram coisas da vida do tio, suas brincadeiras e suas gargalhadas. E claro que não disse que haviam decidido não ir a Cacequi para a comemoração.
No outro dia, todos os Sylveira de Porto Alegre foram ao velório do parente em Cacequi. Foi ali, no enterro do tio Amâncio, que ficou decidido o seguinte: todas as desavenças políticas com danos seriam avaliadas, para possível rompimento de relações, como acontece há muito tempo em quase todas as famílias brasileiras. Mas nunca quando morresse um parente importante e com a dimensão de Amâncio.
E passaram, a partir dali, a fazer uma lista dos que poderiam morrer logo e mereceriam ou não presença no enterro. Criou-se uma lista de intocáveis, pelo menos depois de morto. Sabendo que do lado de lá, dos bolsonaristas, acontecia coisa parecida.
Tio Amâncio foi enterrado com a bandeira do Brasil sobre o caixão e um boné vermelho do Trump, que ele havia comprado quando do segundo tarifaço. Parecia uma pessoa que depois de morta havia virado uma caricatura. Tia Eugênia anunciou no velório que estava trocando Zema pelo Renan Santos.
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