07 Agosto 2026
"O que aconteceu com tantos fiéis que não participaram dessa disputa com base na verdade e nos fatos, mas sim repetiram mentiras e slogans falsos? O que aconteceu com tantos cristãos que, embora afirmem defender a vida desde o nascimento, apoiam a guerra contra os nascituros? E quanto aos fiéis que, embora afirmem sua fé em Deus Criador, não defendem a natureza e o cuidado com a nossa casa comum? E quanto aos tantos fiéis que continuam a apoiar o sistema neoliberal, que comprovadamente enriquece poucos e empobrece a maioria?", escreve Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 03-08-2026.
Eis o comentário.
Nas recentes eleições na Colômbia, houve uma significativa manipulação da fé em nome da política. Mas isso não aconteceu apenas na Colômbia. Esse fenômeno também foi observado no Brasil e em outras partes do continente. Portanto, é importante tentar esclarecer a relação entre fé e política, e as manipulações da fé que são realizadas por políticos.
O ponto de partida é que fé e política estão relacionadas, pois uma pessoa que crê vive sua fé no mundo e, portanto, a fé abrange todas as dimensões da vida humana: a social, a política, a cultural, a econômica e assim por diante. Logo, as escolhas de uma pessoa de fé são guiadas por sua fé, e ela deve buscar tudo o que esteja em consonância com ela. Mas isso exige duas posições claras. Primeiro, não devemos tentar tornar a sociedade "confessional" porque vivemos em sociedades seculares, pluralistas e diversas. Devemos exigir liberdade religiosa e liberdade de culto, e não tentar fazer com que o Estado se identifique com a Igreja. Segundo, devemos ter formação suficiente tanto em nossa própria fé quanto em política para sermos capazes de tomar decisões coerentes, maduras e bem fundamentadas.
A primeira condição que apontamos é assumida pela Igreja na constituição pastoral Gaudium et Spes (um dos documentos do Vaticano II), na qual reconhece a autonomia do mundo e abandona suas pretensões de “cristianizá-lo”, no sentido de não dar espaço à pluralidade de visões, nem rejeitar os avanços da ciência ou posições seculares que entendem um mundo sem Deus, sem que isso signifique renunciar aos valores da dignidade humana e do bem comum.
No que diz respeito à formação suficiente, tanto na fé própria quanto em questões sociopolíticas, convém dizer o seguinte. Com respeito à fé cristã, precisamos nos libertar da fé introspectiva e individualista que moldou a experiência religiosa de muitos fiéis. O Evangelho é, sobretudo, comunitário, com muitas implicações sociais, pois se preocupa com os mais pobres e nos convida a transformar essa situação. De fato, os milagres de Jesus transformariam a realidade existente, na qual a doença, sobretudo, significava exclusão da comunidade. Jesus cura para integrar as pessoas à comunidade, para restaurar sua dignidade. E não menos importantes são as palavras de Jesus que denunciam a opressão, a pobreza, a injustiça e, sobretudo, o uso do culto para fins lucrativos e seu distanciamento da vida. A expulsão dos mercadores do Templo (Marcos 11,15-17) é um sinal profético com o qual Jesus denunciou o culto vazio que dividia o povo entre os que podiam oferecer muitas dádivas e os que não tinham com o que viver.
A formação na doutrina social da Igreja também é urgentemente necessária, visto que a falta de familiaridade com ela é evidente entre muitos cristãos. O Papa Francisco recordou a Doutrina Social nas suas encíclicas Laudato si' (2015) e Fratelli Tutti (2020). Na primeira, falou sobre o cuidado com a nossa casa comum e, na segunda, abordou muitos aspetos relacionados com a dignidade humana, os direitos universais, a política ao serviço do bem comum, a construção da paz, entre outros. Leão XIV, na sua encíclica Magnifica Humanitas (2016), lembrou-nos todos os documentos da doutrina social da Igreja e acrescentou um desafio atual: a Inteligência Artificial, tão crucial neste momento.
Mas, considerando o que aconteceu nas últimas eleições, surgem algumas questões muito preocupantes: O que aconteceu com tantos fiéis que não participaram dessa disputa com base na verdade e nos fatos, mas sim repetiram mentiras e slogans falsos? O que aconteceu com tantos cristãos que, embora afirmem defender a vida desde o nascimento, apoiam a guerra contra os nascituros? E quanto aos fiéis que, embora afirmem sua fé em Deus Criador, não defendem a natureza e o cuidado com a nossa casa comum? E quanto aos tantos fiéis que continuam a apoiar o sistema neoliberal, que comprovadamente enriquece poucos e empobrece a maioria?
Alguns leitores podem dizer que estou defendendo um candidato, e essa é uma opinião legítima. Mas esse não é o ponto. O ponto é nos fazermos perguntas que, pessoalmente, senti que estiveram ausentes na última eleição. São perguntas que visam nos encorajar a refletir se acreditamos ter entendimento suficiente para tomar decisões, mas, acima de tudo, se estamos realmente manipulando a fé para obter ganhos políticos. E quero enfatizar que não acho apropriado que pessoas de fé façam afirmações como: Deus escolheu este candidato, Deus apoia este candidato, este candidato restaurará a cristandade, a Virgem Maria está com este candidato, e assim por diante. Devemos ter cuidado para não usar linguagem bíblica para justificar decisões tomadas em qualquer governo. Quando começamos a falar sobre os "escolhidos", os "bem-aventurados", os "salvadores", estamos manipulando nossa fé.
Ofereço estas reflexões para que possamos adotar uma postura verdadeiramente fundamentada na fé: o presidente eleito foi escolhido pelos eleitores, não por Deus, e nossa oração por ele não pode se basear na crença de que ele é o escolhido, mas sim em pedir que ele seja coerente com a dignidade humana e os direitos humanos, pois ele deve governar para um povo diverso e não para um “grupo religioso”. Mas a maior oração que devemos oferecer é por cada um de nós, porque são as nossas escolhas que constroem o futuro e, infelizmente, parece que nos falta discernimento para tornar nosso país justo e pacífico. A Conferência Episcopal Latino-Americana, realizada em Puebla (1979), já afirmava: “Vemos como um escândalo, à luz da fé, a imensa desigualdade entre ricos e pobres” e “é incompreensível que em um continente tão devoto haja tanta injustiça”. Mais de quarenta anos se passaram e nosso país e continente continuam a perpetuar essa desigualdade. O que há de errado conosco, crentes, que não conseguimos votar com sabedoria para que nosso país seja justo e pacífico? É aí que nossas orações deveriam se concentrar muito mais, e talvez um dia saibamos como tomar as decisões que Deus quer.
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