Do Golfo a Gaza: é um maldito engodo. Artigo de Alberto Negri

O presidente Donald J. Trump se reúne com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, na terça-feira, 28 de julho de 2026, no Salão Oval. (Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr)

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04 Agosto 2026

"Os ataques de EUA e sauditas no Iraque estão empurrando a região para um território inexplorado e complicam uma guerra que está se expandindo de forma imprevisível. É, portanto, necessário criar, na visão dos Estados Unidos e de seus aliados, um terreno favorável envolvendo outros Estados numa coalizão internacional", escreve Alberto Negri, filósofo italiano em artigo publicado por Il Manifesto, 01-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A frente diplomática e militar está se ampliando, envolvendo a habitual e já testada armadilha de Trump para os palestinos. No entanto, o engodo também diz respeito à Itália que, à revelia do Parlamento - discretamente ocultada em meio às audiências das comissões exteriores e defesa - há meses vem mobilizando uma missão "defensiva", tropas, aeronaves e equipamentos, para a Arábia Saudita (bem como para o Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Catar). Uma espécie de força-tarefa fantasma.

Tudo isso enquanto a guerra no Golfo se complica, com desfechos potencialmente imprevisíveis. Os sauditas, apoiados pelo Ocidente, descobriram uma vocação prussiana bombardeando o Iraque com os EUA e agora se preparam para uma ofensiva no Iêmen. Assim, Riad está lançando uma coalizão multinacional para a defesa marítima apoiada por 14 Estados (entre os quais Turquia, Paquistão e Egito) e solicitando aos europeus (Alemanha, França, Reino Unido e Itália) que integrem uma coalizão no Mar Vermelho onde a UE já mantém uma missão naval (Aspides, sob comando italiano), mas ainda não está claro se os Houthis do Iêmen estão impondo um bloqueio geral ou apenas contra a Arábia Saudita.

Isso explica o anúncio feito por Trump de um acordo "histórico" em relação a Gaza: visa criar uma coalizão árabe (e internacional) com os sauditas, a ser mobilizada contra o Irã e as milícias pró-xiitas. Teoricamente, Israel deve ficar de fora e esse teria sido o foco do encontro que Trump manteve com Netanyahu e, logo depois, com o ministro da Defesa saudita, Khalid bin Salman.

O tempo está se esgotando e, como o jornal Haaretz escrevia ontem, o presidente dos EUA confia cada vez menos em Bibi e em seus planos em relação ao Irã, que até agora fracassaram miseravelmente. O fato de os sauditas afirmarem querer evitar uma escalada também faz parte da estratégia de Trump, que quer manter pelo menos duas opções em aberto: um ataque militar em larga escala contra o Irã e uma via diplomática para chegar a um eventual acordo com Teerã, declarar vitória e retirar-se, uma solução - já demasiado adiada - que lhe permitiria chegar às eleições de meio de mandato com o conflito resolvido.

E quanto ao Estreito de Ormuz? Para resolver o problema que paralisa a economia global, a solução do primeiro-ministro israelense é simples: "Não acredito que, ao final da guerra, os estreitos representarão um fator tão poderoso, pois os Estados do Golfo desviarão seus oleodutos do Estreito de Ormuz para o Mar Vermelho e, de lá, para Israel e o Mediterrâneo", declarou Netanyahu em entrevista à ABC News.

O plano já está em andamento - os sauditas exportam cinco milhões de barris por dia via Mar Vermelho e Canal de Suez - mas Riad precisa se livrar dos Houthis e das milícias iraquianas pró-Irã. Consequentemente, os EUA e a Arábia Saudita realizaram ataques conjuntos contra as Forças de Mobilização Popular do Iraque, fundadas em 2014 para combater o ISIS.

Por quê? Em setembro de 2019, os sauditas sofreram um desagradável golpe quando uma frota de drones foi lançada contra suas instalações petrolíferas mais vitais, Abqaiq e Khurais, paralisando metade de suas exportações de petróleo. Na época, o ataque foi inicialmente atribuído aos Houthis do Iêmen, mas descobriu-se posteriormente que havia partido de milícias pró-Irã no Iraque.

Uma guerra para proteger as reservas de petróleo sauditas está em curso no Golfo. E participam dela, segundo relatos da imprensa, quase todas as potências europeias. Os sauditas apresentam sua virada "prussiana", como uma reação a ataques específicos, e não como uma entrada no mais amplo conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. No entanto, os ataques conjuntos com os EUA no Iraque marcaram a primeira vez que o Reino reconheceu seu envolvimento direto na guerra, embora a Arábia Saudita já tivesse realizado ataques secretos contra o Irã no início do conflito.

Qual é o objetivo por trás dessas manobras? Os ataques de EUA e sauditas no Iraque estão empurrando a região para um território inexplorado e complicam uma guerra que está se expandindo de forma imprevisível. É, portanto, necessário criar, na visão dos Estados Unidos e de seus aliados, um terreno favorável envolvendo outros Estados numa coalizão internacional. Afinal, para poder cooptar pelos menos os árabes e os europeus mais relutantes para o seu lado, alguma coisa precisa ser feita.

Primeiro, Trump ofereceu a Riad tecnologia nuclear para fins civis, mas imediatamente condicionou a oferta ao reconhecimento de Israel. Nenhum grande sucesso, especialmente pela oposição israelense. Agora, o presidente dos EUA volta a apresentar a Faixa de Gaza, terra de martírio e genocídio, propondo um mirabolante acordo para o desarmamento do Hamas, condicionado à retirada de Israel, que atualmente ocupa mais de 70% do território com tropas, muros e barreiras. No entanto, Israel só concordará em se retirar se houver o desarmamento total do Hamas. Na melhor das hipóteses, esse seria um processo complexo, envolvendo o envio de uma força internacional que poderia levar um ano para ser concluído.

A dura realidade é que, com as eleições se aproximando em outubro, é pouco provável que Netanyahu faça qualquer concessão. E dessa forma a guerra do Golfo se transforma para os palestinos em uma armadilha, um maldito engodo, na Faixa de Gaza e em todo o Oriente Médio.

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