Netanyahu está se preparando para as eleições de outubro com os olhos voltados para Gaza

Foto: Rawpixel

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25 Julho 2026

Sem interromper os bombardeios e com uma "reconstrução" paralisada, o futuro do enclave se coloca como uma peça fundamental da próxima campanha eleitoral em Israel.

A reportagem é de Queralt Castillo Cerezuela, publicado por El Salto, 24-07-2026.

Após dissolver o Parlamento no dia 17 de julho, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já aquece os motores para as eleições do próximo dia 27 de outubro. O Knesset não voltará a se reunir antes do pleito, e Netanyahu prepara a disputa eleitoral com os olhos voltados para uma Gaza completamente destruída, vítima não só de um genocídio, mas também de um processo de reconstrução praticamente paralisado.

Em Israel não há limite de mandatos, e Netanyahu já é o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no poder na história do país; ainda assim, nunca conseguiu completar um período de quatro anos. Segundo o Israel Democracy Institute, os israelenses vão às urnas em média a cada 2,4 anos; e, entre 2019 e 2022, votaram em cinco ocasiões. As pesquisas pré-eleitorais mostram, até agora, um claro apoio aos partidos de oposição, liderados pelo ex-primeiro-ministro Naftali Bennett.

Gaza, uma peça eleitoral fundamental

Enquanto Tel Aviv se prepara para eleições já consideradas históricas, os quase dois milhões de habitantes de Gaza que, por ora, sobrevivem às matanças, quase todos deslocados de seus locais de origem por causa da violência, aguardam os próximos passos da "Junta para a Paz", o organismo criado por Donald Trump que deveria traçar um roteiro de recuperação para o enclave, mas cujos passos têm se mostrado insignificantes. Enquanto isso, apesar de ter assinado um cessar-fogo em outubro de 2025, o Estado sionista continua bombardeando Gaza e causando vítimas fatais dia após dia. No último dia 21 de julho, sem ir mais longe, as IDF mataram uma família de seis integrantes na Cidade de Gaza por meio de um ataque aéreo: aniquilaram o casal e seus quatro filhos. Como de costume, o exército sionista alegou que o alvo era um integrante do Hamas, pretexto usado constantemente para atacar a população civil palestina.

Desde a assinatura do cessar-fogo, mais de 1.200 pessoas foram assassinadas, e as Forças Armadas Israelenses (IDF) vêm tomando o território de Gaza. Já controlam 60% do enclave, e o objetivo é chegar a 70%, segundo reconheceram diversos integrantes do governo. Os ataques diários não cessam e o bloqueio continua: dezenas de caminhões com ajuda humanitária permanecem parados na fronteira com o Egito, e milhares de palestinos tentam sem sucesso sair do enclave para buscar atendimento médico urgente.

Diante da possibilidade de uma derrota eleitoral em 27 de outubro, uma das estratégias de Netanyahu é manter sua política genocida em Gaza para ganhar posições. Com uma opinião pública majoritariamente favorável à continuidade do cerco ao enclave, parece evidente que uma das prioridades do primeiro-ministro nas próximas semanas será dinamitar qualquer passo em direção a uma eventual reconstrução do território palestino. E não só isso: há poucos dias, no domingo, 19 de julho, centenas de israelenses ultranacionalistas, acompanhados pelo ministro da Segurança Nacional israelense Itamar Ben-Gvir, pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich e outros integrantes do gabinete de governo, marcharam até a fronteira com Gaza para reivindicar a reconstrução dos assentamentos desocupados em 2005.

O movimento que reivindica a recolonização de Gaza é liderado por um rosto bastante conhecido, o de Daniella Weiss, ultranacionalista que insiste abertamente na necessidade de aniquilar toda a população palestina. Tanto Ben-Gvir quanto Smotrich, sob sanções de diferentes países da UE, consideram que a destruição de Gaza representa uma "oportunidade histórica" para reinstalar os assentamentos e dar continuidade à sua política expansionista e de aniquilação do povo palestino. A marcha teve o apoio do Likud, partido de Netanyahu.

O roteiro da "reconstrução", em suspenso

Nesse cenário, uma eventual retirada do território de Gaza, tal como previa o roteiro para a reconstrução do enclave, é altamente improvável. Se isso não acontecer, tampouco o Hamas, que recentemente elegeu como líder Jalil Al Hayya, um de seus principais negociadores e integrante do grupo desde sua fundação há quatro décadas, procederá ao seu desarmamento, já que a retirada dos israelenses era uma das condições sine qua non para que a organização entregasse as armas. Isso coloca o território diante de um retorno mais que provável à guerra aberta, ainda que, em 6 de julho, o Hamas tenha dado um passo à frente e cedido o poder ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas sob as ordens da Junta de Paz. Apesar da cessão de poder, o grupo não entregou as armas nem iniciou o desarmamento exigido por Israel, já que nenhum dos termos assinados no cessar-fogo foi cumprido.

Segundo revelou o The Guardian, um dos primeiros passos a ser executado é a construção de um acampamento-piloto perto de Rafah, ao sul do enclave, para abrigar os deslocados, que ficaria sob controle da Força de Estabilização Internacional (ISF, na sigla em inglês); mas, ao que tudo indica, as obras ainda não começaram. O roteiro prevê que até 5.000 efetivos internacionais, um terço do que estava previsto inicialmente, componham a ISF, e que no campo-piloto haja "liberdade de movimento". Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos já classificaram a iniciativa como um "campo de concentração" para os habitantes de Gaza.

Enquanto o gotejamento de mortes continua em Gaza e a Junta de Paz permanece sem dar nenhum passo significativo, a Oxfam Intermón, junto com o Instituto Palestino de Pesquisa em Políticas Econômicas (MAS) e o Centro Palestino de Comércio (PalTrade), acaba de publicar Building Gaza Anew: A Framework for a Palestinian-led Recovery Before Reconstruction (Reconstruir Gaza: um marco para uma recuperação liderada pelos palestinos antes da reconstrução), relatório que alerta que a reconstrução de Gaza exigirá 71,4 bilhões de dólares, "uma cifra que, em termos reais, equivale a sete vezes o custo combinado da reconstrução após todas as grandes ofensivas militares israelenses registradas no território ao longo das duas últimas décadas [2008-2009, 2014 e 2021]".

Da organização, ressaltam que "essa cifra reflete apenas uma parte da destruição: os danos físicos e as perdas econômicas. Não contempla a destruição deliberada do tecido social que mantinha Gaza unida, cuja recuperação levará gerações [...]". As necessidades de recuperação após as guerras de 2008-2009, 2014 e 2021 somavam, em valores atuais, "cerca de 10 bilhões de dólares". A recuperação de Gaza, insiste a Oxfam, é "uma questão de direitos e reparações, e não de caridade", e a entidade aponta os cúmplices: aqueles que "nunca exigem responsabilidades". Porque "a reconstrução não é apenas uma tarefa humanitária; é também uma questão política".

Há ainda a parte das perdas que não é quantificável, após quase três anos de genocídio praticamente ininterrupto. Assim, "o conhecimento acumulado, os sistemas de cuidado, o meio ambiente e os vínculos comunitários, além das mesquitas, igrejas, bibliotecas e instituições culturais que davam vida à sociedade de Gaza" foram reduzidos a nada. "Quase todas as escolas foram destruídas ou danificadas, as universidades foram arrasadas, milhares de docentes, professores e pesquisadores foram assassinados, e bibliotecas e arquivos fundamentais para a história palestina foram perdidos", lê-se no relatório. "O que foi destruído em Gaza não foi apenas aço e concreto. Israel arrasou um mundo social e econômico construído ao longo de gerações, e só o povo palestino pode reconstruí-lo", afirma Mohammad Skaik, responsável pelo Programa de Gaza do PalTrade.

Israel arrasou vidas humanas, o conhecimento e os saberes acumulados por diferentes gerações, e também deixou um território devastado no qual custará ver a vida voltar. "Os pomares levarão décadas para crescer; estufas e a camada fértil do solo foram destruídas; as terras agrícolas estão contaminadas por metais pesados e restos de explosivos; o aquífero costeiro está à beira do colapso, e os esgotos sem tratamento desembocam no mar, favorecendo o retorno de doenças antes erradicadas, como a poliomielite."

Desde o início do genocídio, em outubro de 2023, mais de 73 mil palestinos e palestinas foram assassinados em Gaza, entre os quais mais de 20 mil crianças. Com seus ataques, Israel feriu mais de 173 mil pessoas, e 1,9 milhão foram deslocadas à força. Em relação aos feridos, uma em cada quatro lesões terá consequências permanentes, e mais de 50 mil pessoas precisarão de reabilitação de longo prazo. Segundo a Oxfam, "o desenvolvimento humano do território retrocedeu o equivalente a 77 anos". No dia 16 de setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza.

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