25 Julho 2026
O cardeal Julius Döpfner foi um dos mais importantes homens da Igreja alemã depois de 1945. Sua influência se faz sentir até hoje. Já muito venerado em vida, há alguns anos também vêm à tona os seus lados sombrios.
A reportagem é de Christoph Renzikowski, publicada por katolisch.de, 24-07-2026.
24 de julho de 1976, pouco antes das oito da manhã: o cardeal de Munique, Julius Döpfner, quer ir logo no primeiro dia de suas férias a uma clínica próxima. Há dias, fortes dores no braço direito o atormentam. Mal deixa seu palácio na Kardinal-Faulhaber-Straße, ele dá meia-volta e se deita no sofá da portaria. Sente-se mal. Seu secretário chama o médico de emergência, tarde demais. Infarto. A notícia de sua morte repentina causa forte comoção muito além da Baviera e da Alemanha. Döpfner está entre as grandes personalidades da Igreja Católica, e isso em nível internacional.
Pode-se contar sua vida em superlativos: em 1948, com apenas 35 anos, é ordenado bispo mais jovem da Europa em sua diocese natal, Würzburg. Nove anos depois, o Papa Pio XII o envia a Berlim; em 1958, é elevado a cardeal, aos 45 anos. Nenhum outro portador barrete cardinalício é tão jovem. Mas já em 1961 ele precisa, com certa relutância, deixar a cidade dividida. O Papa João XXIII o quer como arcebispo de Munique. Uma carreira eclesiástica meteórica.
Marcos históricos do catolicismo no pós-guerra
O nome Döpfner está ligado a marcos históricos do catolicismo no pós-guerra. No Concílio Vaticano II (1962-1965), com o qual a Igreja Católica finalmente chega à modernidade e passa da postura defensiva ao diálogo, ele exerce um papel-chave como um dos quatro moderadores. Na Cúria Romana, é preciso superar resistências consideráveis ao rumo aberturista. Já na fase preparatória, o baixo-franco exerce grande influência.
Para implementar as decisões do Concílio Vaticano II na Alemanha, o Cardeal Döpfner convocou um sínodo em Würzburg em 1971 | KNA/Hans Knapp
Para implementar as decisões do Concílio Vaticano II na Alemanha, o cardeal Döpfner convocou, em 1971, um sínodo em Würzburg.
Ainda durante o Concílio, os bispos alemães o elegem seu presidente. Para implementar as decisões na Alemanha, Döpfner convoca, em 1971, um sínodo em Würzburg. Todos os participantes, padres e leigos, têm o mesmo direito de voto. O que hoje soa revolucionário tinha, na época, a bênção oficial do papa. O filho de um zelador se vê menos como um progressista do que como representante de um "centro aberto". Mas manter o sínodo unido vai se tornando, cada vez mais, um esforço hercúleo. Döpfner, já debilitado pela saúde, sobrevive por poucos meses ao encerramento do sínodo, no fim de 1975, aos 62 anos. Em seu círculo próximo, dizia-se que as controvérsias o haviam desgastado.
Direto, de caráter firme, teologicamente versado, comprometido com os pobres, assim Döpfner é descrito até hoje. Seus méritos, sobretudo por uma nova autocompreensão da Igreja, que precisa sempre de reforma, são incontestáveis. A profissão de Pastoralreferent (assessor pastoral leigo), hoje indispensável na pastoral, não existiria sem ele.
Sombras sobre essa imagem
Ainda assim, sombras vêm se projetando sobre essa imagem nos últimos tempos. Estudos sobre abusos encomendados pela própria Igreja não atestam um bom histórico a Döpfner. Para a situação em Munique, juristas externos concluíram, em 2022, que sob Döpfner houve até retrocessos no trato com os agressores. Estes eram regularmente reconduzidos à atividade pastoral sem restrições. Também houve muito mais transferências do que antes, além da incorporação de padres que haviam cometido crimes em outros lugares, inclusive vindos do exterior.
Em 1968, o arcebispo de Munique providencia que seu vigário-geral, Matthias Defregger, seja promovido a bispo auxiliar. Döpfner omite, em Roma, o passado de Defregger como capitão da Wehrmacht. Em 1944, Defregger participara de uma ação de represália a um ataque contra um posto alemão nos Abruzzos. Dezessete moradores homens da vila de Filetto foram liquidados. Quando a revista Der Spiegel traz essa história à capa em 1969, surgem debates acalorados, e promotores alemães também investigam o caso.
O escritor Heinrich Böll deixa a Igreja por causa disso, mas Döpfner mantém seu apoio a Defregger. Por muito tempo prevaleceu, na opinião pública, a versão de que Defregger havia sido injustamente colocado no banco dos réus. Ele teria até tentado salvar vidas, até que seu superior ameaçou colocá-lo contra a parede junto com os italianos. Hoje, historiadores classificam o fuzilamento em massa como crime de guerra, e Defregger, no mínimo, como coautor.
"Queria-se um pouco de paz e sossego, mas não é assim que funciona"
Enquanto a Justiça o investigava, os moradores de Filetto recebiam gestos de boa vontade vindos de Munique. Havia algum dinheiro, e visitantes vindos da Baviera traziam pequenos presentes, como bolas de árvore de Natal. Quando os investigadores encerram o processo por "inocência comprovada", cessam também os auxílios. A historiadora de Augsburgo Marita Krauss, que examinou de perto o espólio documental de Döpfner sobre o caso, avalia esse comportamento como influência sobre testemunhas. O cardeal, segundo ela, teria tentado, com todos os meios disponíveis, tirar Defregger da linha de fogo.
"Queria-se ter um pouco de sossego, mas não é assim que funciona", disse o cardeal de Munique Reinhard Marx em 2023, em um encontro com descendentes dos fuzilados, ao pedir-lhes perdão: pela reprovável ação de represália em si e pela conduta insuficiente de seu antecessor de duas gerações, Döpfner, naquele caso.
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