Cardeal Tolentino: "O espanto é o umbigo do mundo"

José Tolentino Mendonça. | Foto: Wikimedia Commons

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25 Julho 2026

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) acolheu o cardeal José Tolentino de Mendonça na manhã de quinta-feira, 23 de julho. O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação falou dos elementos essenciais para a criação de sua obra, em diálogo com a fé, tradição e cultura. O público brasileiro acaba de ganhar sua primeira antologia, Os enigmas singulares.

A reportagem é de Bianca Fraccalvieri, publicada por Vatican News, 24-07-2026.

"Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender a escuras perícias
A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito
Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas do bosque
te cubram"

O prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, card. José Tolentino de Mendonça, deu voz ao seu próprio poema "Para ler aos noviços" na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em andamento na cidade histórica do Estado do Rio de Janeiro de 22 a 26 de julho.

O purpurado dividiu a mesa 2 com o escritor brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da poeta Sofia Mariutti. O tema foi "saber de cor o silêncio", verso do poema de Orides Fontela que inspira todos os painéis desta 24ª edição da Flip.

A vida não nos é indiferente

Em cerca de uma hora e meia de encontro, inúmeros foram os temas debatidos, como a força motriz da poesia que, para o cardeal, é justamente o espanto:

"O espanto é o umbigo do mundo, porque quando somos capazes de espanto, estamos vivos. Isto é, a vida não nos passa ao lado. Deixamos que a vida nos interpele, que a vida nos fira. Então, a poesia tem de ser uma iniciação ao espanto."

O espanto, explicou, gera este sobressalto que nos coloca em relação profunda com a realidade, seja exterior, seja interior. E por isso, a escuta e a atenção são formas tão importantes.

"Então, se nós quisermos rezar, nós temos de abrir os olhos e temos de estar atentos aos detalhes, a dobra, ao que passa, porque sempre Deus passa, isto é, sempre o mistério nos visita. Todos os dias acontece o mistério da anunciação."

A poesia, disse ainda o cardeal, requer uma aderência à realidade, pois não é feita só de imaginação, mas de uma "fidelidade rigorosíssima ao que está diante de nós". Como, por exemplo, as feridas com as quais lidamos na nossa existência, já que "a vida não nos é indiferente".

"Essa ferida, que a poesia torna mais viva, penso que é a nossa reserva de esperança para permanecer humanos."

A emoção ao assumir o cargo de "bibliotecário do Vaticano"

A cultura da oralidade na transmissão do conhecimento foi outro tópico debatido. O cardeal português citou o exemplo de sua própria família:

"Eu tive a grande fortuna, a grande sorte de ter uma avó que era analfabeta, mas que foi, em termos absolutos, a minha primeira biblioteca. E quando eu tomei posse como bibliotecário da biblioteca do Vaticano, que é a biblioteca mais extraordinária deste planeta, eu quis naquele momento com muita emoção recordar a minha avó, mas não só recordar a minha avó, recordar todos os analfabetos que são responsáveis pela transmissão da literatura."

Tolentino de Mendonça afirma ainda que a cultura da escrita está "à beira de uma grande revolução" em decorrência da tecnologia. A propósito, indicou a Magnifica humanitas de Leão XIV como "um texto cheio de futuro".

Outro documento pontifício citado foi a encíclica Laudato si' do Papa Francisco, definido como "um dos grandes textos revolucionários da contemporaneidade" por alertar para os perigos do antropocentrismo despótico:

"Então, nós não somos os donos da natureza, do ambiente, do mundo, mas somos guardadores, somos custódios, somos pastores do real, daquilo que nos cerca. Se a poesia nos ajuda a converter o olhar, a perceber o mundo e que nós estamos no mundo com uma missão diferente, penso que dá um grande contributo à humanidade do presente e aquela que virá depois de nós."

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