Xenofobia na África do Sul: ubuntu traído. Artigo de Yanick Nzanzu Maliro

Foto: Thyes | Wikimedia Commons

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21 Julho 2026

"Colocar o ubuntu em prática hoje significa lutar contra as desigualdades, combater os preconceitos e promover uma verdadeira solidariedade entre todos os povos africanos. Somente sob essa condição a filosofia do ubuntu poderá recuperar plenamente seu significado e continuar a inspirar o futuro do país."

O artigo é de Yanick Nzanzu Maliro, teólogo congolês, publicado por Settimana News, 21-07-2026.

Eis o artigo. 

A África do Sul é frequentemente apresentada como o berço do ubuntu, uma filosofia africana que promove a solidariedade, o respeito ao próximo e a humanidade compartilhada. No entanto, há vários anos o país é regularmente palco de violências dirigidas contra cidadãos africanos residentes em seu território.

Esses ataques xenófobos, perpetrados por sul-africanos negros contra outros africanos, parecem estar em total contradição com os valores do ubuntu.

De fato, a palavra "ubuntu", derivada das línguas bantu, pode ser traduzida pela expressão: "Eu sou porque nós somos". Essa filosofia se baseia na ideia de que o ser humano se constrói através dos outros e que cada indivíduo merece dignidade, compaixão e respeito.

Popularizado por figuras como Nelson Mandela e Desmond Tutu, o ubuntu serviu de fundamento moral para a reconciliação nacional após o fim do apartheid. Encarna a esperança de uma sociedade fundada no perdão, na justiça e na convivência pacífica.

Para compreender a situação atual, é necessário revisitar a história da África do Sul. De 1948 a 1994, o país viveu sob o regime do apartheid, um sistema de segregação racial que separava as populações com base na cor da pele. A maioria negra era privada de direitos políticos, confinada a bairros específicos e sujeita a inúmeras discriminações.

Depois de décadas de luta, marcadas especialmente pelo engajamento de Nelson Mandela, as primeiras eleições democráticas de 1994 puseram fim a esse regime. No entanto, o fim do apartheid não apagou as profundas desigualdades econômicas e sociais herdadas daquele período.

Ainda hoje, o desemprego, a pobreza e as desigualdades permanecem muito elevados. Nesse contexto difícil, alguns sul-africanos acusam os imigrantes africanos, sobretudo os vindos do Zimbábue, de Moçambique, da Nigéria, da Somália ou da República Democrática do Congo, de lhes roubar o emprego, de pressionar os salários para baixo ou de serem responsáveis pela insegurança. Essas acusações, muitas vezes exageradas ou infundadas, alimentam um clima de desconfiança.

Em diversas ocasiões, ondas de violência eclodiram em várias cidades do país. Lojas de propriedade de estrangeiros foram saqueadas e incendiadas, enquanto centenas de pessoas foram agredidas ou forçadas a abandonar suas casas.

Esses episódios causaram a morte de diversas pessoas e suscitaram viva preocupação em numerosos países africanos. Os governos dos países vizinhos e organizações internacionais condenaram regularmente tais atos e convocaram as autoridades sul-africanas a proteger melhor as populações estrangeiras.

É preciso dizer que essas violências evidenciam um profundo paradoxo. O país que fez do ubuntu um símbolo de reconciliação tem dificuldade, por vezes, de aplicar essa filosofia a todos os que vivem em seu território. As dificuldades econômicas explicam em parte as tensões, mas não podem justificar ataques contra pessoas por causa de sua nacionalidade.

Numerosos sul-africanos, associações, líderes religiosos e organizações da sociedade civil lembram, aliás, que os imigrantes também contribuem para a economia e que o ubuntu implica o reconhecimento da humanidade de cada um, sem distinção de origem.

A África do Sul permanece uma nação marcada por uma história excepcional de resistência e reconciliação. No entanto, as violências xenófobas lembram que os ideais nunca estão definitivamente conquistados.

Colocar o ubuntu em prática hoje significa lutar contra as desigualdades, combater os preconceitos e promover uma verdadeira solidariedade entre todos os povos africanos. Somente sob essa condição a filosofia do ubuntu poderá recuperar plenamente seu significado e continuar a inspirar o futuro do país.

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