Odisseia: uma jornada em busca de si. Artigo de Alexandre Francisco

Foto: L'odissea di omero, Seiko, 1829 | Wikimedia Commons

21 Julho 2026

Somos nós capazes de atravessar todo labirinto do horror sem nós perdermos no caminho? Somos capazes de aceitar nossas dúvidas sem que elas nos controlem? Somos capazes de abraçar as incertezas da vida sem colapsar diante da dor? Odisseu fez isso, e nos ensina a fazer como ele.

O artigo é de Alexandre Francisco, advogado, mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Do mito de Sísifo em Camus ao complexo de Édipo em Freud. Do nascimento da tragédia em Nietzsche à representação cinematográfica de Medeia em Pasolini. Os gregos há mais de dois mil anos influenciam nosso modo de agir, pensar e existir no mundo. Mas um habitante da Grécia Antiga tivesse a possibilidade de observar a sociedade humana do século XXI, certamente seria um choque. Seu primeiro incômodo seria relativo a observância de um modo de existir humano completamente apartado da vida em comunidade. O segundo certamente seria o espanto ao ver que a cada dia nossa sociedade moderna vê seu próprio modo de existir drenado pela técnica algorítmica instrumental das redes sociais e das plataformas de consumo. Extrair a essência vital da cultura grega pode ser um ato de rebeldia humana frente a nossa realidade cada vez mais artificial.

É inquestionável que o ser denominado "humano" vem perdendo espaço na sociedade contemporânea. Basta uma simples reflexão para chegarmos à conclusão de que o "humano" é um ativo economicamente caro e ineficaz em uma sociedade violentamente capitalista dominada por máquinas. Humanos tem sentimentos, ficam doentes, fazem intriga, precisam ir ao banheiro, tem um nível escasso de energia vital e tem a certeza da morte. Por outro lado, a técnica humana pode se mostrar permanente e estável, monótona e robótica. Desta feita, criamos tecnologias que nos superam em todos os quesitos, e agora, com a inteligência artificial, até mesmo nossa capacidade reflexiva pode ser superada.

No texto Filosofia como forma de vida (III): Do cuidado de si ao deciframento de si, Castor Bartolomé Ruiz, sintetiza a ideia de que a filosofia antiga desde Sócrates (século 470-399 a.C.) até Santo Agostinho (354-430 d.C.) havia uma preocupação dos gregos com a criação de uma vida distanciada de uma mera subsistência biológica ou reduzida a um aspecto animal, com o objetivo de construir um estilo de existência através do qual o sujeito pudesse atingir a Eudaimonia, ou seja, uma vida feliz e autônoma.

"A possibilidade de criar uma forma de vida além da pura necessidade biológica diferencia o ser humano do resto das espécies animais. Não existe um caminho único nem predefinido para criar uma existência feliz, o modo de existência tem que ser criado e reinventado a cada circunstância, daí que tenham sido propostas diferentes escolas filosóficas com variáveis e divergências. Na diversidade de escolas filosóficas antigas, havia alguns pontos de convergência. Um aspecto comum a todas as escolas era a convicção de que o sujeito humano deveria construir-se a si mesmo enquanto sujeito. A subjetividade era concebida como uma tarefa a ser criada, produzida, modelada pela ação do próprio sujeito sobre si mesmo. Neste ponto, a ação da subjetividade era assimilada à criação estética do artista." (Ruiz, p. 10)

Se tivéssemos de trazer uma constatação extremamente preocupante da nossa existência moderna a partir desses conceitos, é que muito possivelmente as novas gerações, a partir de agora, vão se constituir enquanto seres humanos através do que podemos chamar de "pensamento artificial", distanciando-se totalmente da possibilidade de criar uma forma de vida autônoma. Do contrário, a concepção de mundo será plataformizada e planificada, constituída por uma epistemologia do conhecimento artificial, formulada por meio das explicações dadas por não-humanos. As big techs criarão uma realidade distópica de seres humanos que funcionam pela ética do consumo e do utilitarismo. Nessa perspectiva a possibilidade de criar uma vida como forma de arte, uma nova possibilidade estética da existência livre e autônoma, é inutilizada.

Se nos séculos passados o corpo humano foi objeto de escravidão e contenções tirânicas, e o ato de libertação dependia de um movimento violento que envolvia fluidos, vísceras, tripas e coração, hoje a revolta emancipatória também se faz no plano cognitivo. É a guerra de narrativas sobre a própria realidade, de um lado a realidade humana, do outro a realidade artificial. A independência cognitiva pode ser criada principalmente a partir do estímulo ao pensamento crítico, a maior arma contra o fascismo, agora contra o pensamento mecânico. A possibilidade da criação de uma forma de vida autêntica é a luta mais basilar e constitutiva que o ser humano terá agora de travar.

Nesse sentido, Castor reforça a concepção dos gregos:

"Criar a própria forma de vida era para a filosofia antiga a melhor e maior obra de arte que cada sujeito pode realizar em sua vida. O modo de existência tornava-se uma obra de arte, com todas as implicações da dimensão estética. Na dimensão estética da existência sobressai a vida como uma forma bela de ser, a dimensão criativa de si constitui-se na motivação permanente do agir. Nesta perspectiva, entende-se melhor porque para os gregos e romanos a estética era tão relevante nas diversas esferas da vida social. Não era só porque gostavam de ornamentar bem as casas ou as cidades. A estética cultivada na pintura, arquitetura, escultura, música, literatura, teatro era um tênue reflexo daquela que era a principal obra de arte que cada sujeito deveria criar: sua forma de vida." (Ruiz, p. 10-11)

É justamente nesse ponto que a figura de Ulisses (ou Odisseu) se torna preciosa. Se a existência autêntica exige a coragem de esculpir a própria forma de vida como uma obra de arte inacabada, poucos personagens da tradição ocidental encarnam essa tarefa com tanta intensidade quanto o herói homérico. Sua travessia não é apenas geográfica, é sobretudo uma travessia ética, na qual cada provação funciona como matéria bruta a ser trabalhada pela vontade e pelo discernimento. Antes de retomar o mito propriamente dito, vale perguntar o que significa, afinal, atravessar o horror sem se perder nele.

Talvez a Odisseia para além de uma jornada histórica, possa de fato nos despertar questionamentos relevantes sobre a realidade que nos cerca. A experiência de Odisseu nos mostra como o ser humano é capaz de atravessar as piores adversidade e atribulações da vida, e ainda assim continuar sua caminhada em busca daquilo que mais amamos. Depois de tantas guerras, perdas, mortes e desastres, a pergunta que fazemos é: quando Odisseu volta pra casa ele é o mesmo ser humano que partiu de Ítaca? Certamente que não. A jornada de Odisseu provavelmente deixou marcas profundas em sua existência, mas mesmo assim, ele aceitou sua tragédia sem imobilizar-se em uma resiliência estática e rígida. Talvez essa seja uma das maiores lições da Odisseia para toda a humanidade que nasce depois dela: seu arquétipo de continuidade; a real capacidade de apropriar-se de si mesmo, abraçando as alegrias e as tristezas da vida com a mesma intensidade, aprendendo a seguir em frente mesmo diante dos enormes desafios.

Tendo isso em mente, diferentemente de uma leitura estrita das passagens do canto, proponho uma leitura crítica e alegórica dos desígnios de Odisseu em algumas das passagens mais conhecidas da jornada. É o que pretende-se fazer.

Polifemo: a passagem pelo ciclope e o orgulho

Odisseu e seus homens escapam escondidos sob carneiros | Fonte: Wikimedia Commons | Jacob Jordaens (1593–1678)

Ao desembarcar na ilha dos ciclopes em busca de suprimentos, Odisseu e seus homens seguem um rebanho de ovelhas até a caverna de Polifemo, filho de Poseidon. O gigante os aprisiona ali, fechando a entrada com uma enorme rocha, e passa a devorar os companheiros do herói, um a um, instaurando uma situação aparentemente sem saída.

É nesse momento que se manifesta a métis (μῆτις) do herói, isto é, a inteligência astuciosa e estratégica que caracteriza o herói homérico. Depois de embriagar o ciclope e apresentar-se sob o falso nome de "Ninguém" (Outis), Odisseu cega-o com uma estaca em brasa. Para escapar, ele e seus homens amarram-se sob o ventre dos animais, de modo que o gigante, agora cego, ao apalpar apenas o dorso das ovelhas, não percebe a fuga. A estratégia revela a superioridade da inteligência sobre a força bruta, um dos temas centrais da Odisseia.

Na cena, Odisseu foge da caverna do ciclope Polifemo, escondido sob o ventre de um carneiro, para não ser percebido pelo monstro. A imagem representa o momento em que o herói consegue escapar com astúcia e engenho, após cegar Polifemo e enganá-lo para salvar a si mesmo e seus companheiros | Fonte: Wikimedia Commons

Já em segurança no navio, porém, o herói abandona a prudência e sucumbe à hybris (ὕβρις), o excesso de orgulho e autoconfiança que leva o homem a ultrapassar os limites da medida. Incapaz de contentar-se com a vitória silenciosa, revela sua verdadeira identidade e se gaba de ter enganado o ciclope, desejando que sua glória (kleos, κλέος) chegasse até mesmo aos ouvidos do inimigo. Esse desejo de reconhecimento acaba superando a necessidade de preservar a própria vida e a de seus homens. Sabendo agora o nome do adversário, Polifemo invoca o pai e pede vingança. Poseidon atende à prece e transforma o retorno de Odisseu numa longa sucessão de tempestades, naufrágios e perdas, mostrando que, na tradição grega, a falta de medida (sophrosyne, σωφροσύνη), isto é, o equilíbrio e o autocontrole diante das próprias paixões, conduz inevitavelmente ao sofrimento.

Nessa passagem, vê-se o ego do herói falar mais alto que sua phronesis (φρόνησις), a prudência prática que permite agir com discernimento diante do perigo. Por mais que se destaque pela métis que o define, Odisseu termina cedendo à hybris, e essa falha lhe custará não apenas o favor dos deuses, mas também a vida de muitos de seus companheiros.

Se em Polifemo o fracasso de Odisseu nasce do excesso, da incapacidade de conter o próprio orgulho diante da vitória, a provação seguinte exige dele exatamente o oposto. Já não se trata de refrear a vaidade depois do triunfo, mas de resistir a um desejo que ataca antes mesmo que a vontade tenha chance de reagir. Se a hybris é o excesso que vem de dentro, as sereias representam o excesso que vem de fora, sob a forma de sedução. Uma mesma fragilidade humana, testada agora por um adversário completamente diferente.

As sereias: a busca pelo prazer imediato e a perda de si

Odisseu e as Sereias | Fonte: Herbert James Draper (1863–1920)/Wikimedia Commons

O episódio das sereias representa uma das metáforas mais poderosas da tradição grega sobre a dificuldade acerca do conhecimento de si. Diferentemente de monstros que atacam pela força, as sereias vencem pela sedução. Seu canto desperta um desejo tão intenso que faz o navegante esquecer sua finalidade, sua identidade e seu destino. Quem cede ao chamado abandona o leme da própria vida e acaba conduzido à destruição.

Odisseu sabe que não é imune à tentação. Em vez de confiar excessivamente em sua força de vontade, ele age com phronesis (φρόνησις), a prudência prática. Antes de aproximar-se das sereias, ordena que seus companheiros tapem os ouvidos com cera e que o amarrem firmemente ao mastro do navio. Mesmo que implore para ser libertado, eles recebem a ordem de apertar ainda mais as cordas. O herói reconhece os limites da própria vontade e cria mecanismos externos para impedir que um desejo momentâneo destrua seu objetivo maior: retornar a Ítaca.

A lição permanece atual. As sereias contemporâneas raramente têm forma de monstros; apresentam-se como pequenas gratificações instantâneas que prometem prazer, conforto ou entretenimento sem esforço. Redes sociais que sequestram horas de atenção, apostas esportivas, pornografia, álcool, tabagismo, jogos de azar e outras compulsões compartilham uma mesma lógica: oferecem uma recompensa imediata em troca da perda gradual da liberdade. Não costumam destruir uma vida de uma só vez; fazem-no lentamente, consumindo a capacidade de concentração, empobrecendo a profundidade emocional, corroendo relacionamentos, desviando recursos financeiros e enfraquecendo a disciplina necessária para perseguir uma real autonomia e liberdade do ser.

Os gregos chamavam de enkrateia (ἐγκράτεια) a capacidade de governar os próprios impulsos, e de sophrosyne (σωφροσύνη) o equilíbrio que resulta disso, mas o que está em jogo ali não é pureza nem contenção. É continuidade. Odisseu se amarra ao mastro não para negar o desejo, mas para não deixar que um instante decida por ele o resto do caminho. A akrasia (ἀκρασία), a fraqueza de ceder ao prazer imediato, não é falha de caráter, é o momento em que se perde o fio da própria trajetória, em que se troca a viagem inteira por um canto que dura segundos.

O mastro, então, não é disciplina, é a garantia de que ele vai continuar sendo o homem que quer voltar a Ítaca, mesmo diante daquilo que promete fazê-lo esquecer isso. A liberdade, aqui, não é a ausência de amarras. É poder atravessar a tempestade, a sereia, a perda, e ainda assim seguir sendo o autor da própria travessia.

Conclusão

Ao final da jornada, Odisseu não é reconhecido por sua glória, nem pelos feitos que o tornaram lendário, mas por um cão velho que o espera há vinte anos e morre no instante em que o reconhece. Argos não confunde o herói com o mendigo em que ele se disfarçou, porque aquilo que define Odisseu nunca esteve na superfície, mas em algo mais profundo, que a passagem do tempo e do sofrimento não corroeu. É essa a resposta que a Odisseia oferece à pergunta que abre este texto.

Representação artística da cena do reencontro entre Odisseu e Argos | Fonte: James Baldwin/Wikimedia Commons

Se hoje corremos o risco de nos tornarmos seres modelados por uma epistemologia artificial, esvaziados daquilo que os gregos chamavam de cuidado de si, a jornada de Odisseu nos lembra que a humanidade não se mede pela eficiência, pela ausência de falhas ou pela otimização constante de si mesmo, mas pela capacidade de atravessar o horror, errar pela hybris, ceder e resistir às sereias do desejo, e ainda assim permanecer reconhecível a quem nos ama no retorno. Talvez seja esse o convite que a Grécia Antiga nos faz diante do século XXI, o de recusarmos a existência planificada das máquinas e reivindicarmos, como Odisseu, o direito de esculpir a própria vida como obra de arte, mesmo que essa obra esteja sempre inacabada, sempre em risco, sempre exigindo de nós a coragem de recomeçar.

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