"Quando uma grande multidão se reúne em torno de Jesus (Mt 13,2), ela traz consigo toda a expectativa despertada por esse anúncio. O povo empobrecido busca esperança e libertação, enquanto as estruturas políticas e religiosas, incomodadas com a justiça do Reino, já conspiram para 'tirar-lhe a vida' (Mt 12,14).
"É nesse contexto de tensão que Jesus ensina por meio das parábolas. Sua linguagem nasce do cotidiano, da experiência do povo, dos campos, das sementes e da terra. É uma pedagogia que revela os mistérios do Reino aos pequenos e interpela aqueles que insistem em fechar o coração à ação de Deus.
"A conhecida parábola do semeador não é uma metáfora abstrata. Ela nasce da dura realidade dos camponeses da Palestina do primeiro século. Muitas famílias haviam perdido suas terras, tornando-se dependentes de grandes proprietários ou obrigadas a sobreviver em áreas pouco férteis, às margens dos caminhos, entre pedras e espinhos."
A reflexão é de Celia Soares de Sousa, cristã leiga, casada, graduada, mestre e doutora em Teologia, Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tem experiência na formação de leigos e leigas e orientação de retiros espirituais.
1ª Leitura - Is 55,10-11
Salmo - Sl 64,10.11.12-13.14 (R. Lc 8,8)
2ª Leitura - Rm 8,18-23
Evangelho - Mt 13,1-23
Eis a reflexão.
No Evangelho de Mateus (Mt 13,1-23), que lemos neste 15º domingo do tempo comum inaugura o chamado Discurso das Parábolas. Contudo, a chave de leitura desse discurso encontra-se nos capítulos 11 e 12 de Mateus, nos quais Jesus manifesta claramente sua prática libertadora. Em Mt 11,5, Ele apresenta o horizonte do Reino de Deus: "Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados."
Quando uma grande multidão se reúne em torno de Jesus (Mt 13,2), ela traz consigo toda a expectativa despertada por esse anúncio. O povo empobrecido busca esperança e libertação, enquanto as estruturas políticas e religiosas, incomodadas com a justiça do Reino, já conspiram para "tirar-lhe a vida" (Mt 12,14). É nesse contexto de tensão que Jesus ensina por meio das parábolas. Sua linguagem nasce do cotidiano, da experiência do povo, dos campos, das sementes e da terra. É uma pedagogia que revela os mistérios do Reino aos pequenos e interpela aqueles que insistem em fechar o coração à ação de Deus.
O protagonista da parábola não é propriamente o solo, mas o Semeador. Ele semeia abundantemente, sem fazer distinção entre os terrenos. A generosidade da semeadura revela a superabundância do amor de Deus, que não desiste da humanidade e continua oferecendo sua Palavra, mesmo onde aparentemente não há esperança. Antes de ser uma reflexão sobre os diferentes tipos de terreno, a parábola revela, sobretudo, a misericórdia de Deus, que sempre acredita na possibilidade de um novo começo.
A conhecida parábola do semeador não é uma metáfora abstrata. Ela nasce da dura realidade dos camponeses da Palestina do primeiro século. Muitas famílias haviam perdido suas terras, tornando-se dependentes de grandes proprietários ou obrigadas a sobreviver em áreas pouco férteis, às margens dos caminhos, entre pedras e espinhos.
Ao apresentar os diferentes tipos de solo, Jesus não descreve apenas diferentes atitudes diante da Palavra, mas revela uma sociedade marcada pela exclusão, pela concentração da riqueza e pela insensibilidade diante do sofrimento humano. Aqueles que deveriam cuidar do povo olham, mas não veem; ouvem, mas não escutam. Tornam-se incapazes de reconhecer a presença de Deus na vida dos pobres e de acolher o projeto libertador do Reino.
Também hoje encontramos muitos "solos" endurecidos. São estruturas sociais que negam direitos, descartam vidas e transformam pessoas em números. A Palavra de Deus continua sendo lançada com generosidade, mas encontra obstáculos produzidos pelo egoísmo, pela desigualdade e pela indiferença.
Essa falta de cuidado não atinge apenas as pessoas, mas toda a criação. São Paulo afirma que "a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente" (Rm 8,22). O gemido da terra une-se ao clamor dos pobres, revelando que toda a criação espera pela plena manifestação do Reino de Deus.
O gemido da criação é também o gemido das mães que choram seus filhos, dos migrantes que buscam um lugar para viver, dos povos indígenas que defendem seus territórios, das famílias sem moradia, das vítimas da violência e de toda pessoa cuja dignidade foi ferida. São Paulo nos recorda que Deus escuta esse clamor e faz dele a esperança de uma nova criação.
O saudoso Papa Francisco recordou, ao longo de seu pontificado, que não é possível separar o cuidado das pessoas do cuidado da criação. A cultura do descarte fere simultaneamente os mais vulneráveis e a Casa Comum. O sofrimento dos pobres, a devastação ambiental, as guerras, a fome e as migrações forçadas revelam que o pecado continua produzindo solos áridos, incapazes de gerar vida.
O Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, reafirma que toda ação humana deve colocar a dignidade da pessoa no centro. Nenhum progresso tecnológico, econômico ou político pode justificar a perda da dignidade humana nem obscurecer o valor sagrado de cada pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. Esse ensinamento dialoga profundamente com a esperança anunciada por Paulo: toda a criação aguarda uma humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma, com os irmãos e com toda a obra da criação.
Ao explicar a parábola aos discípulos, Jesus oferece também um diagnóstico para o nosso tempo.
À beira do caminho, encontram-se os corações endurecidos pelo egoísmo, pela mentira, pela violência e pela incapacidade de reconhecer o outro como irmão. A Palavra sequer encontra espaço para germinar. No terreno pedregoso, está a fé superficial, marcada pelo entusiasmo passageiro. Celebra-se com alegria, mas desiste-se quando o Evangelho exige perseverança, compromisso e conversão.
Entre os espinhos, aparecem as preocupações excessivas com o dinheiro, o consumismo, a busca desenfreada pelo poder, pelo prestígio e pelo sucesso. Essas "sarças" continuam sufocando a Palavra e impedindo que ela produza frutos de justiça, fraternidade e solidariedade.
A parábola permanece extremamente atual. Ela nos convida a perguntar não apenas que tipo de solo somos individualmente, mas também que tipo de sociedade estamos construindo. Nossas comunidades favorecem o florescimento da Palavra? Nossas escolhas econômicas, políticas e sociais produzem vida ou aprofundam as desigualdades?
Apesar dos terrenos difíceis, a esperança nunca desaparece. A força da Palavra de Deus é maior do que toda resistência humana.
O profeta Isaías nos enche de confiança:
"Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem antes regar a terra, fazendo-a germinar e produzir fruto (...), assim acontece com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim sem produzir o seu efeito." (Is 55,10-11)
A eficácia da Palavra não depende apenas da capacidade humana. Ela é dom, graça e iniciativa de Deus. Mesmo quando parece sufocada pelas injustiças ou esquecida em meio às crises do mundo, continua fecundando a história por meio de homens e mulheres que vivem o Evangelho no cotidiano.
Cada gesto de solidariedade, cada defesa da vida, cada compromisso com a justiça e cada comunidade que acolhe os pobres tornam-se sinais concretos de que a semente continua produzindo frutos.
A semente generosa que produz frutos abundantes nasce do amor infinito do Coração de Jesus. Como nos ensinou o saudoso Papa Francisco na encíclica Dilexit Nos, é do Coração aberto e transpassado de Cristo que brota o amor capaz de curar nossas feridas, restaurar nossa humanidade e renovar nosso compromisso com os irmãos e irmãs.
Essa experiência do amor de Deus conduz inevitavelmente ao compromisso com os mais vulneráveis. Leão XIV, na exortação apostólica Dilexi te, recorda que o amor recebido de Cristo se transforma em serviço, especialmente junto aos pobres, aos sofredores e a todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. A autenticidade da fé manifesta-se na capacidade de cuidar, acolher, servir e construir comunhão.
A parábola termina olhando para a terra boa, não porque ela seja perfeita, mas porque acolhe a Palavra e permite que Deus realize sua obra. Também nós somos chamados a ser essa terra fecunda. Em tempos marcados pela indiferença, pela violência e pela fragmentação das relações humanas, o discípulo missionário continua acreditando que a última palavra não pertence ao mal, mas ao Reino de Deus.
É tempo de semear com esperança. É tempo de cuidar da vida com ternura. É tempo de defender a dignidade humana, promover a justiça, preservar a Casa Comum e testemunhar, por meio de gestos concretos de fraternidade, que o Evangelho continua produzindo frutos de paz, solidariedade e esperança.
Deus de amor e de ternura, abri nossa mente e nosso coração para acolher a vossa Palavra. Tornai-nos terra boa, capaz de remover as pedras do egoísmo, arrancar os espinhos da indiferença e cultivar os frutos da justiça e da paz. Que, fortalecidos pelo amor do Coração de Cristo, sejamos presença solidária junto aos pobres, promotores da dignidade humana e cuidadores da criação que geme esperando a redenção. Fazei de nossas comunidades sinais vivos do vosso Reino, para que a esperança continue germinando em nosso mundo.