08 Julho 2026
"O caminho cristão não pode ser pela anulação do discernimento, mas pelo uso articulado do coração e da inteligência. A verdade não é algo imposto", escreve Fernando Altemeyer Junior, assistente doutor da PUC-SP.
Eis o artigo.
Os tradicionalistas e os fundamentalismos estão crescendo e tornando as pessoas gravemente enfermas na alma. É uma verdadeira epidemia: estão na política, na cultura, e, sobretudo, presentes nas religiões e igrejas cristãs. Como será que esse parasita cancerígeno se instala em um corpo sadio e o faz definhar aos poucos? Como acontecem as metástases em tantos países? Quanto mais criticados, mais os tradicionalistas endurecem e se fecham. O caso recente das seis excomunhões de lefrebvistas é um exemplo, entre tantos. O Brasil tem grupos católicos à beira de um cisma ao semear um cristianismo guerreiro e narcisista.
Fundamentalismo pode ser confundido com zelo, fidelidade, firmeza de convicções. Na prática um fundamentalista nada tem de fundamental ou de busca de raízes. Ele sempre acaba traindo os valores que supostamente pretende proteger. Na busca frenética e irracional de fixar uma leitura única e uniforme de um texto religioso acaba assumindo uma posição psicologicamente doentia e produzindo atitudes condenáveis, sectárias e extremistas. Os fundamentalistas sempre semeiam divisão, agressões e desconfiança frente aos outros e muitas vezes dentro de sua própria denominação religiosa. Cristalizam textos sagrados, divinizam costumes e tradições secundárias, endurecem seus corações e sua inteligência, sofrendo de um “Alzheimer” devastador de mentes e famílias religiosas. Os muitos fundamentalismos cristãos nascem sempre de postura totalitárias. Aqui está a força da doença e todo tratamento se demonstra eficaz.
O fundamentalismo é uma guerra declarada contra tudo e todos que discordam de seus pontos de vista e de como impõem a sua fé caricata. Quanto mais criticamos um fundamentalista mais ele se acha certo e verdadeiro. A doença que começou pelo medo dos outros se tornará rapidamente uma obsessão contra os outros. E, claro, tudo feito em nome de Deus e na defesa da tradição e da verdade. O fundamentalista acredita que estamos em uma guerra gigantesca e que ele é o soldado escolhido por Deus ou pelo Cristo para enfrentar os demônios que estão em toda parte. Ele precisa de disciplina, de vestes distintas e modos alternativos de ser. Ele se isola, não toca mais nos outros, sofre processo de lavagem cerebral de lideranças religiosas manipuladoras e vive em um mundo paralelo já que este mundo está corrompido e tomado pelo mal. Ele acredita que é preciso destruir o pluralismo e as visões distintas em favor de uma uniformização total de valores, pessoas e modelos. Crê que a uniformidade é quem garante a unidade. Assim como a globalização econômica quer se impor sobre tudo e todos, assim também deve existir uma globalização totalitária da religião.
Diz o teólogo Leonardo Boff: “A uniformização global gerou forte resistência, amargura e raiva em muitos povos. Assistiam a erosão de sua identidade e de seus costumes. Em situações assim surgem, normalmente, forças identitárias que se aliam a setores conservadores das religiões, guardiães naturais das tradições. Daí se origina o fundamentalismo que se caracteriza por conferir valor absoluto ao seu ponto de vista. Quem afirma de forma absoluta sua identidade, está condenado a ser intolerante para com os diferentes, a desprezá-los e, no limite, a eliminá-los (Leonardo Boff)”.Além desta tarefa guerreira e sectária de conferir valor absoluto a uma visão parcial, ainda existem outros pontos fortes do processo fundamentalista.
Aqui estão cinco deles:
1. Aferrar-se incondicionalmente a um texto, de forma literal e sem contexto. O texto pelo texto sem pretexto. Isso pressupõe que alguns poucos líderes, ditos carismáticos, tenham toda a autoridade de leitura e interpretação, se necessária e que indiquem os modos autoritários de se comportar e de viver, até na vida moral e sexual. Outro aspecto decorrente do literalismo na leitura dos textos sagrados será a imediata exclusão dos dissidentes. Dizem defender a tradição, mas estão sufocando-a. Assim escreve o compositor Gustav Mahler, citado pelo Papa Francisco: "a tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo".
2. Ausência de criatividade ou interpretações alternativas, pois as verdades são absolutas e não se deve expressar de outro modo mesmo se estamos em outro momento histórico. É a cristalização e enrijecimento do Evangelho preso a um sistema religioso intocável. É como se dissessem: “Nós faremos a vontade de Deus, quer Deus queira ou não”. Até Deus se torna prisioneiro dos discursos patológicos destas corporações religiosas. Se consideram mais papistas que o papa. Mais santos que os anjos. Sempre superiores aos demais pecadores e heréticos.
3. Absolutismo religioso, pois o grupo se diz dono de um texto ou até de um carisma. Tudo é branco ou preto. Não pode haver nuances e incertezas que geram buscas e perguntas. As respostas estão nos manuais e textos codificados ou petrificados em séculos anteriores, longe da legítima tradição.
4. Atração pelo extraordinário, pois em muitos grupos fundamentalistas religiosos abundam fenômenos maravilhosos atribuídos ao Espírito Santo. E como todos são movidos pela esfera emocional sem uso da crítica racional, descartam a lógica e a dialética para aferrar-se aos sentimentos, às catarses das multidões e muitas vezes ao culto das personalidades narcisistas de seus líderes. Parecem cegos seguindo cegos. E claro, quando alguém faz o diagnóstico de que estão doentes respondem forte: “você também está possuído pelo demônio”.
5. Condicionamento de multidão ao trabalhar com massas amorfas e sem identidades pessoais o que os tornam vulneráveis à contaminação afetiva instantânea. O filósofo José Ortega y Gasset estuda em seu livro Rebelião das massas, publicado na Espanha em 1930 este fenômeno. Disse Ortega: “O homem massa se sente perfeito. Hoje, o homem médio tem as ideias mais taxativas sobre tudo que acontece e deve acontecer no universo. Perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já tem dentro de si quanto lhe falta? Já não é preciso escutar, mas, ao contrário, julgar, sentenciar, decidir. Não existe nenhuma questão na vida pública em que este homem massa não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas “opiniões”. Mas, isto não seria uma vantagem? Massas com ideias? De forma alguma. As “ideias” deste homem massa não são autenticamente ideias, nem sua posse é cultura. A ideia é sempre uma verificação da verdade. Quem quer ter ideias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que a verdade mesma impõe. Não vale falar de ideais ou opiniões onde não se admita uma instância que as regule, uma série de normas a que no debate cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura. Sem isto, não há cultura, mas barbárie (Ortega y Gasset, La rebelion de las masas, Madrid: Alianza Editorial, 1995, p. 96-97)”.
Todo fundamentalista transforma religião e igrejas em mercado, negócio e os fiéis em consumidores de produtos de sua marca ou grupo religioso. E sempre fixa a visão e o coração dos adeptos ao passado e às verdades vigiadas. O fundamentalista se alimenta do medo, da insegurança, de uma obsessão fanática insistindo sobre certezas. Quanto mais ortodoxia, mais dúvidas são ocultadas e recalcadas. Quanto mais negam as tentações e diferenças, menos atingem o progresso e o conhecimento. Diz Sertillanges comentando o aprendizado pelos erros: “Avaliem o quanto a Igreja deve às heresias e a filosofia a seus grandes litígios. Se não tivesse havido Ario, Eutiques, Nestório, Pelágio, Lutero, o dogma católico não teria sido constituído. Deve-se aprender a pensar adequadamente, sobretudo em contato com os sábios, mas a própria loucura traz ensinamento, quem escapa a seu contágio extrairá dela alguma força. Quem tropeça e não cai, dá um passo maior” (A.-D.Sertillanges, A vida intelectual – seu espírito, suas condições, seus métodos, São Paulo: Editora É, 2010, p. 131-132.
Exemplos disso estão nas ruas e presentes em muitas cidades brasileiras. Grupos extremistas que criticam a sua própria Igreja com ódio e desprezo; adoração do Santíssimo desconectada do mistério pascal e da Eucaristia; novenas de padroeiros que relegam a um segundo plano o Pentecostes e o tempo litúrgico; roupas e estilos religiosos que remontam aos tempos medievais e que vão adestrando muitos jovens a disciplinas pouco evangélicas e lúcidas; cultos televisivos marcados pelo espetacularização, shows narcisistas e exorcismos descabidos; venda do sagrado, e sobretudo, promoção de emoção descontrolada nas multidões; glossolalia em lugar de pregação da palavra; gritos em lugar de silêncio; integrismos em lugar da integridade da fé; práticas mágicas em lugar de Evangelho; fanatismo de grupos; culto de personalidades em detrimento da Igreja Povo de Deus; clericalismo; obsessão por milagres e fatos extraordinários; em lugar do serviço discreto e permanente aos pobres se assiste a difusão de orgulho e vaidades confessionais; e, discursos anti-ecumênicos contra todas as demais denominações, igrejas ou religiões.
A religião cristã não nasceu nem se organizou de forma fanática, mas alguns fanáticos se apoderaram dela para destruí-la. Atrás dos fanáticos vem violência simbólica e depois desta violência física. Isto tudo é uma degeneração da fé original. É uma doença e um desvio patológico. É preciso ser visto, compreendido e interpretado. Descobrir suas causas, seus medos, seus atores principais e como enfrentar sem engrandecer ou confrontar abertamente. Para enfrentar os fundamentalistas e fanáticos será preciso muito discernimento e lucidez. Primeiro porque o fundamentalista não o é por ser religioso, mas por estar doente em sua alma psíquica. Todo fanático não é alguém profundamente religioso. Vive de vernizes. Vive de superficialidades. Teme mergulhar na sua própria fé e religião.
O fundamentalista cristaliza Deus em fórmulas e faz das igrejas instituições sem alma transformando os fiéis em funcionários obedientes e sem raciocínio longe dos pobres e das causas do Reino de Deus. São os fundamentalistas e fanáticos religiosos que fazem mal ao mundo e não a fé, a Igreja e a religião. “Apresentam assim uma caricatura de Deus, não sendo autêntica religião (Marins, José & Trevisan, Teolide, Fundamentalismo, obsessão contemporânea, Santa Maria-RS: Editora Pallotti, 2010, p. 128)”.
O biblista Raymond Brown dá algumas pistas para enfrentar o fundamentalismo: evite os preconceitos; proponha uma visão bíblica mais global; não ataque um fundamentalista; mostre sua fé e seu amor antes que seu discurso e a sua perspectiva da verdade. A vitória do Evangelho é feita em atos de amor antes que em discursos de poder. A eficácia de Jesus está antes nas mãos que sabem ser generosas mais que na apologética de teorias abstratas e estreitas. Bem disse Jesus: “o que sai da boca procede do coração é isto que torna o homem impuro (Mateus 15,18)”.
A pista mais fecunda para superar o fundamentalismo é o árduo caminho da escuta no encontro com o Deus vivo na oração e na liturgia. Não há receitas nem terapias eficazes. É urgente aceitar o mistério de Deus sem manipular. A fé deve converter-se em fidelidade e esperança. Só ovelhas perdidas fazem estremecer o coração de Deus, como diz Charles Péguy: “A ovelha perdida faz estremecer o coração de Deus. Num estremecimento ligado à própria esperança. Ela introduziu no próprio coração de Deus a teologal Esperança. É este, meu filho, o tal segredo. É este o mistério. A penitência do homem é um coroar duma esperança de Deus (Charles Péguy, Os portais do mistério da Segunda Virtude, Prior Velho-Portugal: Paulinas, 2013, 106-107)”.
Será preciso libertar Deus de nossos esquemas mentais e religiosos. Ao rechaçar o fundamentalismo podemos fazer a experiência do profeta Jó. “Jó não foi libertado da necessidade de praticar a justiça, mas da tentação de capturar a Deus em uma concepção estreita desta. Ele foi liberado, em princípio, da forma mais sutil da idolatria, perigo assinalado em vários momentos do livro de Jó. Deus aparecerá agora a Jó com toda a sua liberdade, liberado das estreitas categorias teológicas com que se quis aprisioná-Lo (GUTIERREZ, Gustavo. Hablar de Dios desde el sufrimiento del inocente – uma reflexión sobre el livro de Job, Lima: Instituto Bartolomé de las Casas, 1986, p. 200-201)”. Hoje redescobrimos que os seguidores de Jesus não estão a serviço de si mesmos, mas dos pobres, dos refugiados, dos indígenas, das mulheres e dos pequeninos. Enfim, à serviço da justiça e da paz. O fundamento de tudo é a misericórdia e não a posse particular da verdade. Assim escreveu Jean Marie Donovan, missionária norte-americana assassinada em El Salvador em 02/02/1980: “Várias vezes decidi-me ir embora... e quase o teria feito se não fosse pelas crianças, vítimas pobres e golpeadas pela loucura adulta. Quem cuidaria delas? Que coração seria tão duro para apoiar o racional neste mar de lágrimas e solidão? O meu, não, queridos amigos, não o meu (MARINS. José & TREVISAN, Teolide & CHANONA, Carolee. Memoria Peligrosa, México-DF: CRT, 1989, p. 271)”.
O caminho cristão não pode ser pela anulação do discernimento, mas pelo uso articulado do coração e da inteligência. A verdade não é algo imposto. Como diz Santo Tomás: “A verdade não depende de nossa opinião, mas da realidade”. Na fraqueza humana existe a graça e a presença do Espírito que nos faz viver o autenticamente cristão que é o discernimento. “O critério é a capacidade que tem o homem de fé para poder discernir os caminhos do Espírito (José Maria Castillo, in: A consciência crítica na Igreja – o discernimento cristão, Revista Concilium 139 fascículo 9 - Espiritualidade, Petrópolis: Vozes, 1978, p. 46)”. Buscar a verdade pelo amor ouvindo o diferente. Unidade na diversidade. Eis a questão atual e perene.
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