A religião precisa morrer para que o Evangelho nasça? Artigo de José Carlos Enríquez Díaz

Foto: Yannick Pulver | Unsplash

Mais Lidos

  • Poluição e seus malefícios na saúde humana e animal. Entrevista especial com Marina Ziliotto

    LER MAIS
  • Brasileiros mudaram de posição ideológica ao longo da última década. Artigo de Rudá Ricci

    LER MAIS
  • A inteligência artificial desencadeia uma guerra civil no mundo MAGA e Trump ainda não se posicionou

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

08 Julho 2026

"No fim das contas, a questão não é se a Igreja está perdendo influência, mas se está recuperando a sua alma. Não é se está mantendo sua forma, mas se está retornando a ser fiel às suas origens"

O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, teólogo, publicado por Religión Digital, 04-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Há uma pergunta incômoda que cada vez mais vem sendo apresentada com menos receio e mais realismo: a Igreja está viva, moribunda ou, em certo sentido, esgotada em sua forma atual? Não se trata de uma provocação, mas de uma observação que nasce daquilo que vemos. E o que vemos é claro: uma instituição que, para muitos, tornou-se um corpo estranho na sociedade, marcada pelo distanciamento, pela crescente irrelevância e por uma sensação de isolamento que já não se pode mais ocultar.

Mas, enquanto uma forma de Igreja parece estar desaparecendo, algo diferente está ganhando forma. É como se, em meio à crise, o cristianismo buscasse libertar-se daquilo que o mantinha prisioneiro.

O que está em jogo não é a fé, mas um modelo. O modelo de uma Igreja excessivamente hierárquica e centralizada, caracterizada por um exercício de poder quase monárquico, onde poucos decidem, definem e controlam. Trata-se de um sistema em que muitas questões continuam sendo intocáveis, a margem da participação real é restrita e o medo de perder o controle supera a confiança no povo que crê.

Não se trata apenas de uma questão de organização. É uma forma de entender a Igreja. Aquela de uma hierarquia que, muitas vezes, manipula habilidosamente os mecanismos institucionais para preservar o status quo interno, determinando o que pode ser pensado, o que pode ser questionado e até onde se pode pressionar. Tudo isso é frequentemente envolto por uma linguagem sagrada que, no fundo, acaba por blindar aquilo que, na realidade, são decisões humanas.

Mas o Evangelho aponta para uma direção diferente.

Jesus foi claro e direto: "A ninguém chameis de 'Rabi', pois tendes um só Mestre, e todos vós sois irmãos" (cf. Mt 23,8-10). Sua visão não deixa espaço para uma comunidade estruturada em torno do domínio ou do privilégio, mas sim de uma verdadeira fraternidade, onde a autoridade é entendida unicamente como serviço.

No entanto, a distância entre esse ideal e a realidade é, por vezes, evidente até demais. É por isso que não surpreende o crescente afastamento. Não porque a mensagem tenha perdido seu valor, mas porque a forma institucional de vivenciá-la já não transmite mais credibilidade a muitos. E, quando a forma desaparece, a essência subjacente fica obscurecida.

Apesar disso, em meio a essa crise, surge com força um desejo profundo: retornar ao essencial. Resgatar aquela Igreja das primeiras comunidades, onde não havia honrarias, títulos nem distâncias artificiais. Onde a fé era vivida na fraternidade, na simplicidade e no empenho.

Uma Igreja sem honrarias mundanas, sem necessidade de prestígio, sem estruturas que a separam da vida real. Uma Igreja onde ninguém se coloca acima de ninguém, pois todos se reconhecem como filhos do mesmo Pai. Como nos recorda o Evangelho: "Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos" (Mc 9,35).

Esse é o modelo, e é radical! Pois implica o desmantelamento de muitas formas de inércia. Implica deixar de conceber a Igreja como um espaço de poder para vivê-la como uma comunidade de iguais, onde o centro não é ocupado por quem manda, mas por quem serve.

Hoje, essa aspiração não é meramente teórica. Ela se manifesta em muitos fiéis que, longe do clamor, vivem sua fé com empenho, simplicidade e corresponsabilidade. Leigos que não esperam permissões para ser Igreja, que exercem seu sacerdócio comum, ainda que nem sempre reconhecido. Que sustentam comunidades, oferecem acompanhamento e servem... enquanto, de modo geral, continuam sendo vistos como secundários. E aqui reside uma das grandes contradições do nosso tempo: pede-se o envolvimento dos leigos, mas teme-se seu protagonismo. São convidados a colaborar, mas não a decidir. Abre-se a porta para eles, mas sob determinadas condições. Pois, no fundo, persiste o medo: o medo de que as rédeas escapem das mãos daqueles que identificaram demais a Igreja com a sua própria posição.

Mas o Evangelho, mais uma vez, desmantela esse argumento.

Jesus não organiza uma estrutura para controlá-la, mas uma comunidade para compartilhá-la. Ele lava os pés dos discípulos e diz: "Dei-vos o exemplo, para que façais o mesmo" (Jo 13,15). Não há gesto mais claro: a autoridade cristã não se impõe; se ajoelha.

Por isso, talvez, tenha chegado o momento de aceitar uma verdade incômoda: se uma certa forma de Igreja está morrendo, isso não é necessariamente uma perda. Poderia ser, de fato, um novo nascimento.

Pois o que morre não é o Evangelho. O que definha é a religião, que marginaliza o Evangelho e o torna irreconhecível. E o que pode nascer - se lhe for deixado espaço para isso - é algo mais próximo de suas origens: uma Igreja pobre, simples e fraterna; uma Igreja sem "seitas" onde se proteger, sem discursos que acabam justificando tudo e sem aquela atitude que nunca se escandaliza por ter aprendido a normalizar qualquer coisa.

Uma Igreja que não transforma o sagrado em rotina ou em negócio. Uma Igreja que lembra as palavras de Jesus: "Não façais da casa de meu Pai um mercado" (Jo 2,16). Uma Igreja que compreende que o sinal faz parte da mensagem. Uma Igreja que não teme perder o poder, sabendo que a sua força não reside nos ritos. Uma Igreja que não tem medo de se tornar pequena, pois o Evangelho nunca foi uma questão de grandeza, mas de verdade.

"Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á" (Mt 16,25). Essas palavras ainda hoje continuam sendo um alerta e uma oportunidade. Apegar-se a estruturas, privilégios e seguranças pode ser o caminho mais rápido para perder o que é essencial. Por outro lado, despojar-se de tudo, como Cristo fez, abre a porta para algo novo.

No fim das contas, a questão não é se a Igreja está perdendo influência, mas se está recuperando a sua alma. Não é se está mantendo sua forma, mas se está retornando a ser fiel às suas origens.

Pois a Igreja não é dos hierarcas. A Igreja é o povo de Deus. E, dentro desse povo - entre os simples, entre os que buscam, entre aqueles que servem em silêncio - já começa a pulsar uma outra maneira de ser Igreja.

Talvez menor. Talvez mais frágil. Mas também muito mais próxima do Evangelho.

Leia mais