Um túmulo: Yusuf e nós

Foto: ACNUR

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08 Julho 2026

Assim que tocou o solo de Lampedusa, ele foi até eles: até os migrantes sepultados sob cruzes de madeira, sem um nome. Nem sequer o nome: como se nunca tivessem existido. Mas havia um nome em uma das cruzes, e ali o Papa deteve-se em silêncio. Yusuf, que morreu com apenas seis meses de idade, em 2020.

A informação é de Marina Corradi, publicada por Avvenire, 05-07-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Arrancado de sua mãe, ainda muito jovem, pelo mar. Eles vinham da Guiné. Dezessete anos tinha aquela mãe no barco, ela mesma uma criança. E só podemos imaginar como, em meio ao rugido do mar revolto, que de repente se tornara hostil, aquela mãe-criança apertava o bebê contra si. Com todas as suas forças. Mas a tempestade era muito mais poderosa do que seus braços. Uma onda furiosa arrebatou Yusuf. As equipes de resgate o encontraram ainda respirando. Mas era tarde demais. O bebê sucumbira à hipotermia. Eles o enterraram, pequeno fardo branco, na terra de Lampedusa. Ele tinha seis meses e vocês sabem como são os bebês aos seis meses, com aqueles olhos brilhantes e os primeiros sorrisos. (Como se aguenta enterrar uma criança assim?)

Para nós é bom saber que o Papa parou diante do túmulo daquele bebê. Pois estamos bem cientes das dezenas de milhares de migrantes que o Mediterrâneo engoliu ao longo dos anos. Nas profundezas, jaz um imenso cemitério. No entanto, dezenas de milhares de pessoas formam uma multidão sem rosto. Yusuf, porém, é um, único, como todo filho, e podemos imaginar o seu rosto, o medo e os gritos lancinantes de sua mãe naquela noite no mar. Ela lhe dera a luz, e o mar o arrancara de seus braços, arrebatando-o para a sua escuridão. Lampedusa aparece frequentemente nos noticiários, e a maioria de nós escuta distraidamente. É assim há anos. Situações conhecidas. Todos sabemos. No entanto, ao deter-se diante daquela pequena sepultura, Leão XIV nos lembrou que cada indivíduo naquela multidão era um homem, um filho trazido ao mundo, amado, criado, criatura que queria viver.

Esse gesto do Papa abre uma ferida. Uma ferida que é uma bênção em meio ao esquecimento geral do Ocidente. Faz-nos lembrar, com um sobressalto: aqueles que tentam atravessar o nosso mar são todos homens e filhos.

Em Lampedusa, treze anos após Francisco, gestos que falam mais alto do que palavras. Aquela pausa junto à "Porta da Europa", como se aguardasse aqueles que vêm de longe, postado na soleira de uma casa que deveria estar aberta. Entre eles, e o Papa contemplou demoradamente, estende-se o Mediterrâneo: imenso, esplêndido e, por vezes, terrível. Atravessado por sombrios petroleiros russos, gigantescos porta-aviões EUA, iates de milionários e luxuosos navios de cruzeiro. E, em meio a tudo isso, lá embaixo, aquelas embarcações superlotadas. Pessoas que querem viver e, para viver, precisam partir: nutrindo esperança contra toda esperança. Como aquela jovem de dezessete anos e seu bebê. Vocês conseguem imaginar a coragem necessária para se aventurar em um mar que nunca se viu, entre estranhos, na escuridão total da noite, com um recém-nascido nos braços? Apenas um desejo absoluto de vida pode levar alguém a tal extremo.

Esse desejo impulsiona, como um rio caudaloso, em direção a uma Europa envelhecida e ressecada, que não tem mais filhos, nem herdeiros e nem mão-de-obra nos campos. Não tem mais enfermeiros nos hospitais, nem cuidadores para os nossos idosos, muitos idosos. É uma migração inexorável, já inscrita na história, uma migração que olhamos distraídos, assustados ou hostis. Eles batem à porta. Não deixaram nada para trás. Contudo, trazem algo consigo: a vida e o desejo de trabalhar e de ter uma continuidade em seus filhos. Como disse o Papa outro dia, falando com certo orgulho de "suas" Américas: "Um mundo moldado por imigrantes".

O homem parado na "Porta da Europa", não como sentinela, nem como guarda, está ali para sinalizar: mantenham a porta aberta. Obrigado por ter nos tornado humanos por um momento. E pelas poucas palavras da austera homilia: "Não vim trazer palavras, mas gestos". O maior gesto de todos: o partir do pão na Eucaristia. O partir do corpo de Cristo. Pão que nunca se esgota. Para aqueles que partem e para aqueles que morrem. Para aqueles que têm "tudo" em suas casas em Roma ou Paris, mas envelhecem e se sentem cada vez mais sozinhos. Do pátio, nenhuma voz de criança. (Lembram como no passado as crianças brincavam com bola nos nossos pátios, como gritavam.) “Yusuf, por que você não chegou? Você teria seis anos agora. Estaria começando a frequentar a escola em setembro, aprendendo italiano”. "Yusuf, por que você partiu tão cedo?", escreveram seus pais no túmulo do filho. E ninguém sabe a resposta. Somente em Deus, em Sua misericórdia, que transcende nossa imaginação, está o destino de Yusuf e dos outros, milhares de crianças como ele - o destino daqueles que em vão bateram à nossa porta. 

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