A tarefa doméstica pendente que Leão XIV tem pela frente. Artigo de Jesús Martínez Gordo

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08 Julho 2026

"Seria desejável que a segunda excomunhão dos "lefebvrianos" não escondesse nem desviasse a atenção desse crescente - e aparentemente imparável - abandono 'doméstico' por parte de muitos católicos, justamente impulsionado por essa forma infeliz de compreender e implementar a articulação entre unidade e poder que prende e obscurece a Igreja, em especial, aquela hierárquica, de 1964 até os dias de hoje", escreve Jesús Martínez Gordo, em artigo publicado por Religión Digital, 04-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Jesús Martínez Gordo é doutor em Teologia Fundamental e sacerdote da Diocese de Bilbao, professor da Faculdade de Teologia de Vitoria-Gasteiz e do Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral de Bilbao.

Eis o artigo.

Em 1º de julho de 2026, em Écône (Suíça), consumou-se o cisma, ou a ruptura da unidade, dos chamados "lefebvrianos" com a Igreja Católica. O motivo foi a ordenação de quatro novos bispos sem a permissão do Papa Leão XIV. Essa congregação ultraconservadora foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, que discordava tanto das decisões (por eles chamadas de "erros") aprovadas pelo Concílio Vaticano II (1962–1965) quanto de sua implementação durante o pontificado de João Paulo II. Em particular, Lefebvre rejeitava a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o diálogo entre cristãos (ortodoxos, luteranos, anglicanos, etc.) e com as outras religiões, a defesa da dignidade humana ou do humanismo, e a separação entre Igreja e Estado. E, como se não bastasse, consideravam especialmente insuportável o encontro inter-religioso de Assis (1986), entre outras razões porque, além de demonstrar que pertencer à Igreja Católica não era indispensável para a salvação, abria caminho para a crença de que não fosse mais condenável a participação a formas de culto dirigidas a - como alegavam - falsos deuses.

Em 2 de julho, o Vaticano anunciou - mais uma vez - a excomunhão ou expulsão da Igreja dos seis bispos "lefebvrianos", de seus padres e de todos os leigos que "aderiam formalmente" a esse grupo. Digo "mais uma vez" porque o primeiro cisma ocorreu em 1988, ano em que o arcebispo Marcel Lefebvre ordenou os primeiros quatro bispos sem o consentimento de João Paulo II. Com essa decisão, além de não aceitar - como mencionei - algumas das contribuições mais significativas do Concílio Vaticano II e do magistério subsequente da Igreja, ele estava, na prática, rejeitando a autoridade do Papa. A excomunhão foi imediata e permaneceu em vigor até 2009, quando Bento XVI a revogou, reintegrando-os assim à Igreja Católica. Atualmente, essa fraternidade conta com mais de 700 padres, 250 seminaristas e meio milhão de fiéis espalhados pelo mundo.

Diante desses números, ocorreu-me que valeria a pena lançar um duplo olhar - tanto de fora quanto de dentro - sobre a unidade e o poder na Igreja Católica, bem como sobre a sua gestão.

Acredito que poucas pessoas fora da Igreja tenham dificuldade em compreender e reconhecer que o anseio por uma paz estável e duradoura tem sido - e continua sendo - o objetivo primordial do Papa Leão XIV, assim como sua insistência em salvaguardar a dignidade da pessoa e sobre a devida atenção aos marginalizados do mundo. Parece-me, contudo, que muitas mais poderiam possivelmente desconhecer que a articulação entre unidade e poder representa, ao mesmo tempo, o maior problema e a maior virtude da Igreja ao longo da história e, portanto, também em nossos dias. Isso significa que não há unanimidade - por mais desejável que seja - quanto à compreensão e ao exercício do papado. Ou, mais precisamente, que é claramente melhorável o modelo atual que mantém a unidade da fé e a comunhão eclesial de 1,4 bilhão de católicos.

No Concílio Vaticano II, tomou-se a decisão - posteriormente confirmada por Paulo VI - de superar a modalidade individualista, absolutista e monárquica de conceber, justificar e exercer o papado em favor de uma abordagem colegial: a plenitude do poder – foi decidido - reside no Papa em conjunto com os bispos. Curiosa e surpreendentemente, essa decisão conciliar - após ser ratificada por Paulo VI - foi bloqueada pelo próprio Papa Montini, que argumentou que o Bispo de Roma poderia proceder - na implementação do "poder colegial" aprovado pela assembleia conciliar – “ad placitum” e segundo sua “propria discretio”, isto é, da maneira que ele, benevolentemente, julgasse apropriada. Aqui está a chave que permite compreender como funciona, desde então, a conjunção entre unidade e poder na Igreja: é evidente que na assembleia conciliar foi dado um passo adiante promovendo a compreensão colegial do poder e da unidade. Mas é igualmente verdade que, ao mesmo tempo, esse princípio é bloqueado em sua implementação jurídica: permanece intocado o modelo individualista, absolutista e monárquico de compreensão e exercício do papado, mesmo reconhecendo-se que a plenitude do poder na Igreja é colegial.

Desse legado decorrem muitos dos impasses atuais, a começar pela famosa encíclica de Paulo VI sobre o controle de natalidade (1968) e continuando com o abandono, seja silencioso ou explícito, tanto por meio de "exílios interiores" quanto das chamadas "migrações e hibridizações religiosas" em direção a valores absolutos como, por exemplo, o partido político, o time de futebol, a pátria, a qualidade de vida, o dinheiro, o corpo e uma longa lista de outros. Sem esquecer, obviamente, os abandonos explícitos e totais.

Consequentemente, muitas perdas eclesiais não são apenas - como frequentemente se alega - resultado da chamada secularização. Elas também decorrem de uma forma cada vez mais inaceitável de implementar a articulação entre unidade e poder não apenas entre o Papa e os bispos do mundo, mas também, e em especial, com todos os batizados e as batizadas, a começar pela maneira como essa conjunção de unidade e poder é exercida pelos bispos que - não eleitos, mas impostos – são mais próximos de nós: uma cópia fiel da implementação individualista, absolutista e monárquica conduzida por Paulo VI e não alterada nem mesmo pelo bem-intencionado empenho do Papa Francisco por uma "sinodalidade de escuta" - nunca de decisão compartilhada.

Seria desejável que a segunda excomunhão dos "lefebvrianos" não escondesse nem desviasse a atenção desse crescente - e aparentemente imparável - abandono "doméstico" por parte de muitos católicos, justamente impulsionado por essa forma infeliz de compreender e implementar a articulação entre unidade e poder que prende e obscurece a Igreja, em especial, aquela hierárquica, de 1964 até os dias de hoje.

Veremos se o Papa Leão XIV, no que diz respeito a essa questão, nos permitirá tocar os sinos em celebração, apesar de algumas decisões tomadas até agora ofereçam poucos motivos para isso: a interpretação restritiva das bênçãos para os casais do mesmo sexo; a nomeação da nova Prefeita do Dicastério para a Comunicação; a recusa em permitir que leigos e leigas preguem durante a Missa; e a confirmação da proibição do acesso das mulheres ao ministério ordenado.

Concordo com Oliver Wintzek, professor de Teologia Dogmática e Fundamental na Universidade Católica de Ciências Aplicadas de Mainz, quando defende que deveríamos estar muito mais preocupados com essa questão do que com a perda de um grupo tradicionalista dissidente que se considera fora do tempo.

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