27 Junho 2026
“Os Estados Unidos podem tolerar que a China mantenha relações econômicas estreitas com a América Latina, mas não podem aceitar que haja relações militares, pois isso jogaria por terra a Doutrina Monroe”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 26-06-2026.
Segundo ele, "é urgente mudar de estratégias, quando os Estados-nação foram blindados para servir ao capital e os Estados de bem-estar social foram demolidos. A estratégia em duas etapas, que Wallerstein denunciava como um erro das velhas esquerdas (chegar ao poder para depois mudar o mundo), nunca funcionou, mas agora assume um viés perigoso, pois aprisiona os povos".
Eis o artigo.
John Mearsheimer é considerado o analista geopolítico mais importante nesse momento de caos e colapso sistêmico, com análises tão claras e simples quanto profundas. Vale a pena ouvi-lo. Em uma entrevista recente, argumenta que, desde 2017, entramos em um mundo multipolar, com os Estados Unidos, a China e a Rússia configurando-se como grandes potências (Infobae, 9 de maio de 2026).
Essa transição da unipolaridade para a multipolaridade tem consequências profundas no cenário global e inaugura um período de grande instabilidade, ainda que não o mencione dessa forma. Como latino-americanos, interessa-nos seu ponto de vista sobre o papel de nosso continente na estratégia de Washington. “A América Latina é a área mais importante do mundo do ponto de vista estratégico para os Estados Unidos”, diz Mearsheimer.
“A chave é que os Estados Unidos são a potência hegemônica no hemisfério ocidental. É, de longe, o Estado mais poderoso do hemisfério: domina militar e economicamente todos os países da América Latina. Portanto, não enfrenta ameaças de segurança provenientes de seus vizinhos latino-americanos e se encontra notavelmente seguro dentro do hemisfério ocidental. Isso lhe permite concentrar-se na Ásia Oriental, na Europa e no Golfo Pérsico”, conclui.
Os Estados Unidos podem tolerar que a China mantenha relações econômicas estreitas com a América Latina, mas não podem aceitar que haja relações militares, pois isso jogaria por terra a Doutrina Monroe.
Desde o sul, a brasileira Carolina Silva Pedroso, especialista nas relações entre Estados Unidos e América Latina, considera que, segundo a Estratégia de Segurança Nacional divulgada em 2025, “a América Latina passa a ocupar uma posição prioritária na política estadunidense, substituindo o Oriente Médio como a região de interesse central” (IHU, 23 de junho de 2026).
Embora essas ideias já tivessem sido formuladas por Nicholas Spykman nas primeiras décadas do século passado, é necessário atualizar essas considerações: o continente latino-americano é vital para que os Estados Unidos mantenham uma posição dominante no sistema internacional. Mais ainda, cabe acrescentar, quando a potência hegemônica está em declínio e, em certos momentos, aproxima-se de seu colapso como nação.
A partir dessas análises, parece-me necessário e urgente compreender como essa realidade afeta e afetará os movimentos populares e os povos em movimento de nossa região. Não se trata de mais do mesmo; não é apenas uma repetição da longa história do “quintal”, mas há mudanças estratégicas que devemos considerar.
A primeira é a permanente e profunda militarização do continente. O que antes podia ser temporário e conjuntural, hoje se tornou estrutural. A militarização de todas as facetas da vida, das relações sociais à natureza, veio para ficar. É o núcleo da economia e a pedra angular da acumulação de capital. Ninguém deve acreditar que se trata de um desvio da norma (como foram os golpes de Estado), mas a própria norma durante um período impossível de determinar, que não será breve. Portanto, devemos refletir sobre como vamos resistir diante dessa nova realidade.
A segunda é que a militarização não depende de quem governa, justamente por ser uma questão estrutural do capitalismo atual. Nesse sentido, não há fronteiras geográficas, nem políticas. Observemos os governos progressistas e veremos que eles deram passos substanciais em direção à militarização, em todos e cada um dos países.
A terceira é que o patriarcado e o colonialismo também são funcionais à lógica militarista, o que os torna ainda mais perigosos. Daí a expansão brutal dos feminicídios, em modos tremendamente predatórios que destroem vidas e corpos de mulheres e de pessoas da cor da terra.
A quarta é que o militarismo se apresenta de formas muito diversas: do crime organizado aos programas sociais, incluindo a “cultura” que emana dos meios de comunicação e os modos como os esportes mercantilizados são praticados.
Diante desse panorama, não deve causar surpresa que cheguem ao governo personagens como Keiko Fujimori, Bukele e, agora, De la Espriella, que têm em comum o desprezo pela vida e a aliança com o crime e os paramilitares. São o tipo de pessoas de que o capitalismo necessita neste momento.
É urgente mudar de estratégias, quando os Estados-nação foram blindados para servir ao capital e os Estados de bem-estar social foram demolidos. A estratégia em duas etapas, que Wallerstein denunciava como um erro das velhas esquerdas (chegar ao poder para depois mudar o mundo), nunca funcionou, mas agora assume um viés perigoso, pois aprisiona os povos.
As novas estratégias são aquelas que vêm sendo implementadas por alguns povos e movimentos nas últimas três décadas: defesa do território, autogoverno e autodefesa, ou seja, a construção de autonomias.
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