16 Janeiro 2026
Uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (15) pelo instituto Quaest, em parceria com a Genial Investimentos, mostrou que parte considerável da população brasileira apoiou o ataque do governo de Donald Trump contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Paradoxalmente, o mesmo levantamento indicou que a maioria (58%) dos brasileiros teme uma ação militar dos Estados Unidos contra o Brasil. Felizmente para essas pessoas, essa preocupação não é justificável, segundo a professora Ana Penido, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A reportagem é de Felipe Mendes, José Bernardes e Larissa Bohrer, publicada por Brasil de Fato, 15-01-2026.
“A gente não tem que temer uma ação militar dos Estados Unidos [contra o Brasil], porque não faz sentido. Um golpe militar, um bombardeio direto, só é uma opção quando você não tem êxito em outras alternativas”, afirmou em entrevista ao jornal Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, nesta quinta.
A especialista destacou que o ataque contra os venezuelanos em 3 de janeiro, que terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, foi uma espécie de “última saída” do regime trumpista após muitas outras tentativas de desestabilizar a Venezuela, que já vinham sendo colocadas em prática há décadas.
“Os Estados Unidos tentaram apadrinhar um ‘presidente fake’, o [Juan] Guaidó; congelar recursos do estado; tentaram todo o tipo de cooptação dentro das forças armadas, por mais de 20 anos, e não conseguiram. Tentaram por via eleitoral, tentaram assassinatos, inclusive”, listou.
“O bombardeio é o último caminho, o último recurso de quem tentou tudo e não conseguiu lograr a vitória. Bombardear é caro. Todas as vezes que você abre uma guerra, você nunca tem certeza absoluta do que pode dar. Você não tem como controlar todos os fatores e variáveis”, prosseguiu Ana Penido.
A professora, porém, aponta que a situação no Brasil é muito distinta. Nos diversos golpes de Estado de nossa história, setores internos se articularam com forças exteriores – muitas vezes dos próprios Estados Unidos – para atentar contra nossa própria democracia. Assim, o mais provável é que jamais seja necessário essa “última cartada”.
“Quando ele lança mão disso na Venezuela, é porque não conseguiu êxito ao longo de 20 anos. Não é o caso do Brasil. Infelizmente, temos de ser honestos sobre isso. A gente sempre teve setores, dentro das nossas burocracias, sejam elas armadas ou não, gente do Judiciário, que sempre teve relação muito mais íntima com outros países, do que de fato com o Brasil”, lamentou.
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