A Venezuela como laboratório e a América Latina em disputa: os sentidos da nova doutrina Trump. Entrevista com Carolina Silva Pedroso

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23 Junho 2026

A entrevista a seguir é fruto do debate realizado no âmbito da série Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, promovida pelo Centro de Promoção de Agentes de Transformação (CEPAT) e o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), as Comunidades de Vida Cristã - CVX, Regional Sul e o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

O segundo encontro da série, ocorrido no último dia 20 de junho, teve como tema A América Latina diante da nova doutrina Trump e promoveu uma reflexão crítica sobre as recentes transformações da política externa dos Estados Unidos e seus impactos sobre o continente. Em um cenário marcado pela intensificação das disputas geopolíticas, o debate destacou questões centrais como o controle de recursos naturais e estratégicos, os limites da soberania nacional e os efeitos dessas dinâmicas sobre povos, territórios e recursos naturais.

A partir da exposição da Profa. Dra. Carolina Silva Pedroso, docente da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisadora das relações entre Estados Unidos e América Latina, organizamos a presente entrevista com o objetivo de sistematizar os principais argumentos desenvolvidos na conferência.

Série de debates ‘Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, com o tema ‘A América Latina diante da Nova Doutrina Trump'

Os eixos centrais do encontro foram: a reatualização da Doutrina Monroe, a centralidade da América Latina na estratégia internacional dos Estados Unidos, o papel da intervenção na Venezuela como laboratório geopolítico e os possíveis desdobramentos dessa agenda para a região, incluindo o Brasil.

Eis a entrevista.

Qual é o objetivo central da sua análise sobre a chamada “nova doutrina Trump”?

A proposta aqui é refletir sobre o significado dessa chamada nova doutrina Trump - ou, como o próprio presidente nomeia, “Doutrina Donroe” - e suas implicações para a região. Há motivos relevantes para preocupação com essa agenda, sobretudo pelas suas implicações sociais, ambientais e políticas.

Essa doutrina representa uma novidade na política externa dos Estados Unidos?

Um ponto central da minha análise é que essa doutrina, muitas vezes tratada como uma novidade, na verdade guarda fortes continuidades com a história política hemisférica dos Estados Unidos. Embora o estilo de liderança de Trump traga elementos próprios, considero mais importante observar as estruturas que sustentam essa política ao longo do tempo.

Que documento ajuda a compreender essa mudança de enfoque dos Estados Unidos?

Um documento fundamental é a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicado em novembro de 2025. Nele, a América Latina passa a ocupar uma posição prioritária na política externa norte-americana, substituindo o Oriente Médio como região de interesse central. Esse deslocamento revela que o continente é considerado vital para a manutenção da posição dos Estados Unidos no sistema internacional.

Como essa estratégia se relaciona com a Doutrina Monroe?

Esse documento retoma e atualiza a lógica da Doutrina Monroe, estabelecida no século XIX, segundo a qual os Estados Unidos reivindicam uma posição de primazia no hemisfério ocidental. Ao longo da história, essa doutrina foi reinterpretada conforme as ameaças percebidas: primeiro as potências europeias, depois o comunismo durante a Guerra Fria e, mais recentemente, a presença de países como China, Rússia e Irã.

Qual é o papel da China nesse cenário?

A atual formulação identifica, sobretudo, a China como principal ameaça, dado o seu papel como parceira comercial estratégica para diversos países latino-americanos. Nesse sentido, a política norte-americana busca reverter essa tendência, reancorando as economias da região em sua esfera de influência.

Série de debates ‘Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, com o tema ‘A América Latina diante da Nova Doutrina Trump'

Por que a Venezuela se tornou central nessa análise?

Para compreender os contornos dessa política, é fundamental observar o caso da Venezuela, que se tornou o principal laboratório dessa nova estratégia. Trata-se de um país com enorme relevância geopolítica, não apenas por suas vastas reservas de petróleo, mas também por outros recursos estratégicos.

Além disso, desde a Revolução Bolivariana, a Venezuela assumiu uma posição de contestação à hegemonia dos Estados Unidos, estabelecendo alianças com países considerados adversários estratégicos por Washington. Isso contribuiu para torná-la um alvo prioritário.

Como evoluiu a relação entre Estados Unidos e Venezuela ao longo do tempo?

Historicamente, essa relação foi marcada por tensões, mas também por interdependência econômica, especialmente no setor petrolífero. Esse padrão começou a se alterar de forma mais intensa a partir da ampliação das sanções econômicas e da crescente deterioração das relações diplomáticas.

O que caracteriza a ação dos Estados Unidos nesse segundo governo Trump em relação à Venezuela?

Observa-se uma combinação de estratégias: sanções econômicas severas, medidas de pressão diplomática, apoio a setores da oposição e, finalmente, ação militar direta. O caso venezuelano representa uma inflexão importante, pois marca a ampliação da intervenção direta dos Estados Unidos na América do Sul.

Quais foram os principais efeitos dessa intervenção?

A intervenção recente incluiu bombardeios, sequestro de lideranças políticas e imposição de condições econômicas que restringem significativamente a soberania do país. O controle sobre a comercialização do petróleo venezuelano, por exemplo, passou a ser condicionado aos interesses norte-americanos.

Esse conjunto de ações revela uma lógica clara: os Estados Unidos demonstram capacidade não apenas de desestruturar uma economia por meio de sanções, mas também de reconstruí-la de acordo com seus próprios interesses geopolíticos.

Que lições esse caso traz para a América Latina?

Em primeiro lugar, evidencia-se a disposição dos Estados Unidos de utilizar diferentes instrumentos - militares, econômicos e políticos - para garantir sua influência na região.

Em segundo lugar, observa-se a fragilidade das respostas regionais. A ausência de ações coordenadas de solidariedade ou resistência indica um cenário em que os países latino-americanos tendem a enfrentar isoladamente pressões externas.

Há mudanças no cenário político regional que reforçam esse quadro?

Sim. Outro elemento relevante é o avanço de governos alinhados aos Estados Unidos em diversos países da região, o que facilita a implementação dessa agenda. Ao mesmo tempo, cresce a militarização, com a ampliação de acordos que permitem a presença de bases militares norte-americanas.

E no caso do Brasil, quais são as possíveis implicações?

Embora o contexto seja distinto, há sinais de possíveis formas de interferência, especialmente no campo político e econômico. A classificação de organizações criminosas como “narcoterroristas” e o uso de medidas econômicas coercitivas são exemplos de instrumentos que podem ser mobilizados.

Diante desse cenário, qual é o principal desafio para os países latino-americanos?

A questão central passa a ser o grau de autonomia que os países da região conseguirão preservar. Embora o confronto direto com os Estados Unidos seja limitado, há espaço para estratégias de negociação, resistência e construção de alternativas.

Como caracterizar o momento atual da política externa norte-americana na região?

Embora os Estados Unidos nunca tenham deixado a América Latina, o momento atual se caracteriza por uma maior explicitação de seus interesses. Há uma redução do discurso justificatório associado à defesa da democracia ou dos direitos humanos, tornando mais evidente a centralidade dos objetivos geopolíticos.

Vivemos, portanto, um momento decisivo para a região, que exige reflexão crítica e capacidade de articulação diante dos desafios colocados.

Abaixo, disponibilizamos a íntegra da exposição e debate.

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